15 agosto, 2011

Someone Like You





Janelas às escuras, ruas sem vida, árvores sem folhas ainda.

Um respirar aturdido no balanço lírico das águas, no desejo que se faz palavra ou na palavra que se faz desejo.

Fraquejas como o sol que amansa o vento, o silêncio as palavras, o prazer a melodia, os gestos o ódio, o amor a emoção e quantas das vezes a razão o coração.

O amor, é uma bailarina em pontas, num corpo mole e ardente, rodopio acrobático, um salto no vazio, um turbilhão de sentimentos,
antagonismos, revoltas, conceitos e preconceitos, uma luz nocturna
a correr no rio das emoções.

Ruas apenas com um sentido, semáforos abertos, rotinas vazias e o mundo a ruir alheado da vida.

O teu sorriso forçado em mim, amanhã o meu pior receio na tua perda, a minha amargura
A minha pulsão arrumadora, o canto e a leitura, a escrita noutro espaço.
A tristeza pela finitude.

As pessoas de quem gosto, não morrem. Apenas não podem estar presentes. "Bergman" negoceia essa questão, num filme, tentando num jogo de xadrez, ganhar vantagem à morte.

Vivemos em contraponto a essa finitude, esse desígnio.

Pessoas feridas na alma, trejeitos de boca e corpo.
Um mar pintalgado de gente, ondas que se confundem com nuvens, olhares profundos, luzes de embarcações, a Berlenga como pano de fundo.

Esta coisa de escrever é uma angustia, mas assim abrandam as dores e a inquietação.
Parafernália de livros e revistas espalhadas, fotos de família, eu, menino sentado num cavalinho, um senhor com uma máquina enorme e um pano preto, "click", já está.
Fotos à "La-Minute", francesismos de época.

Eu em menino, recordações. Um dia ainda vou crescer muito.

Enquanto isso o silêncio
O amor nas ruas desertas, gritos imperfeitos na noite clandestina, uma cidade que respira inquieta, amanhã o meu pior receio, remendos de bocadinhos meus.

Estremeço na madrugada que me colhe memórias, os dias curtos e a tua indiferença em mim.

Barcos no ancoradouro do tempo, o teu abraço, o vento ciclónico na rua deserta, o meu espaço em ti, peças de xadrez que se movem sozinhas, o teu sorriso perfeito e eu em menino, recordações.

Um dia ainda vou crescer muito

4 comentários:

Anónimo disse...

Não queiras crescer, não vais gostar do mundo das pessoas grandes. Multiplicam-se, sabem tudo dos outros, menos deles próprios. Passam a vida a reclamar dos teus defeitos e dos seus direitos. Roubam-te as essências e as sementes boas para plantar nas suas terras, que são tantas (e tu distraído, pegas na pontita de uma manga e vais junto – coisas de miúdo – os miúdos gostam de partilhar e até ficam todos contentes…)!
Sofrem porém de uma imensa falta de tempo e de paciência para amanhá-las e cuidar delas.
Quando dás por ti, estás sentado na beira da vida vencido e cansado a ver tudo quanto era o melhor de ti a morrer sem água, sem adubo, sem amanho.
É quando reparas que já desististe, lá atrás.
Não queiras crescer, o mundo é um lugar estranho e o amor também.
Beijo.

Anónimo disse...

Crescer é muito bom. Querer crescer muito é ainda melhor. Quando um menino cresce, os seus braços ficam muito maiores e ele quase consegue rodear o mundo com o seu abraço. As suas pernas ficam enormes e ele pode chegar muito mais depressa. A todo o lado. Mas por crescer não tem que deixar de ser apenas um menino. Não deixa. Nunca. O problema dos crescidos é acharem que se acaba uma fase para começar a outra. Mas não tem que ser assim. O menino está sempre lá. Desde que o adulto não o esqueça. O menino cresce, sim. Fica enorme. Mas inteiro. E deixa que os sonhos cresçam com ele. Nunca perde a felicidade espontânea. Nem deixa apagar os sorrisos. E sabe que por cada semente e essência que alguém tenta roubar, haverá alguém disposto a partilhar outras. Melhores. E que se o amanhã lhe tira o berlinde preferido, o depois de amanhã e o dia a seguir vão trazer outros. Diferentes. Mas, às vezes, maiores e mais coloridos. É muito bom quando os meninos querem crescer. Desde que não se deixem, simplesmente, substituir por um adulto resignado à ausência de sonhos.
Gostei muito do texto! E a música é fabulosa!
Bj

Lídia Borges disse...

Bem-vindo!

Ninguém sai imune dos teus textos. Eles mexem com as nossas emoções...
Deste, fica uma inquietude avassaladora, ávida de vida.

Um beijo

L.B.

Eloah disse...

Lindo seu texto.Recordações e a visão da vida sem máscaras, nua e vazia.Crescer é isto, mas em contraponto o que nos salva são os nossos sentimentos e os nossos sonhos.Adorei passar por aqui e ler este texto maravilhoso.Forte abraço Eloah