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A mostrar mensagens de Maio, 2011

ESTE AMOR É ESQUISITO

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Este amor é esquisito.

Uma porta por fechar. O clique da lingueta, o vento.

Noites mal dormidas, risinhos trocistas no meu sono, bateres de portas e janelas, vozes na minha alma, coração acelerado, cabeça zonza, somatizações.

Um amor de construções na areia, muralhas da China.

Gosto de beber o ar por ti, ficar dormente e distraído. Sofrer por ti, extinguir-me em ti.
e…atiras o barro do teu coração à minha alma. Malabarismos circenses?

Este meu amor é esquisito.
Salta muros e pontes, navega em lombadas de livros e desemboca em areia em vez de mares.

Não tem vestígios de rugas, nem covinhas na face, mas parcimónia de palavras.

Não dura mais que um olhar e, no entanto, mãos dadas, sonhos reluzentes, escravos núbios que nos protegem de fio a pavio.

Este amor é esquisito.
Parece um programa de computador, imagens a 3D, recheado de sinónimos e frases delicodoces, vergonhas e lugares-comuns.

Escrevo e apago rascunhos incertos. Travo amargo de insanidade. Escárnio. Frases cirúrgicas deb…

GUARDO OS TEUS SORRISOS NUMA CAIXA

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O teu sorriso. A covinha na bochecha, dentes de branco imaculado em lábios reluzentes.
Vincos nos recantos da boca.
Azuis os teus olhos, profundos nos meus, alma debicada, intenso e absoluto, eficaz.
Queria poder guardar os teus sorrisos numa caixa.

A minha avó a rezar o terço, voltas e voltas de ladainhas e o fio solto pelas mãos.
A lamparina de azeite sempre acesa em homenagem à Sra. de Fátima.
O raio de sol, qual milagre a enfiar-se pela frincha da porta e a clarabóia do sótão a debitar barulhos de telhas soltas.
O cheiro da sopa com muita couve, a aletria divina, o cabrito de chorar.

A bengala do meu avô, adorno de rei, a bater no soalho, chamando a empregada Conceição... ele que preferia palavras a sorrisos.
Chapéu e fato aprumado, verniz no sapato reluzente, o coração na bengala a descompasso.
O relógio de parede nas suas desoras redondas e um tic-tac infinito.
A gaveta mais baixa do armário com fotos antigas e condecorações de tempos idos.

Os meus passos pequeninos de sa…

CIDADE EM NÓS

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Uma Igreja. Ruas desertas. Casinhas de papel. Um corrupio de gente, deambulando na ribeira.
Equilibristas sem corpo, chuto-na-veia, máscaras sem dentes de tristeza e desalento. Fardo com cicatrizes, desertos de estímulo, desalinhados na vida.

Cidade a acordar devagar.
Cheiros de resina, musgo fresco. Um algeroz que pinga. Café fresco. Um gato que se espreguiça. Roupa no estendal. Papel de cenário na escadaria.

A cidade respira a céu aberto, luz difusa, cacilheiros no cais de embarque, viagens de silêncio.
O teu corpo na gare do desejo e eu ancorado em mim.

Alguidares e caixotes.
O eléctrico da baixa. Uma “bica” aquecida, ossos desalinhados em rostos carcomidos, margens a preto e branco. Silêncios de alma, tristezas no baú da memória.

Igreja sem fiéis, beijos a tiracolo, pontes engalanadas, barbeiros bairristas, varinas ligeiras.

Da minha casa vejo o rio, da janela a cidade, o abraçar do fim do dia, gente composta, sopro de paixão, o piar de pássaros nervosos.

Um vento de gelo, an…

O NOSSO TEMPO

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O nosso tempo é no verão.
Não nesta promessa de cansaço, dias curtos e cinzentos, cheiro a terra, bolorentos, mas no verão, sem estio de cansaço, sol queimando pelas costas, o cheiro a maresia e o calor nos pinos dos trópicos, camisolas curtas e calção sem pudor.

O nosso tempo é praia de areia branca e cristalina, bocas ansiosas do gelado, truques de magia em palanque engalanado e a dancinha das comendas com medalhas no peito pelo Presidente da Junta.

O nosso tempo, é um espaço sideral, flutuante, duas pontas entrelaçadas, nós de marinheiro, trombetas a cada gingar de ancas, traços comuns nas tuas costas, o meu coçar à tua volta, a teimosia que tens atrás da orelha, o crepitar do sangue nas veias, e a ponta dos teus dedos no reflexo do meu palato, mordiscando diabruras.

O nosso tempo são os baixos-relevos trabalhados na tua boca, laivos de donzela, heráldica e pantominices de lábios gordurosos como marca de água, delimitando-me mais por dentro que por fora.

Temos este tempo, de pa…

PÁSSAROS NUM CÉU DE MAIO

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Pássaros num céu de Maio

Palavras coloridas. Esvoaçantes.
Como pássaros alegres num céu de Maio.

Música translúcida dos teus lábios em mim.
Sílabas inauditas e mágicas. Aromas frescos. Beijos colados na pele. Aguarelas de cor. Almas num só gozo. A lucidez na tua voz.
Pedaços de pecado ou pecado aos pedaços.

Espelhos cristalinos que nos envolvem, solfejos e rabiscos, aguarelas nuas, pétalas soltas, cheiros e perfumes em forma de desejo.

Palavras que me atiras, inebriantes como o teu corpo de mulher.
Vulcão que se faz lava. Sangue dos sentidos. Renovados desejos. Espaços por preencher. Alma cheia com formas e paletes de cores garridas, em pinceladas suaves.

Fragrância que emanas. Tontices minhas. Mordeduras doces com um cerimonial de palavras incertas, em inseguros voos. Parapeito do abismo, névoa de paixão agrilhoada no ventre. Compostos de carbono, diabruras em dó menor.

Anjos em êxtase, braços, pernas e tronco. Mãos que atam e desatam. Asas que voam em túneis de vento.

Pássaros …