23 setembro, 2011

Se um dia não vieres eu compreendo…




Se um dia não vieres eu compreendo...

O corpo da cidade esventrado. Pracetas dançantes.

As tuas rugas ligeiras. As minhas veias quase mortas. Repouso pueril em edital.

Vadios pelas tascas, becos que não são os mesmos. Trinados de guitarra,
lamuria no teu corpo de mulher.
Malfadados e bairristas na cerca do castelo, predadores encorpados.

O teu ombro que me esconde horas fora depois da armadilha dos abraços.
Os fiéis e os verdugos de Cristo na esperança do perdão.

Se um dia não vieres eu compreendo...

Uma atmosfera de tempo suspenso, mulheres lânguidas, finas, tenebrosas, o grito da varina.

Trégua nas brumas. O beijo namoradeiro numa entrega subtil.
Algodão doce recheado.
Nuvem desfeita e palpável. Ruas em cidades estranhas, um mundo que não conhecem.

Lábios no lóbulo esquerdo, nas curvas dos teus pintados de carmim. No prolongar do pescoço, nos nós dos dedos, e uma torrente de palavras meigas em que me afago.

Meiguice aos pedaços, almas próximas da curva da vida, pele alucinada de carícias.
O teu corpo imenso, tanto corpo... E eu, lobo solitário, uivos flamejantes, um papelão de crenças e rezas escritas.

Olhos semi-cerrados. Um candeeiro solto, sol a cair no horizonte, mulheres de negro e um esgar de dor.
Silêncios que se ampliam, silêncios que conversam, pessoas entediadas com cheiros e cores… e no entanto estalam a língua vigorosa entre palavras indescritíveis.

Se um dia não vieres eu compreendo…

Pingos de chuva que me acolhem. As vozes e o piano. O som que dele emana.
O tic-tac do relógio de sala. O cuco que não sai e a tua imagem reflectida no espelho enquanto me olho.

O teu arranhar nos lençóis que perfumas e um sol de milagre entre almofadas, moldadas de imperfeição.

Se um dia não vieres eu compreendo...

4 comentários:

Eloah disse...

Lindo! Escrevestes lindamente este teu poema de compreensão e aceitação.
"Meiguice aos pedaços, almas próximas da curva da vida, pele alucinada de carícias".Sensibilidade pura! Amei.Desejo que tenhas dias floridos para adornar tua alma de primavera.Forte abraço Eloah

Becasfields disse...

Presa pelas palavras soltas na melodia que nos consome a vida e que, a todo o tempo, sempre nos leva à origem do ser feliz!
Que bom alcançar uma plenitude assim mesmo que não consumada!
Parabéns

Lídia Borges disse...

Não sei já te disse, Pedro, que te vais transformando num poeta citadino pela forma como trabalhas o tema da vida nas cidade relacionado-o com a despersonalização do sujeito (como os grandes nomes do nosso primeiro modernismo fizeram). Entre eles está Bernardo Soares, aquele que mais profundamente descreveu os efeitos da turbulência das cidades sobre o sujeito que acaba tomado pela solidão e pelo individualismo, males que parece alastrarem continuamente, nos nossos dias.
O amor, último reduto do equilíbrio não pode falhar. Assim, por que hás-de compreender se um dia... Porquê?

Um beijo

Anónimo disse...

"Meiguice aos pedaços"

Como olhares entrelaçados de desejo...

"se um dia não vieres eu compreendo..."


É bom passar por aqui e poder embalar em sonhos, que outrora, quiçá, foram ou se tornam realidade... Parabéns!!!