02 dezembro, 2011

Trovoadas e tempestade



Eu, Tu e as trovoadas. Raios e relâmpagos. Trovões como paquidermes.

A tua Tia carregadinha de cremes, debruçada na varanda.
A minha Avó de bengala. Monogramas nas fronhas que vai cosendo. Fímbrias douradas e azul celeste.

Tu, menina. Tosse rouca que partilhavas num vendaval brônquico qual relâmpago em aguaceiro.

Os dois no entreposto entre as duas portas. Pé aqui, pé ali.
Inocentes de mãos dadas.

Uma reza a Santa Bárbara. O céu iluminado e nós desafiando paquidermes grotescos.

Saltinhos entre quadrados desenhados no chão, voltas e voltas, um beijo na face esquerda, protegida dos olhares certeiros da Tia e o trovão a espreitar.

O frio nas entranhas da casa. Água tépida. Três assoalhadas. Esgares de gente que não conheço em molduras marteladas na parede.

Naperons com argolinhas, afectos em repouso, rugas de mansinho na cara da minha Avó.

Chuva em bátegas na vidraça, o gato fru-fru enrolado nas tuas pernas tentadoras. Eu destemido invasor.

Um tabuleiro de xadrez. Torres derrubadas, cavalo aos pinotes numa correria de xeque-mate.

A tua Tia carregadinha, lápis de cor no lugar das sobrancelhas e tu, dedos muitos, a atrapalharem-se nos botões. Eu quase em pânico. Os botões atrapalhados também.

Tinha os detalhes do teu corpo ancorado em mim.

Eu com medo que os pulsos disparassem com o batimento sistólico e que as tuas mãos sejam mãos outra vez, ou que a tua geometria baile no espaço entre os nossos pontos convexos.

E no entanto silencio da minha Avó. A quantidade de medo dentro do silêncio da minha Avó.

Mãos e dedos e o teu ar rarefeito no meu lóbulo esquerdo. O ar que não multiplico mas que me falta.

Saltam vidraças num bater de porta aflito... solto as amarras na tua cintura.
A redenção dos pecados nos cremes da tua Tia.
Um lábio acima outro abaixo, pinceladas rupestres e a serenidade da experiência na voz do silêncio que a minha Avó desperta.

- Meninos, cuidado com os trovões. Pode vir aí mau tempo.

5 comentários:

OutrosEncantos disse...

:))))) desculpa lá, Pedro, mas ri-me a bandeiras despregadas.... eheh...
achei o máximo :))
adorei estes trovões e relâmpagos.

beijo.

Lídia Borges disse...

Da descoberta... Encantos e desencantos!
(atmosféricos, claro está)

Um beijo

Anita disse...

A tempestade dos corpos, que desencadeiam trovoadas, raios e relâmpagos, a inocência do pecado ainda imberbe nas mãos de duas crianças. A tentação, o segredo e o medo de juízos externos ao momento de ternura, fazem-se sentir na “quantidade de medo dentro do silêncio da minha avó”. Lindo este texto Zé. Falar de afetos, construindo imagens e personagens é a melhor forma de dar corpo e rosto às emoções. Parabéns, beijinho.

Anita disse...

A tempestade dos corpos, que desencadeiam trovoadas, raios e relâmpagos, a inocência do pecado ainda imberbe nas mãos de duas crianças. A tentação, o segredo e o medo de juízos externos ao momento de ternura, fazem-se sentir na “quantidade de medo dentro do silêncio da minha avó”. Lindo este texto Zé. Falar de afetos, construindo imagens e personagens é a melhor forma de dar corpo e rosto às emoções. Parabéns, beijinho.

luz efemera disse...

"Espero-te tempestade!
Toca-me como o vento que me acaricia os lábios ardentes
Envolve-me na imensidão das ondas
Molha-me o corpo a roupa os cabelos em revolta intrincados
Em salpicos provocantes de espuma
Como se fossem outros espíritos invocados"

Parabéns pelos textos! O tema da tempestade pode ser de facto inspirador...