30 maio, 2011

ESTE AMOR É ESQUISITO





Este amor é esquisito.

Uma porta por fechar. O clique da lingueta, o vento.

Noites mal dormidas, risinhos trocistas no meu sono, bateres de portas e janelas, vozes na minha alma, coração acelerado, cabeça zonza, somatizações.

Um amor de construções na areia, muralhas da China.

Gosto de beber o ar por ti, ficar dormente e distraído. Sofrer por ti, extinguir-me em ti.
e…atiras o barro do teu coração à minha alma. Malabarismos circenses?

Este meu amor é esquisito.
Salta muros e pontes, navega em lombadas de livros e desemboca em areia em vez de mares.

Não tem vestígios de rugas, nem covinhas na face, mas parcimónia de palavras.

Não dura mais que um olhar e, no entanto, mãos dadas, sonhos reluzentes, escravos núbios que nos protegem de fio a pavio.

Este amor é esquisito.
Parece um programa de computador, imagens a 3D, recheado de sinónimos e frases delicodoces, vergonhas e lugares-comuns.

Escrevo e apago rascunhos incertos. Travo amargo de insanidade. Escárnio. Frases cirúrgicas debitadas pelo médico e a enfermeira, com o copinho recheado de bolinhas coloridas que se tomam com água.

Um travo amargo, memórias felizes corrompidas, rastilhos de espanto, sirenes na rua, tranca na porta, barulho de corredor, luzes a meio-termo, louco de poucas-palavras, cerebral.

Encolhido da vida, gestos contaminados, lágrimas em pranto.

Este amor é esquisito.
Ela não me quer. Eu nem sei. As lombadas dos livros não aceitam ninguém, o ar é apenas meu, tenho a alma colorida das bolinhas que me fritam o cérebro.

Gotas flamejantes nos teus olhos.

Continuo a dormir a três quartos, portas com fechaduras velhas, linguetas estridentes. Escrevo gatafunhos que não entendo e as luzes do enorme corredor parecem néons.

Tenho a enfermeira atrás de mim. Pílulas coloridas como arma de arremesso.
Três mamíferos rastejantes. Gritos na ala B.
Ela que me quer mas não casa.
Olhos amendoados e poucas palavras. Ondas hertzianas no sorriso, informações de guia turístico.

Tenho a porta quase fechada, o cérebro cristalizado, noites mal dormidas e risinhos trocistas dos anõezinhos dentro de mim.

Será o amor esquisito?

17 maio, 2011

GUARDO OS TEUS SORRISOS NUMA CAIXA




O teu sorriso. A covinha na bochecha, dentes de branco imaculado em lábios reluzentes.
Vincos nos recantos da boca.
Azuis os teus olhos, profundos nos meus, alma debicada, intenso e absoluto, eficaz.
Queria poder guardar os teus sorrisos numa caixa.

A minha avó a rezar o terço, voltas e voltas de ladainhas e o fio solto pelas mãos.
A lamparina de azeite sempre acesa em homenagem à Sra. de Fátima.
O raio de sol, qual milagre a enfiar-se pela frincha da porta e a clarabóia do sótão a debitar barulhos de telhas soltas.
O cheiro da sopa com muita couve, a aletria divina, o cabrito de chorar.

A bengala do meu avô, adorno de rei, a bater no soalho, chamando a empregada Conceição... ele que preferia palavras a sorrisos.
Chapéu e fato aprumado, verniz no sapato reluzente, o coração na bengala a descompasso.
O relógio de parede nas suas desoras redondas e um tic-tac infinito.
A gaveta mais baixa do armário com fotos antigas e condecorações de tempos idos.

Os meus passos pequeninos de sala em sala.
O silêncio preguiçoso que se espalha como nevoeiro. A noite que entra livre pela janela.
Olho-me no espelho e sorrio como há 40 anos, neste espaço que não cabe no tempo. Actores de nós.
Por vezes memórias, outras vezes palavras, olhos que exorcizam tempo distante.
O meu coração perdido nos antípodas e o teu sorriso ligeiro.
Um dia guardo os teus sorrisos todos numa caixa.

Este tempo, eterno labirinto de que não encontro saída e nele procuro sombras de abraços, restos de beijos e ecos de palavras murmuradas num assomo de desejo.
Caixinhas soltas, sonhos de vigília e barcaças que arranham a água.

Molhos de trigo por colher, os dedos pequeninos que teimam em alcançar, a lembrança perfeita da tua mão, passos em sentido contrário, costas com costas e bolos de mil-folhas lambidos em catadupa.

Correrias sôfregas no quintal. Joelhos esfolados. Gatos em reboliço. Janelas abertas em contraluz. Uma frase solta no caminho. Os teus olhos numa hora, outra sem te ver.

Sono despejado de sonhos, balanços de mar enjoado, o teu sorriso que guardo em mim…. e de quando em vez escondo numa caixa.

14 maio, 2011

CIDADE EM NÓS





Uma Igreja. Ruas desertas. Casinhas de papel. Um corrupio de gente, deambulando na ribeira.
Equilibristas sem corpo, chuto-na-veia, máscaras sem dentes de tristeza e desalento. Fardo com cicatrizes, desertos de estímulo, desalinhados na vida.

Cidade a acordar devagar.
Cheiros de resina, musgo fresco. Um algeroz que pinga. Café fresco. Um gato que se espreguiça. Roupa no estendal. Papel de cenário na escadaria.

A cidade respira a céu aberto, luz difusa, cacilheiros no cais de embarque, viagens de silêncio.
O teu corpo na gare do desejo e eu ancorado em mim.

Alguidares e caixotes.
O eléctrico da baixa. Uma “bica” aquecida, ossos desalinhados em rostos carcomidos, margens a preto e branco. Silêncios de alma, tristezas no baú da memória.

Igreja sem fiéis, beijos a tiracolo, pontes engalanadas, barbeiros bairristas, varinas ligeiras.

Da minha casa vejo o rio, da janela a cidade, o abraçar do fim do dia, gente composta, sopro de paixão, o piar de pássaros nervosos.

Um vento de gelo, anjos azuis na penumbra... O teu olhar.
Corpo a deslizar na água, a tua pele pegajosa, humidade misturada em mim.

Fado cantado que se evapora da tasca, mulheres de vistas largas, cheiro a terra, ventre parindo cores numa cidade a contraluz.
Manhã de sol rasante, ondas que se espalham lacrimejantes atiradas pelo vento.

Os meus passos e os teus pés descalços, caminho dourado, maré vaza, um abraço apertado.

O estuário do Tejo, piar de gaivotas em mistério de passagem para lugar nenhum.

Choupos adivinhando inverno. A tua na minha mão. Rodopios de beijos molhados. Os teus quadris com ritmo, doce brisa que embaraça o jeito.

Cidade que respira devagar... O teu corpo que me embriaga... Línguas de mar.
O meu nome na tua boca. Sussurro breve num aconchego macio.

08 maio, 2011

O NOSSO TEMPO



O nosso tempo é no verão.
Não nesta promessa de cansaço, dias curtos e cinzentos, cheiro a terra, bolorentos, mas no verão, sem estio de cansaço, sol queimando pelas costas, o cheiro a maresia e o calor nos pinos dos trópicos, camisolas curtas e calção sem pudor.

O nosso tempo é praia de areia branca e cristalina, bocas ansiosas do gelado, truques de magia em palanque engalanado e a dancinha das comendas com medalhas no peito pelo Presidente da Junta.

O nosso tempo, é um espaço sideral, flutuante, duas pontas entrelaçadas, nós de marinheiro, trombetas a cada gingar de ancas, traços comuns nas tuas costas, o meu coçar à tua volta, a teimosia que tens atrás da orelha, o crepitar do sangue nas veias, e a ponta dos teus dedos no reflexo do meu palato, mordiscando diabruras.

O nosso tempo são os baixos-relevos trabalhados na tua boca, laivos de donzela, heráldica e pantominices de lábios gordurosos como marca de água, delimitando-me mais por dentro que por fora.

Temos este tempo, de palavras difíceis, entendimentos vãos, monotonias de reportório, fugas ao vento suão que se perscruta no horizonte.

Tempos de orgulho mal parido, comédias de enganos, segredinhos de alcova e alcoviteiras embrulhadas em papel de rebuçado disfarçadas de virginais com cheiro a ranço.

O nosso tempo é no verão

A tua boca em espera, sorriso rasteiro, prazer escondido em algodão doce, beijos plasmados em televisões futuristas, silêncios ampliados pelo megafone do orgulho.
As tuas mãos, fonte de prazer, espanto de paixão, misericórdia de aflitos, constelação de esperança no fim dos dias.

Tens ausência de cachecol, golas-altas sem medida, frio de trota-mundos, e o fantasma agraciado com cefaleias coloridas.

Deslaço o calor na praia, espasmos de alegria, a tua língua caprichosa, indecências figurativas, horas contadas, interjeições e figuras de estilo, a tua pele e os sinais, o teu corpo agridoce, sem fronteiras, nem inquietude.

O nosso tempo é um mergulho no vazio, tropeção de pés para trás, coração colado às costas, excessos no parapeito, telhados na penumbra, amor adolescente, gritos enrolados no olho do furação.

Tens um ritual provocatório, como o mar ao pôr-do-sol, expedições ao árctico e rolos de carne num vê-se-te-avias.

E o teu beco sem saída, cantos e curvaturas, miudezas e ensaios nocturnos, vícios privados, polegares hirtos na fímbria do teu cabelo e a dedução lógica de não poder viver sem o teu corpo.

E sim, o nosso tempo é no verão.

04 maio, 2011

PÁSSAROS NUM CÉU DE MAIO




Pássaros num céu de Maio

Palavras coloridas. Esvoaçantes.
Como pássaros alegres num céu de Maio.

Música translúcida dos teus lábios em mim.
Sílabas inauditas e mágicas. Aromas frescos. Beijos colados na pele. Aguarelas de cor. Almas num só gozo. A lucidez na tua voz.
Pedaços de pecado ou pecado aos pedaços.

Espelhos cristalinos que nos envolvem, solfejos e rabiscos, aguarelas nuas, pétalas soltas, cheiros e perfumes em forma de desejo.

Palavras que me atiras, inebriantes como o teu corpo de mulher.
Vulcão que se faz lava. Sangue dos sentidos. Renovados desejos. Espaços por preencher. Alma cheia com formas e paletes de cores garridas, em pinceladas suaves.

Fragrância que emanas. Tontices minhas. Mordeduras doces com um cerimonial de palavras incertas, em inseguros voos. Parapeito do abismo, névoa de paixão agrilhoada no ventre. Compostos de carbono, diabruras em dó menor.

Anjos em êxtase, braços, pernas e tronco. Mãos que atam e desatam. Asas que voam em túneis de vento.

Pássaros num céu de Maio.

Noites de línguas doces, namoradeiras, silêncios que entopem.
Gente má, liquefeita, míopes sociais, ultrajantes saltitões.
Varinas, delinquentes, anacrónicos e burlões.

A tua e a minha voz, rosto e mãos, travos de desejo, cordilheiras e pontos cardeais.

Geometria de sombras chinesas. Feridas por suturar. Língua forrada de palavras em boca adormecida. A tua química a horas certas.

Café na baixa pombalina, noite apressada. Orquestras afinadas, entranhas remexidas, espaços a céu aberto, matriz dos dias.
Beijar-te no parapeito. Traduzir-te em simultâneo. Vaguear no teu corpo e fazer-te epílogo.

Jogada aritmética, dois-vezes-um-dois. Muleta linguística. Notícias a traço grosso. Sonoridade tangível. Peito arfante. O caminho do fim.

E os pássaros num céu de Maio.