23 dezembro, 2011

RELOGIOS DE TODAS AS DEMORAS




Estalido de fechadura nas minhas costas.
Tu em reticências, um peito de delito a qualquer hora. Pescoço e pernas delgadas como desnorte de náufrago.

Espectro lívido na tua presença. O meu protesto à porta do teu corpo.
Juras de amor sôfregas, promessas e suspiros de devoção. Paixão como semáforo intermitente, beicinhos e choros.

Regresso ao teu corpo diluído, antipartículas, sonho em fragmentos.
Intermitências onde se abriga nocturna a lua pálida e pérfida.

Vês como se aninham parados os relógios de todas as demoras ?

Dá-me medo que a saudade liquidifique, trémulo bambu, beijos melosos percorrendo o caminho sinuoso das tuas costas.

Redime-me. Absolve-me em confissão. Multa-me por engano cósmico, sangra-me a pele, repete-me tresloucada a boca no meu beijo.

Horas, minutos e segundos, que se amontoam na aridez sedenta da pele.
A fonte de todos os males, uma boca de alimento nos frutos dos teus ramos.
Os teus braços.
Braços, sim. Braços de envolver, de embalar meninices e entoar baixinho as emoções de outros rios, outros lugares.

Eu, em desuso, noves-fora-nada, raiz quadrada entre nós, oxidação do tempo, esbelta madrugada, querubim que te protege, relógio atrasado na desordem do encontro.

Os teus lábios pretensiosos a morder-me mundo e fundo, mãos no teu vestido cintado, batidas cardíacas em ritmo de samba.

Volúpia de sombra, lábios espelhos de alma, lágrimas secas e sofridas.
Foram parados por nós os relógios de todos as demoras.

Latido de cão, trancas na porta, mímica de silêncio quando me puxas o corpo, abafos de dor, um trilho seguro, camadas de pó em três assoalhadas e uma mansarda.

Mãos entrelaçadas num expirar de prazo, eco sem uso, rascunhos sem preconceito, lua nova mapeada.

A tua vida caligrafada em mim.

Grilhões do tempo, contorno da tua boca, um olhar cristalino e uma língua sem temor num tempo sem demoras.

20 dezembro, 2011

Escrutinio do tempo




A angustia do sentido da vida e o relacionamento com ela,
Defeitos que se afiguram mais nítidos, as insuficiências e os erros.
O caminho da coragem. O sorriso feito coragem.

Caminho apressado para os cinquenta. A idade fica apenas mais nítida e aumenta o encanto.
Nada mais.

E é Dezembro como sempre. Frio, chuvoso, inquietante.
Flores e pétalas avermelhadas, nuvens sujas. Plantas que entortam o muro do quintal.
O gato imóvel

O parvo do gato que quando miava se queixava de mim à minha Mãe...medricas.
- Mariquinhas é o que és.

O tempo embaciado como os óculos do meu tio na ponta do nariz.
Ele, elegante, chapéu aprumado.
- A bênção Tio. – Deus te abençoe, sobrinho.

Livros que não acabam nunca. O cheiro agradável do "after-shave" do meu Pai.
Domingo de nuvens sujas, a tarde triste, um sol escondido sobre o Porto.

Os meus quinze anos. O parvo do gato, ainda imóvel.
As fisgadas nos pássaros, as bochechas rosadas da minha vizinha da frente.
Sombras das árvores no quintal.

O Hospital das “Guelas de Pau” , o porteiro numa caixinha de vidro. Correrias rampa acima aos pontapés na bola.

A vizinha rosadinha que me atira bilhetinhos. Um dia destes vamos comer “fava-rica”. Eu, ela o Almeida e o Chico.

Casas com cheiro a antigo, tarecos nos móveis, naperons com argolinhas, flores de plástico. O Hospital com cheiro a infeção.

Tudo cheira menos o gato... Imóvel.
Só pode estar embalsamado, o parvo!

Dias que se socorrem de outros dias. Percurso encharcado na manhã, e eu, distraído, tocando-te nas margens da pele.
Conversas noite fora, bocejos de fome e diálogos guardados como relíquias.
Não pela verve, sim por nós.

Precisava de tempo a fundo perdido.
Noite como se nunca acabasse. As contas do dia. Cada vez mais contas e menos dia.

Eu, com quinze anos, paixão como cegueira, solidão no meio do mundo, as miúdas como figuras santas, altares engalanados, o frenesim e a dor de barriga na preparação do baile de garagem.

Fingimentos de Princesas de Fábulas a reboque de sete anões.

O caminho sinuoso da paixão. A minha mãe que me olha pelo canto do olho, o nariz torcido da minha avó, e eu, nuvens e pássaros e musicas e bailados e encantos no corpo delas.

Afecções na saúde e uma perda de tempo.

Borbulhas na cara, a clarividência do meu sorriso quando te vejo.
-Criancices... - Dizem uns.

Domingos engalanados na missa das onze.
A noite que se faz escura sem limite de tempo. O seu aconchego que trato por tu.

Escrutínio da vida. Céu sem nuvens. O traço incerto dos teus dedos minúsculos.

As incisões na pele aos cinquenta, memórias e retratos que acompanham.
O prazer do silêncio e a mesma angustia no sentido da vida.
Hoje precisamos de mais caminho para a coragem e um sorriso.

O parvo do gato e o seu miar imóvel.
- Mariquinhas, é o que és!.

02 dezembro, 2011

Trovoadas e tempestade



Eu, Tu e as trovoadas. Raios e relâmpagos. Trovões como paquidermes.

A tua Tia carregadinha de cremes, debruçada na varanda.
A minha Avó de bengala. Monogramas nas fronhas que vai cosendo. Fímbrias douradas e azul celeste.

Tu, menina. Tosse rouca que partilhavas num vendaval brônquico qual relâmpago em aguaceiro.

Os dois no entreposto entre as duas portas. Pé aqui, pé ali.
Inocentes de mãos dadas.

Uma reza a Santa Bárbara. O céu iluminado e nós desafiando paquidermes grotescos.

Saltinhos entre quadrados desenhados no chão, voltas e voltas, um beijo na face esquerda, protegida dos olhares certeiros da Tia e o trovão a espreitar.

O frio nas entranhas da casa. Água tépida. Três assoalhadas. Esgares de gente que não conheço em molduras marteladas na parede.

Naperons com argolinhas, afectos em repouso, rugas de mansinho na cara da minha Avó.

Chuva em bátegas na vidraça, o gato fru-fru enrolado nas tuas pernas tentadoras. Eu destemido invasor.

Um tabuleiro de xadrez. Torres derrubadas, cavalo aos pinotes numa correria de xeque-mate.

A tua Tia carregadinha, lápis de cor no lugar das sobrancelhas e tu, dedos muitos, a atrapalharem-se nos botões. Eu quase em pânico. Os botões atrapalhados também.

Tinha os detalhes do teu corpo ancorado em mim.

Eu com medo que os pulsos disparassem com o batimento sistólico e que as tuas mãos sejam mãos outra vez, ou que a tua geometria baile no espaço entre os nossos pontos convexos.

E no entanto silencio da minha Avó. A quantidade de medo dentro do silêncio da minha Avó.

Mãos e dedos e o teu ar rarefeito no meu lóbulo esquerdo. O ar que não multiplico mas que me falta.

Saltam vidraças num bater de porta aflito... solto as amarras na tua cintura.
A redenção dos pecados nos cremes da tua Tia.
Um lábio acima outro abaixo, pinceladas rupestres e a serenidade da experiência na voz do silêncio que a minha Avó desperta.

- Meninos, cuidado com os trovões. Pode vir aí mau tempo.