20 dezembro, 2011

Escrutinio do tempo




A angustia do sentido da vida e o relacionamento com ela,
Defeitos que se afiguram mais nítidos, as insuficiências e os erros.
O caminho da coragem. O sorriso feito coragem.

Caminho apressado para os cinquenta. A idade fica apenas mais nítida e aumenta o encanto.
Nada mais.

E é Dezembro como sempre. Frio, chuvoso, inquietante.
Flores e pétalas avermelhadas, nuvens sujas. Plantas que entortam o muro do quintal.
O gato imóvel

O parvo do gato que quando miava se queixava de mim à minha Mãe...medricas.
- Mariquinhas é o que és.

O tempo embaciado como os óculos do meu tio na ponta do nariz.
Ele, elegante, chapéu aprumado.
- A bênção Tio. – Deus te abençoe, sobrinho.

Livros que não acabam nunca. O cheiro agradável do "after-shave" do meu Pai.
Domingo de nuvens sujas, a tarde triste, um sol escondido sobre o Porto.

Os meus quinze anos. O parvo do gato, ainda imóvel.
As fisgadas nos pássaros, as bochechas rosadas da minha vizinha da frente.
Sombras das árvores no quintal.

O Hospital das “Guelas de Pau” , o porteiro numa caixinha de vidro. Correrias rampa acima aos pontapés na bola.

A vizinha rosadinha que me atira bilhetinhos. Um dia destes vamos comer “fava-rica”. Eu, ela o Almeida e o Chico.

Casas com cheiro a antigo, tarecos nos móveis, naperons com argolinhas, flores de plástico. O Hospital com cheiro a infeção.

Tudo cheira menos o gato... Imóvel.
Só pode estar embalsamado, o parvo!

Dias que se socorrem de outros dias. Percurso encharcado na manhã, e eu, distraído, tocando-te nas margens da pele.
Conversas noite fora, bocejos de fome e diálogos guardados como relíquias.
Não pela verve, sim por nós.

Precisava de tempo a fundo perdido.
Noite como se nunca acabasse. As contas do dia. Cada vez mais contas e menos dia.

Eu, com quinze anos, paixão como cegueira, solidão no meio do mundo, as miúdas como figuras santas, altares engalanados, o frenesim e a dor de barriga na preparação do baile de garagem.

Fingimentos de Princesas de Fábulas a reboque de sete anões.

O caminho sinuoso da paixão. A minha mãe que me olha pelo canto do olho, o nariz torcido da minha avó, e eu, nuvens e pássaros e musicas e bailados e encantos no corpo delas.

Afecções na saúde e uma perda de tempo.

Borbulhas na cara, a clarividência do meu sorriso quando te vejo.
-Criancices... - Dizem uns.

Domingos engalanados na missa das onze.
A noite que se faz escura sem limite de tempo. O seu aconchego que trato por tu.

Escrutínio da vida. Céu sem nuvens. O traço incerto dos teus dedos minúsculos.

As incisões na pele aos cinquenta, memórias e retratos que acompanham.
O prazer do silêncio e a mesma angustia no sentido da vida.
Hoje precisamos de mais caminho para a coragem e um sorriso.

O parvo do gato e o seu miar imóvel.
- Mariquinhas, é o que és!.

2 comentários:

luz efemera disse...

A consciência do Tempo superior que planeia o movimento universal e que nos faz viajar para além da perspetiva do imediato, do agora, do transitório... eleva-nos o espírito...
"Ah Tempo!
Que palpitas nos sulcos da minha pele
Que armadilhas ardiloso o espaço da minha memória
Não tenho medo de ti Tempo
Por isso não te atrevas a contrariar a sorte
Pois vou vencer-te
Quer tu queiras quer não
No dia da minha morte! "

Adorei como sempre o texto!
Aproveito para aqui desejar um feliz Natal...

Lídia Borges disse...

Escrito com o coração que não perde, no escrutínio do tempo, os odores e os sentires. Em cada Dezembro há passados presentes.

Um beijo e um Bom Natal