25 outubro, 2011

SEGREDOS DOS DEUSES



De dia abraço o Tejo… de noite a madrugada.
Da minha janela a cidade e uma luz esvoaçante.

Do nosso quarto vês a Lua, um rio, espelho de água e uma traineira.

Aí navegam os meus silêncios, enquanto corpos se enlaçam nos beirais, nas pontes à descoberta e nas ameias do castelo.
Tens Lisboa nos lábios, fado inquieto na língua.

Nuvens bailam a céu aberto, pinturas a carvão em tela difusa.
Lisboa de sombra e luz. Partir e ficar. Máscaras caídas após o bater das asas.

Senhoritas como contos de polichinelo, damas de cetim e olhar amendoado.
Lágrimas que apertas no peito. Caderno de partitura com música escondida.

Do jardim abraço o dia, na praia o pôr-do-sol.
Olhos de Anjo em segredos de pássaro.
Saudades com gente dentro. Carótida atiçada. Eufemismos na tua boca.

Deuses em rastos de gente, dentes que sobejam num sorriso.
Olhos na névoa que se dissipa em bando.
Feridas afagadas para que não sangrem, este texto que sai sofrido e uma bátega de chuva no parapeito, esventrando a noite adormecida.

É um tempo de deuses e anjos.
Sonâmbulos ancestrais, o meu doce refeito na tua boca e o teu arranhar ao de leve nas franjas do estuário.

Enrosca-te sem inquietação, prende-lhe post-it´s na roupa e faz-te figurante e narrador.
Aconchega-o no peito, acaricia-lhe o cabelo ao de leve, deixa o teu coração bater no espaço quente do dele.

Anjos de asas coloridas… a terceira cor do arco-íris.

De dia abraço o Tejo, a ponte em sobressalto
De noite a Lua dançando com nuvens a céu aberto, enquanto me fazes adormecer nos teus braços.

Serão estes os segredos dos deuses ?

15 outubro, 2011

Mil poemas na tua voz....




Acordo da noite mal dormida.

Meu corpo balança suspenso no vácuo dos teus braços e o teu beijo continua ligado por um hífen ao meu coração.
Pedes-me que te ajude a suster o sonho que te denuncia, num registo de inquietação.

O teu vigor em peito arfante num sono que não consegues dormir.
O teu suor que se espalha entre a pele e o cetim que te envolve cama.
Ínfimo cristal numa noite de fantasmas, sombras que se espalham, corpos esvoaçantes de anjos numa sublime elevação.

Nebulosas diatribes que expeles corpo fora num remoinho constante entre lençóis, como se os meus braços te amansassem fúria

Ajuda-me a conter nos pulmões este luar minguante que invade os côncavos e os convexos da minha solidão.

Ilumina a minha alma incorpórea e alva.
Deixa que eu a veja retratada em ti, gémea e doce, antes que os derradeiros esquissos do sonho se apaguem.

Amanheceu, e abandonas-me ao estrépito rotineiro do relógio.
Fugiste no momento em que os meus braços lançam chamas envolventes na tua direcção, e o meu corpo resfria num amontoado de desejos retalhados.

São as palpitações que me fazem ser.
Os extra-sístoles que inquietam este corpo sedoso e mole, presente e constante envolto em nuvens de azul neste quarto impiedoso que me faz amar-te às vezes.

Laivos de insanidade. O teu eco. A tua voz e o teu olhar espalhado nos quatro cantos.
Já não permanecemos nas palavras... e este fogo que se extingue.

Deuses e anjos coabitam na mesma existência neste espaço indefinido de inquietude.

Acende-se o dia sobre a cidade. Um manto de frio e nevoeiro que nos encolhe habituação.

E posso ter a Lua e posso ter-te a ti, nesta noite que se fecha de incerteza.
E posso ter tudo e nada, e ser tudo e nada também, religiosamente cronometrado.

Ponto por ponto. Amor em contraluz. A tua ausência.
O desaprender dos gestos, dos nossos corpos encostados, adormecidos, como semi-deuses.

Abro as janelas em par, a brisa que me alcança e afaga ternura e os meus olhos cansados da espera de dobrar saudades.

Porém... no café da manhã, seriam de mel as palavras com que barrávamos a torrada partilhada.

11 outubro, 2011

UMA LUA DE DESEJO



E surges do nada, como carro em contramão.
Uma língua forrada a tédio, química sem organismo, como placebo à hora certa.

Rebuscas sem sucesso o interior que esquartejas na incessante mansidão dos hábitos.

Baloiças-me entre órgãos, tropeças num pulmão, alcanças brônquios desimpedidos, tentas o coração.

Ergues-te perscrutando a alma, mas não a vês.
Sentes-me trôpego, velho e inquieto, numa sonoridade tangível, melodiosa.

Sais-me pelo ouvido esquerdo e sussurras na direcção do tímpano.
Não sabes como fazer. Se me rebuscas de novo, se modificas a preceito, se aceitas como tal.

Mexes a quarta-parte do lábio superior como um Outono ocre. Pétalas dissolvidas em rosa púrpura. Um corpo de tudo ou quase nada.

Envolves-te no meu perfume, fazes do meu corpo assombração, abraços em desordem e o aproximar do peito numa dança vivificante.

Noite de línguas doces, namoradeiras, saloias, sonhos em golfadas como placenta rompida, num prenuncio de desejo.

Curvas-te em mim. Descompões tessituras bordadas ao acaso e aprisionas o meu beijo translúcido na tua boca.

Toques, gestos, medidas em pontos cardeais, metade de um quarto ou tu por inteiro.

Rosto, olhos e mãos.
Tu atirada poros fora, pernas arquitectadas num prenuncio traiçoeiro

Feridas lambidas. Rastilhos e implosão. A minha alma presa nos teus apêndices vários. Mímica dócil no meu silêncio. A tua boca que afaga as curvas da minha orelha em simetria perfeita.

Medos e anseios, epiderme pálida, encontros de sombras, gestos de imaginação fértil.
Sorrisos malandros a destempo.

Paixão confinada a meio canto. Frases meio soturno. Metade pela metade.
O amor arrebatado numa lua de desejo em quarto-minguante, baloiçando suavemente dentro de mim.

09 outubro, 2011

ENQUANTO TOMBAM AS ESTRELAS

´


Os olhos da terra, as asas do sol e os beijos da lua embriagam
e vergam-nos.

Precisas de locomotivas de afago.
Não na velocidade, mas na intensidade do afecto.

Afecto e ódio.
Onde se rasgam e decapitam corpos num vórtice em espiral.
E tu, dentro de mim... sinapses labirínticas no coração.

Um corpo inerte num caminho longo, alma humana como estrada, caminhos tortuosos, obstáculos perenes, pontos de ligação num único sentido.

O guião da nossa jornada já escrito.
A corrente de água que te refresca, o prazer que não é por acaso, os tropeções colocados no parapeito da vida, e o que é... porque tem de ser.

Encolhes-te no teu interior. Alma bafienta. Nevoeiros cerebrais. Boicotes nas meninges.
Greves e palpitações cardíacas.

A perda do tempo, a inquietude no ultimo segundo. O suspiro final.
O tempo que se foi. O abstracto que somos. Um salto no abismo sem rede.

O espelho na memória.
As minhas rugas, os teus papos de Anjo.

As voltas da vida, o minuto seguinte. A voragem do tempo que te deixou imóvel, o desmembrar de tudo, o que não controlas.

Magnitude da vida, a tua Excalibur.
Tu um Lancelote, cavalgando pela eternidade. Rodopios e volteios, e,qual grão de pó no Universo, desfazes-te e nada te resta.

Por isso, deixa que os beijos da lua te embriaguem, agarra os abraços do sol e olha nos olhos da terra.

Esvoaça no amor, aprecia o bater do coração, sente o teu respirar no espelho, adorna as tuas rugas, partilha e dá de ti.

Não traves o teu desejo. Não perpetues a tua angustia, procura mesmo no sitio errado.

Dá a importância que quiseres dar e não te fragilizes.
O valor que deres é o do momento.

A fragilidade vem com a noite e a angústia desacelera na medida da imagem que te deres, dos filmes que fizeres e dos desenhos que imaginares.
Da velocidade assombrosa com que te assaltam os olhos.

Desaperta laços que te prendem.

Beija no minuto seguinte, aperta no peito quem amas, toma banhos de lua e incendeia a vida com o teu sorriso.