CIDADE EM NÓS





Uma Igreja. Ruas desertas. Casinhas de papel. Um corrupio de gente, deambulando na ribeira.
Equilibristas sem corpo, chuto-na-veia, máscaras sem dentes de tristeza e desalento. Fardo com cicatrizes, desertos de estímulo, desalinhados na vida.

Cidade a acordar devagar.
Cheiros de resina, musgo fresco. Um algeroz que pinga. Café fresco. Um gato que se espreguiça. Roupa no estendal. Papel de cenário na escadaria.

A cidade respira a céu aberto, luz difusa, cacilheiros no cais de embarque, viagens de silêncio.
O teu corpo na gare do desejo e eu ancorado em mim.

Alguidares e caixotes.
O eléctrico da baixa. Uma “bica” aquecida, ossos desalinhados em rostos carcomidos, margens a preto e branco. Silêncios de alma, tristezas no baú da memória.

Igreja sem fiéis, beijos a tiracolo, pontes engalanadas, barbeiros bairristas, varinas ligeiras.

Da minha casa vejo o rio, da janela a cidade, o abraçar do fim do dia, gente composta, sopro de paixão, o piar de pássaros nervosos.

Um vento de gelo, anjos azuis na penumbra... O teu olhar.
Corpo a deslizar na água, a tua pele pegajosa, humidade misturada em mim.

Fado cantado que se evapora da tasca, mulheres de vistas largas, cheiro a terra, ventre parindo cores numa cidade a contraluz.
Manhã de sol rasante, ondas que se espalham lacrimejantes atiradas pelo vento.

Os meus passos e os teus pés descalços, caminho dourado, maré vaza, um abraço apertado.

O estuário do Tejo, piar de gaivotas em mistério de passagem para lugar nenhum.

Choupos adivinhando inverno. A tua na minha mão. Rodopios de beijos molhados. Os teus quadris com ritmo, doce brisa que embaraça o jeito.

Cidade que respira devagar... O teu corpo que me embriaga... Línguas de mar.
O meu nome na tua boca. Sussurro breve num aconchego macio.

Comentários

Lídia Borges disse…
Um deambular embriagante desde o amanhecer ao tombar da luz, do anoitecer ao raiar do dia,numa velha circularidade sempre nova porque novos os olhares que observam.
Um deambular pela cidade, pela vida. E o corpo... No centro da noite, da cidade! O amor no centro da vida.


Um beijo
Anita disse…
O meu nome na tua boca. Sussurro breve num aconchego macio."
Fantástica esta imagem que passas com as palavras.
Os teus textos são fabulosos, de difícil leitura, porque trabalhas muito as palavras,metáforas intrigantes, mas é por ser assim que eu gosto deles. É sempre bom vir aqui e deleitar-me em profundas reflexões. Beijinho
Anónimo disse…
"Igrejas, sem fiéis" Cada vez serão mais, o mundo anda fora da Graça de Deus...
Mas, "beijos à tiracolo", é uma descrição invulgar e com tanto carinho...

Gosto, deste blog...

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