17 maio, 2011

GUARDO OS TEUS SORRISOS NUMA CAIXA




O teu sorriso. A covinha na bochecha, dentes de branco imaculado em lábios reluzentes.
Vincos nos recantos da boca.
Azuis os teus olhos, profundos nos meus, alma debicada, intenso e absoluto, eficaz.
Queria poder guardar os teus sorrisos numa caixa.

A minha avó a rezar o terço, voltas e voltas de ladainhas e o fio solto pelas mãos.
A lamparina de azeite sempre acesa em homenagem à Sra. de Fátima.
O raio de sol, qual milagre a enfiar-se pela frincha da porta e a clarabóia do sótão a debitar barulhos de telhas soltas.
O cheiro da sopa com muita couve, a aletria divina, o cabrito de chorar.

A bengala do meu avô, adorno de rei, a bater no soalho, chamando a empregada Conceição... ele que preferia palavras a sorrisos.
Chapéu e fato aprumado, verniz no sapato reluzente, o coração na bengala a descompasso.
O relógio de parede nas suas desoras redondas e um tic-tac infinito.
A gaveta mais baixa do armário com fotos antigas e condecorações de tempos idos.

Os meus passos pequeninos de sala em sala.
O silêncio preguiçoso que se espalha como nevoeiro. A noite que entra livre pela janela.
Olho-me no espelho e sorrio como há 40 anos, neste espaço que não cabe no tempo. Actores de nós.
Por vezes memórias, outras vezes palavras, olhos que exorcizam tempo distante.
O meu coração perdido nos antípodas e o teu sorriso ligeiro.
Um dia guardo os teus sorrisos todos numa caixa.

Este tempo, eterno labirinto de que não encontro saída e nele procuro sombras de abraços, restos de beijos e ecos de palavras murmuradas num assomo de desejo.
Caixinhas soltas, sonhos de vigília e barcaças que arranham a água.

Molhos de trigo por colher, os dedos pequeninos que teimam em alcançar, a lembrança perfeita da tua mão, passos em sentido contrário, costas com costas e bolos de mil-folhas lambidos em catadupa.

Correrias sôfregas no quintal. Joelhos esfolados. Gatos em reboliço. Janelas abertas em contraluz. Uma frase solta no caminho. Os teus olhos numa hora, outra sem te ver.

Sono despejado de sonhos, balanços de mar enjoado, o teu sorriso que guardo em mim…. e de quando em vez escondo numa caixa.

4 comentários:

Anita disse...

Esconde, esconde todos os sorrisos, guarda-os na tua memória, porque a vida é feita de memórias.
"...que o sorriso renasça das cinzas frias da nossa tristeza... que o sorriso vos aqueça...que o sorriso nos amacie...que o sorriso não feneça...que o sorriso na nossa face propicie a leveza da alegria de se ser e estar, tal como somos...que o sorriso receba as lágrimas que dos nossos olhos brotam...que o sorriso se alargue a novos horizontes da memória...que o sorriso seja límpido, cristalino, suave, doce...que o sorriso nos limpe a mágoa...que o sorriso sirva para nos sentir-mos vivos...que o sorriso, por fim, faça outro alguém sorrir também...". Fantástico texto. Beijinho

Catarina disse...

Lindo!

Lídia Borges disse...

Voltaste à infância!... Não sei como nunca nos enganamos no caminho que nos leva até ela. Tão longe!
É interessante ver como o tratamento do tempo nos faz "dar saltos" no discurso (do presente para o passado ou vice-versa) como quem balança num barco frágil.
Gosto do que dizes e sobretudo de como o dizes.

Um beijo

Becasfields disse...

Saudade que cresce em peito de gente de verdade volta sempre ao lugar dos sonhos mais lindos, ao lugar dos afectos que marcaram um tempo, um tempo de criança, um tempo de menino!

Pudesse eu ...

Fantástico o enlace das cores e dos cheiros, do movimento e da luz! Harmoniosos, dão ainda mais vida às palavras que vêm já carregadas de sentimento!

Sorriso ... sorrisos, nada é por acaso! Que venham eles, que venham muitos! Na caixinha sempre vai haver lugar para mais um!

Obrigada por esta maozinha até ao tempo de criança.

Parabéns pela transparência conseguida e pela emocionalidade que gera.

Abraço