08 maio, 2011

O NOSSO TEMPO



O nosso tempo é no verão.
Não nesta promessa de cansaço, dias curtos e cinzentos, cheiro a terra, bolorentos, mas no verão, sem estio de cansaço, sol queimando pelas costas, o cheiro a maresia e o calor nos pinos dos trópicos, camisolas curtas e calção sem pudor.

O nosso tempo é praia de areia branca e cristalina, bocas ansiosas do gelado, truques de magia em palanque engalanado e a dancinha das comendas com medalhas no peito pelo Presidente da Junta.

O nosso tempo, é um espaço sideral, flutuante, duas pontas entrelaçadas, nós de marinheiro, trombetas a cada gingar de ancas, traços comuns nas tuas costas, o meu coçar à tua volta, a teimosia que tens atrás da orelha, o crepitar do sangue nas veias, e a ponta dos teus dedos no reflexo do meu palato, mordiscando diabruras.

O nosso tempo são os baixos-relevos trabalhados na tua boca, laivos de donzela, heráldica e pantominices de lábios gordurosos como marca de água, delimitando-me mais por dentro que por fora.

Temos este tempo, de palavras difíceis, entendimentos vãos, monotonias de reportório, fugas ao vento suão que se perscruta no horizonte.

Tempos de orgulho mal parido, comédias de enganos, segredinhos de alcova e alcoviteiras embrulhadas em papel de rebuçado disfarçadas de virginais com cheiro a ranço.

O nosso tempo é no verão

A tua boca em espera, sorriso rasteiro, prazer escondido em algodão doce, beijos plasmados em televisões futuristas, silêncios ampliados pelo megafone do orgulho.
As tuas mãos, fonte de prazer, espanto de paixão, misericórdia de aflitos, constelação de esperança no fim dos dias.

Tens ausência de cachecol, golas-altas sem medida, frio de trota-mundos, e o fantasma agraciado com cefaleias coloridas.

Deslaço o calor na praia, espasmos de alegria, a tua língua caprichosa, indecências figurativas, horas contadas, interjeições e figuras de estilo, a tua pele e os sinais, o teu corpo agridoce, sem fronteiras, nem inquietude.

O nosso tempo é um mergulho no vazio, tropeção de pés para trás, coração colado às costas, excessos no parapeito, telhados na penumbra, amor adolescente, gritos enrolados no olho do furação.

Tens um ritual provocatório, como o mar ao pôr-do-sol, expedições ao árctico e rolos de carne num vê-se-te-avias.

E o teu beco sem saída, cantos e curvaturas, miudezas e ensaios nocturnos, vícios privados, polegares hirtos na fímbria do teu cabelo e a dedução lógica de não poder viver sem o teu corpo.

E sim, o nosso tempo é no verão.

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Traz a tua marca inconfundível.

Quente!... Como só em tempo de Verão.

Um beijo

Anónimo disse...

O nosso tempo é no verão, no outono, no inverno, quiçá, na primavera.
O que interessa é que o nosso tempo é só nosso! Não importa quando, apenas importa que é o nosso tempo...

Simplesmente, lindo...