Vai-te saudade




Palavras e cheiros, caneta e papel, folhagem das árvores, uma parcela de céu,vozes sem se parecerem vozes.
Nem choro, nem angústia.

A saudade e a falta habitam a mesma morada, procuram as mesmas razões,
e empurram-se como balões levados pelo vento.

Balões de saudade que se acumulam nas paredes como musgo, e se condensam,
escorrendo em gotículas visíveis a alguns, invisíveis a nós.

É esta a saudade que se faz parede e não nos deixa derrubar.

Uma nuvem de papel. Algodão doce. Fiapos de luz num candeeiro tosco, palavras sussurradas apenas.

Letras adornadas com laços, melodia e alma dentro. Saudade em bifurcações, a complexidade de uma teia.

Pausas sem tempo. Uma não-pausa, ritmos dilacerados, despidos.
O teu olhar, uma vertigem, beijos inundados de iguarias, uma cópula vibratória.

A transição entre mim e a palavra.
Gestos de medição, imagem de dançarina em ventre liso.

A tua mão em repouso na minha, a celebração das rãs no charco e os meus dedos caligrafando o coração.

Não reclamo da saudade, sim da lucidez.
Doce amargo num recanto. O meu hábito. Pronúncia muda. Silêncios.

A vida num canto ao virar da esquina, e nós por aqui, esquecidos... até um dia, normalmente tarde e já sem tempo.

E no entanto, o que me assusta em ti.
O azul e a vertigem do olhar, o sal de mar no teu corpo, os antípodas em que estamos,

Nevoeiro cerrado nos rebordos da cidade, onde fluem beijos de amantes anoitecidos entre cafés à beira-rio, e o voo elíptico e rasante das aves no espelho de água.

Já só quero controlar o silêncio e a saudade...

No silêncio o pó das entranhas e na saudade a lágrima que habita despida de preconceitos. Resistente, desconexa, partida em mil outras lágrimas furtivas, riacho de encantos, abraços entrelaçados, nuvens de papel e algodão doce.

A minha escrita num laço, e este preso a um balão atirado ao vento.

Vai-te saudade...como palavras e cheiros, luzes e vozes, reis e princesas, palhaços e querubins.
Falsos, funestos e verdadeiros, bailarinos e contorcionistas, jogadores e plebeus, estranhos e conhecidos.

Vai-te saudade...para uma parcela de céu.

Comentários

Eloah disse…
Pedro, escrevestes lindamente sobre saudades.Saudades é ausência e porque é ausência cria um vazio na alma.Adorei teu texto.Bom fim de semana, deixe as saudades de lado e veja o que a vida está a oferecer lá fora. Abraços Eloah
Lídia Borges disse…
"Já só quero controlar o silêncio e a saudade..."

Um guerreiro em busca da Ítaca dos seus sonhos com receio de a alcançar.

Aprecio muito a tua escrita como já tive ocasião de to dizer. Repito-o, hoje.

Um beijo
Becasfields disse…
Belo, real,
Saudade, fantasia, ...
Abrigo sem tempo no tempo de amar!

Parabéns!
Anónimo disse…
I congratulate, this excellent idea is necessary just by the way
Lana disse…
Gostei mto do seu espaço! Mto lindo e inteligente! Deixo-lhe abraços!
Becasfields disse…
"Vai-te saudade...para uma parcela de céu."

Belo no dizer ...
Triste no sentir ...
Verdade calorosa, de cores fortes em cascata de água livre!
Aguarela retocada na incerteza de um destino qualquer!

Parcela de um céu ... aqui ou além?

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