15 outubro, 2011

Mil poemas na tua voz....




Acordo da noite mal dormida.

Meu corpo balança suspenso no vácuo dos teus braços e o teu beijo continua ligado por um hífen ao meu coração.
Pedes-me que te ajude a suster o sonho que te denuncia, num registo de inquietação.

O teu vigor em peito arfante num sono que não consegues dormir.
O teu suor que se espalha entre a pele e o cetim que te envolve cama.
Ínfimo cristal numa noite de fantasmas, sombras que se espalham, corpos esvoaçantes de anjos numa sublime elevação.

Nebulosas diatribes que expeles corpo fora num remoinho constante entre lençóis, como se os meus braços te amansassem fúria

Ajuda-me a conter nos pulmões este luar minguante que invade os côncavos e os convexos da minha solidão.

Ilumina a minha alma incorpórea e alva.
Deixa que eu a veja retratada em ti, gémea e doce, antes que os derradeiros esquissos do sonho se apaguem.

Amanheceu, e abandonas-me ao estrépito rotineiro do relógio.
Fugiste no momento em que os meus braços lançam chamas envolventes na tua direcção, e o meu corpo resfria num amontoado de desejos retalhados.

São as palpitações que me fazem ser.
Os extra-sístoles que inquietam este corpo sedoso e mole, presente e constante envolto em nuvens de azul neste quarto impiedoso que me faz amar-te às vezes.

Laivos de insanidade. O teu eco. A tua voz e o teu olhar espalhado nos quatro cantos.
Já não permanecemos nas palavras... e este fogo que se extingue.

Deuses e anjos coabitam na mesma existência neste espaço indefinido de inquietude.

Acende-se o dia sobre a cidade. Um manto de frio e nevoeiro que nos encolhe habituação.

E posso ter a Lua e posso ter-te a ti, nesta noite que se fecha de incerteza.
E posso ter tudo e nada, e ser tudo e nada também, religiosamente cronometrado.

Ponto por ponto. Amor em contraluz. A tua ausência.
O desaprender dos gestos, dos nossos corpos encostados, adormecidos, como semi-deuses.

Abro as janelas em par, a brisa que me alcança e afaga ternura e os meus olhos cansados da espera de dobrar saudades.

Porém... no café da manhã, seriam de mel as palavras com que barrávamos a torrada partilhada.

6 comentários:

Becasfields disse...

Não percas as palavras ...
Não percas os sentidos ...
Não percas essa melodia, inquietante por vezes, que dá o tempero à vida!
Não te percas do sonho e deixa-te contagiar!

Obrigada por aconteceres neste teu jeito ...
Obrigada por dares alguns nomes às sensações que nos percorrem a alma.
Obrigada por aqui também te dares.
Obrigada ...

Lídia Borges disse...

Se palavras assim nos fazem bem?
Sim, como sonhos liquefeitos que bebemos para encher a vida quando ela se faz pouca.

L.B.

Eloah disse...

Que lindo!Saudades nos dão asas para voar e trazem de longe o que ansiamos demais.Estive sem acesso por 5 dias, problemas do Blogeer, mas agora tudo voltou ao normal.Felicidades sempre.Abraços Eloah

Anónimo disse...

Hoje e agora..."Deuses e anjos coabitam na mesma existência neste espaço indefinido de inquietude..." hoje e neste meu espaço, seres sem forma cruzam-se com os anjos inertes que aguardam a calmia que os distingue...hoje, e neste meu espaço, procurava um livro, e encontrei as Tuas palavras...! Genial Zé Pedro! * Amanhã, acordo de uma noite...bem dormida!

Anónimo disse...

... restam-nos os pedacinhos de alma deixados em nós, que nos desassossegam os sonhos e nos fazem tropeçar pela manhã. Damos-lhe colo e aconchego, uma lágrima afaga-os, na esperança vã que o tempo os ajude a encontrarem o seu caminho.

Anónimo disse...

É lindíssima a forma como "cantas" o amor.
Fico contente por ter descoberto este blog, em que o autor é um Poeta.
Mais uma vez parabéns.