22 novembro, 2012

OS DIAS BONS NÃO ACONTECEM...!




Aqui, neste domingo, atiram-se pedaços de vinho ao ar na esperança de aclarar os deuses.
Mal sabem as pessoas que os deuses estão mortos e que o vinho vai sujar as tapeçarias de casa.

Gente com nariz de cartão, pose anedótica, reagentes em vez de cérebro, azoto na transpiração, resplandecendo édipos nas fronhas grossas. Falsidades de pacotilha, esventrados pelas costas.

Pensamentos corrosivos, silêncios gelados.
O centro do grito numa alma enrolada e imperfeita. O nosso formato de língua que são duas.

Ruas carregadas de bronquite neste Outono Primaveril e tu como Ninfa galgando algas silenciosas, sem frases adjacentes e moribundas.
Caixas de cartão, os teus brinquedos preferidos, carros e legos, cromos e bolas de trapos.
Uma luz de prematuro outono. Os teus pés, filhos de passos desnecessários.

O meu silêncio revestido de ansiedade, gestos calmos e oportunos, enquanto o cinza do céu deslaça temporal e sombras oportunas.

Junto à estante, fotos de um homem gordo e bigode. Chapéu na cabeça com classe, uma mulher de ar distante, coquete. Medalhas e quadrinhos, condecorações e livros.
Xicaras antigas pousam no naperon de argolas. Uma jarra de cristal. As pessoas na moldura, o meu tio, com ar de vulcão. Móveis e retratos sem vida.
Retratos, quadros, figurinhas sempre presentes, que não nos ligam nenhuma.

As tuas bochechas rosadas, lábios carnudos como peixe fora de água.
Pupilas dilatadas como bolas de Berlim.

O céu, esse, mantinha-se sem azul. Quase granítico, cor que traz tempestade.

Plátanos e acácias ajeitam-se no jardim fronteiriço como namorados em toques subtis.
Na rua, carros topo de gama, camionetas bolorentas, descascadas, oxidadas.

Daqui a nada é noite, véspera da manhã. O tal bom dia que não acontece.

Um idoso apoplexo acende um cigarro por detrás do candeeiro.
Sombras nos rebordos de ti, laços por desatar. Um silêncio perfeito mas inquietante.
Os teus passos ordenados.

Não importa as horas, agora. São uma e quinze desta madrugada e a chuva cai em bátegas furiosas, como se zangadas.

O teu sorriso a cada pedaço meu, o meu olhar que te inquieta e faz corar.
A criança que outrora habitara em ti, os pássaros que se acotovelam no teu redor, os cães que se aninham aos teus pés.

Por vezes julgo que não existo.
Mantenho-me distante e observador, uma constante sensação de perda, como um gume espetado no peito, uma lança na carótida.

Olho o céu pela claraboia semiaberta, nuvens como mulheres balofas, cheiinhas, convexas
As vezes rodopiam em valsa.

A claridade de agosto resvala no outono do teu interior, sombreando os tons, já de si difusos entre nós. Vivemos aqui como na antecâmara de qualquer coisa fúnebre. Um purgatório de vivos.

Dedos grossos , sorrisos de platina, boca com contornos de saliva, cabelo desgrenhado, a loucura que se apoderou rápida.
 E é assim deste modo frio e cansado que através de ti liberto os fantasmas que me habitam.

Enquanto isto, debicas insistente rezas a anjos, deuses e querubins, senhores do alto e outros afins, apregoando sofrimentos gemidos em sobressalto.

O meu avô num retrato, a minha tia e a família toda no móvel da sala, circunspectos.
A minha Tia já com papada, olhos fundos e negros. O meu primo de laçarote e camisa branca.

Uma fotografia numa moldura vive no interior de si mesmo.
E dias bons dificilmente acontecem.

21 novembro, 2012

Hospital de Anjos...!





Consta-se que existe um mundo de anjos na camada dois níveis abaixo da nossa.
Coberta de fuligem, pedaços de choupo, algum cimento, pouco, e água que escorre pelas paredes.

Aí dormitam e vagueiam em vigília constante numa luta desigual contra demónios adocicados, venenos vários e rezas ancestrais benzidas em pura água, que fará despertar os sentidos dos mais incautos.

Um velho com tosse de máquina a vapor atrelado a um estado comatoso, arrasta-se e espreita por entre frinchas. Abre e fecha portas.
…é o mais antigo, dizem.

Cheira a dejeto de cão e permanece em rezas tão inquietas como inaudíveis.

Apela à presença do professor, do padre e regedor, do bombeiro e da enfermeira .
Prazeres era o nome do meio desta ultima que lhe arredondava para oito o número de comprimidos goela abaixo na vã esperança de o fazer entendível.

Os anjos e arcanjos espreitam esbaforidos com tal alarme.
É chamado o doutor, e ele... arrota estupor.

Vai de charrua anexa, injeção espetada no músculo, fios e atilhos pelo corpo.
Ri alto e esbraceja ainda.

A cor do quarto desaparece, uivos de dor como se esventrado e amachucado no interior.

As veias latejam, olhos como marfim.
Ramos nascem no espaço entre os braços, pombos arrulham nos ombros, túnicas deambulam nos corredores e um musgo celestial escorre pelas paredes como alcatifa de encosto.

Anjos chefes, voam na direção dos livros bíblicos, ansiando acalmia, enquanto imagens se projetam umas contra as outras num festim de cor e som.
Reza o padre e o incauto professor, lança a musica o regedor mais o bombeiro enquanto o alcoviteiro abana a maca e chama o doutor.

Vem aí mais um Anjo no ar, enquanto o diabo no restolho espreita, com cheiro a esbaforido cigarro.

Homens com veste fina, aparelho ao pescoço e óculo de longo alcance para estrelas siderais, rabiscam receitas coloridas enquanto borbulham zumbidos moribundos que estalam como pedaços de céu.

Anjos amarelecidos vão saindo das caves dormitório e percorrem embalados, o corredor de sombras, truncadas de gente anónima.
 Afunila-se o futuro na parede em frente.

Do enfermeiro novo e imberbe lágrimas fechadas, roendo e torcendo o lábio inferior.
Na sala conjunta, desenhos nas margens do papel, olhares moribundos na vastidão da cidade, uma janela com grades, quatro a cinco pedaços de nada.

Cavalgam dias entre muros, falam com objetos, têm visões turvas e decalcadas, gritam golo porta fora, rapam beatas nos cinzeiros.

Batas brancas cirandam por entre gabinetes como linguagem de arcanjos,

Sente-se o gotejar junto ao candeeiro, três cadeiras ao lado, enquanto o sol espreita preguiçoso na janela poente e eles tentam beijá-lo na boca.

Consta-se que nesta camada, os sorrisos são mais que muitos, as festas redobraram, a alma cobre serenidade própria e especial.
Um mundo de psicóticos com gente dentro.

Doentes varridos do hospital como soldados caídos nas trincheiras.
Sonos com medo junto, numa promessa de inferno, neste edifício bolorento e decrépito.

Anjos e arcanjos, uns aprendizes outros engalanados chefes, sabem que o quadro não cabe na moldura da camada superior, habitada por esquizofrénicos economistas, oficiais de tempestades politicas e gente que vagueia por entre escombros plantados por governantes desossados.

04 outubro, 2012

UNS DIAS APÓS OS OUTROS


Os dias morrem em fila, ordenados. Um após o outro... após os outros.
Alguns na memória, ossos esculpidos na carne, frases metafóricas. 
Gente como árvores. Insignificantes e patéticas. 

Cemitérios com labirintos de cruzes, velas em compaixão, cinzas espalhadas como poeira, rezas ancestrais em mulheres de negro. 

Eucaliptos enormes no Alentejo. Um Sol esperto e ácido na pele. 
Um louva-a-Deus, preguiçoso, acocorado. Alguns homens acocorados também. 

Mulheres desnudas em camas frias de hotéis, bajuladas por “monta-cargas” de gravata a meio corpo. 
Faz um calor de ananases... diz-se por lá.

Viemos de mãos dadas como sobreviventes de guerra, inteiros por fora, repletos de feridas por dentro. Cosemos asas nas mãos e com elas voamos. E voando, não perdemos a esperança deixada por nós, quantas vezes ao acaso.

 Assalta-me um cheiro a açúcar queimado, um odor quente. O negro do céu de fogos por extinguir.
 Fotos de infância que me rodeiam, revistas de artistas por abrir sorrateiramente encravadas no pé do sofá. 

A renda de bilros da minha avó e a fumaça no cachimbo a sair da foto mais antiga da casa. 
Discussões politicas acaloradas como o infinito do céu. 
Gente com opiáceos de sabedoria inútil. Esferas atiradas para espaços recônditos.

. …”rua de St António ao rato”- baralha a voz da menina do radio-táxi. Fios de ouro, alfinetes, anéis dispersos pelos dedos como se a soma de todos fosse um.

Pausas com tempo dentro. Num eterno e ritmado tempo.
Um após o outro, como dias ordenados, sem sabermos o caminho. Timbres e notas e o teu corpo num toque final. 
Um ritmo de cópula onde os teus olhos se enchem e esvaziam brilhantes. 

Cafés bebidos beira-rio e beijos que não foram dados.
A tua viagem de regresso. Um rosnar furibundo em latidos de insónia.

A forma como me tocas a meio do sono, a elegância do toque.

Tenho a alma coberta de vincos de gente boa. Umas entre nós, outras que partiram
. …assim, vou tendo menos por onde chorar. 

 Os dias mantêm-se vazios, cadenciados a um ritmo de medo, e vou-me abandonando a pouco e pouco.

Vão morrendo em fila, ordenados. Uns após os outros... os dias.

18 julho, 2012

MEUS FANTASMAS DANÇARINOS



Na cidade, os edifícios encavalitam-se como amantes aprumados enquanto as ondas mergulham no mar da foz e recuam como obediente criatura.

Tudo isto numa claridade coada com o verde dos plátanos agitados e vozes de pássaro no deserto do céu.

Vejo esta cidade do cimo da serra, onde as pontes quase afunilam de perversas e os faróis dos carros produzem danças de sinais indecifráveis.

Cirandam sombras de sonâmbulos. Fantasmas adormecidos, no nosso interior dançarino.
Fantasmas que surgem de supetão lançando risos estridentes no cimo das campas que habitam.

Pupilas que jorram pânico, enquanto dos braços se formam asas.
Fantasmas que apenas nos circundam, que nos amparam, que riem e choram connosco e nos acotovelam quando adormecemos na esquina dura da vida.

Trevas na paisagem.
As minhas memórias num suspiro. Decorar o teu corpo no meu, roupas ao abandono, poses anémicas a escorrerem como sombras na parede.

Gente que não dorme. Gente habitada por outras gentes.

Embaciado de nevoeiro, rio largo, pessoas com pele de maçã e vincos nos sorrisos que enfeitam feições.

Gaivotas enamoradas no sono pachorrento do rio.
A luz que se afasta, deixando em suspenso sombras em ângulos difusos, nas ruas, nas casas, nas nossas vidas, nos lençóis frios de cetim que nos cobrem, no latir do cão doente, neste espaço moribundo.

E é na cidade pela noite que habitam dorsos luminosos, ondulações de ventres semeados a pânico e morcegos patéticos, petrificados em gestos automáticos atirados contra os postes.
Moram por aí, piedades raivosas, horrores descarnados, vibrações latentes em lençóis forrados de feições desabitadas.

Corpos nus desabrigados e embalsamados em mentes de nádegas decompostas.
Doses de colagénio no teu corpo como desenhos em que me recolho.

Nuvens como bochechas desenhadas no céu, bonacheironas, lacrimejantes, afastando-me de pensamentos vagos.

Onde habitamos... o tempo não tem tempo.
Nem aurora nem crepúsculo. Apenas ramos de árvores frondosas num sítio elástico e elegante.

Da cidade chega o cheiro doce de morango, a alfazema de roupas brancas a secar, olhares de órbitas vidradas e teimosas, luzes cintilantes e brumas flutuantes de onde surgem estes fantasmas dançarinos.

São amigos, amantes, sócios, distantes, donzelas em ginete, atiradores furtivos, sombras ou nebuloso, sol ou paixão.

São Fantasmas que nos habitam meninges e percorrem vaporosos fluidos corporais, ou engenhosos habitantes das nossas cavidades, entre taquicardias ou refluxos palpitantes.

Se quisermos, vamos encontrá-los nos sonhos ou acordados, alojados na veia cava superior.

São os nossos fantasmas dançarinos.

04 julho, 2012

Um fraquinho por ti...

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Tenho um fraquinho por ti.
Sempre tive um fraquinho por ti.

Agora que modifiquei a minha estrutura mental, que deixei de pensar em ti, convidas-me para um café.

Pedes-me um conselho… -“ que tal este vestido?...” , - … “ e os novos wonderbra?...”- “que chatice o selo do carro”, - “péssimo este tempo, não?” – “E os teus pais como vão?”…

...e eu… um fraquinho por ti.

Telefonas-me porque não dormes, angustiada, nervosa, corpo amolgado, ... -“que porcaria de dia, o IRS, a multa, a minha Mãe coitada…, o formulário. Filas enormes na CGD, e tu sem tempo”...

Gostas da bica bem cheia em chávena a escaldar, o bife mal-passado e ignoras displicente a sobremesa adocicada, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhado, atento, vidrado.

Falas-me da família, do escritório em que exerces, do teu Pai que te controla e não te dá descanso, o chato, o empedernido namorado que manténs porque te dá jeito, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, bem redonda do tamanho dos seus cem quilos.

Coitada de ti que te apareceu uma alergia e um antigo colega de faculdade que não te larga, mais os pneus carecas e a revisão atrasada, … -“conheces alguma oficina?”...

... E eu que sim… que até moro defronte de uma boa e barata, como boa e barata é esta refeição que aproveitas para pagar sem factura não-vá-o-diabo-tecê-las e o "mastronço" lá de casa pode saber…

... e um fraquinho, um fraquinho por ti.
Enormes as tuas banalidades, imponentes as tuas frivolidades.
Uma nuvem que te envolve como uma mortalha inspirada.

Queres parecer dramática e engraçada, … “- tens carradas de razão, dizes…”
Os teus olhos que já foram meus, o brilho que já foi teu, e a madeixa desarrumada.

Um lanche… quem sabe possamos falar de novo… e eu… um fraquinho por ti… sem saber porquê nem em quê.

Vais a Toronto em serviço, e eu…à beira de te levar a sério… e sai uma mentira pegada, um tiro no porta-aviões, os cinco do euro-milhões, a minha vida aos trambolhões.

Largas frases de livros que não lês, promessas feitas e rarefeitas que sopras na minha boca, como se me excitasses…

… e eu corado até às bochechas, num riso quase fugaz pois já nem calor me faz.

...E eu… um fraquinho por ti?

Ainda me habitam duendes que desarrumam o cérebro, como se fugisse de mim…quando quero mesmo fugir de ti.

Verdade. Já tive um fraquinho por ti.

Agora, sobrevivi.

05 junho, 2012

ACORRENTAR



Não te quero acorrentar a alma, nem fazer contratos dos teus beijos.
Nem ser a fimbria do teu vestido, muito menos o chão que tu pisas.

Por vezes sou impaciente. Outras paciente de mais.
Oiço latidos dos cães. O ronronar dos gatos no namoro, e o tempo que passa devagar...

Conto-te alguns segredos mais íntimos e bebemos copos ao cair da noite, embriagando ideias, saltando de cá para lá, como "ícaro" de ocasião.

Entendo os teus dilemas, fugas desenfreadas, esgares de loucura, risos sem jeito, saltos sem paraquedas e um olhar de soslaio que te caracteriza... traquina.

Finges que não me vês e assumes o embaraço na fronteira ténue de um abraço.

E temos entre nós e por breves segundos, anos de conhecimento, ventos e marés, tempestades e ancoradouros de desgraças, ventos embrulhados em roupagem fria, desacatos de memória, sorrisos nos lábios e uma ventania no teu olhar.

Tenho dias tristes. Muito tristes.
Dias em que perco os pontos cardeais. Dias sem noção de tempo. Sem suporte mental para a vida que se espraia diante mim. E em que a mortalha cobre corpo esquecido.

Preciso do canto fino da tua boca. O olhar difuso e penetrante.
Que me preenchas o milímetro quadrado ao fundo do ventrículo esquerdo que atiça taquicardias inquietas.

Não te quero acorrentar desejos. Nem acorrentar o teu corpo suave como seda.
Muito menos fazer contrato dos teus abraços.

E assim me vou desarrumando, implodindo o edifício das palavras, parágrafos imensos, frases por pontuar e preencher.

Vejo-me entre cordilheiras.
Geometrias como sombras chinesas, silêncios que me entopem e juras esfumadas pelos dedos como ultimo cigarro em baforadas de nicotina.

Não te quero acorrentar alma, muito menos desejo ou pensamento.
Açoites de memória, paciência de monge budista e as bocas que se encontram no trajeto da palavra.

Beijos e palavras. Palavras nos beijos.

14 maio, 2012

Juro que nem a dormir descanso...



Juro que nem a dormir descanso...

Vivemos sempre em reticências.
Juras de amor não atendidas, paixão latente na esquina da vida enquanto o semáforo muda a cor e eu olho nos teus olhos.

A vida passa a ter mais sentido com os sentidos mais despertos e um renascer que julgava perdido e atirado contra a sétima onda do mar revolto.

Juro que nem a dormir descanso...

Enquanto ancorado no teu pescoço, partículas dispersas por entre os dois.
A tua mão que adora descansar na minha, os cafés perdidos entre embaraços.

Ninguém espera o inesperado, enquanto o coração dispara mais acelerado no momento.
O teu olhar na ausência do meu olhar.

Tenho-te como musica, um excerto de Bach, um poema de Sofia ou um quadro de Paula Rego.
Tens tudo em ti. Elegância e aprumo, aparente solidez em insegurança interior.

Juro que nem a dormir descanso...

Vejo que a lua balança no céu em noite estrelada e eu ainda espero por ti.
Vives na angústia da indiferença, no carinho e no toque que te afastam aos poucos.
Os olhos como reflexo da alma e um coração amargurado.

A noite vem cheia e uma lágrima furtiva no rosto.
Posso ser Rei se quiser, mas prefiro ser plebeu no teu reino.

Atiro barquinhos de papel com mensagens escritas, enquanto gaivotas agitam tempestade.
Ternura de anos passados, acalentados por algo mais forte surgido sem esperar.

Fugi como as folhas do vento, naveguei entre brumas, céus estrelados e confiantes, até as tuas pálpebras caírem nos meus olhos cansados.
Estes olhos que te fazem estremecer e viver após mergulhos tristes na espuma do tempo.

O dia espreguiça-se e nós temos o amor das coisas simples.
O direito a viver coisas simples.

Juro, que nem a dormir descanso...

07 maio, 2012

Perdição...



Cirando por aí em obsessões de alma moribunda, socalcos de feridas abertas, palavras mal colocadas na minha voz desarmada.
Músculos retidos e sentimentos agrafados em folhas lisas coloridas.

Adormeço a destempo. Está gelada a noite...

Braços inquietos, frases sem sentido, o comboio na estação em chiadeira estridente.
Salpicos de chuva ritmada com os segundos do relógio.

Aridez noturna. A falta. Suspiros de delito nas tuas reticências.

A tua na minha mão em afagos. A pele que inebria e o teu cheiro que entontece.
O amanhã em combustão. Prendes-me em gestos de saudade.

Volúpia de enganos. Sombras que ameaçam a minha luta interior.
Lábios como ancoradouros de alma na tua entrega.
Teu peito como doente em rota final.

Arrumo-me em pedaços incertos, espaços sobrantes, enxurradas de silabas por dizer.
Abraços de supetão, rastilhos de lábios, o despertar do teu corpo.
Desfibrilhar de coração com choques telegráficos.

Ribeira alagada de marés, remendos interiores dissipados, a comunhão das margens nos despojos do teu sorriso.
A luz sofrida do candeeiro na marginal. Eufemismos atirados ao rio.

Deuses que acompanham danças de lua.Guião que escreveste mentalmente,.
A minha solidão na boca do rio em céu de Maio. A minha perdição...

A hora do silêncio no meu recolhimento. Cadências paulatinas na voz.
 Luzes em bolandas.
Manhã e aurora. Muralha de pedras mudas.
Alquimia de segredos que revelas
A tua boca próxima do beijo.
Está gelada a noite...

28 março, 2012

Nas Entrelinhas...



Caminhos inquietos, bifurcados, alma isolada.
Vírgulas nas tuas frases, a fumaça do cigarro que esconde o rosto.
Fragmentos que não te tocam e uma vontade ao desconcerto.

Vives entre esperas... Indecisa, inconstante e dedilhas impaciente, ritmos
nas dobras do teu joelho.

Trovões que te desenham diálogos no chão. A tua mão esquerda em concha; a direita em interrogação.

Paixão como incisões na pele, a tua carne esventrada sem queixume, o traço certo do teu batom.
Peito sem remissão de pecados, saltos sem corda, vida sem rede e eu... a ler-te nas entrelinhas.

Respiração ritmada, batidas cardíacas sem propulsão, anseios sem alimento, doce que se evapora na boca, voo em céu aberto.

Corpos que se arrastam, inundados, rostos desalinhados sem paixão, o teu corpo que incendeia andar e a alma presa em combustão.

Braços que atiras de sopetão, lábios arrebatados à dor, as tuas pernas que sussurram intimidades e eu... a ler-te nas entrelinhas.

Alma rasgada por dentro, coração dividido em três quartos.
Sofrimento estendido no tempo.

Gato de pelo cinza, - persa, é o que dizem... Ciranda por entre pernas (como eu o faria contigo), lambe-me mão e afaga o pelo nas calças bem passadas e a afunilar nos sapatos.

Terço estendido na cómoda, imagem de Cristo de pele clara, vidraças que tremem com trovões, flores presas na jarra, a bênção do Sr. Prior na missa das onze e o beicinho dele espetado quando te olha.
... Acho que por castigo, um destes dias cai-lhe o crucifixo aos pés.

Pombos mudam de beiral e vão arrulhar para norte.
O vento fustiga os plátanos e tu... a leres-me nas entrelinhas, num sorriso lento.

Gatas em redor das plantas num miar estridente, loucas pelo persa.
Lágrimas por chorar, um trompetista na rua com dotes de comerciante.

Os teus dedos nos meus, toques como só tu.
Lábios ancorados, mordeduras no lóbulo esquerdo, mão que se esgueira caprichosa num sentido.

O meu olhar turvo, coração em batimentos celestiais; eu como nas nuvens, o teu atrevimento que me encanta.

E tu... a leres-me nas entrelinhas.

14 março, 2012

A vida num ápice




Por vezes estou demasiado cheio de palavras e não consigo falar.

A vida coloca-nos em equações matemáticas e faz-nos questionar razões, convicções, prioridades, como alma em buscas incessantes e o corpo em ecos de desejo.

Velhos sem remissão, pecados da vida ancorados, felicidades fundeadas e eles acoplados a doenças várias.
Dobrados na horrível solidão dos seus olhos. Alguns caídos em casa, faz tempo.

O embaraço da distância, a cor que não habita, as silabas que não ocupam.

Árvores frondosas, prédios altos, avenidas largas, desnudadas cicatrizes.

Portas encerradas. Vidraças que não se abrem.

Cabelos mais brancos ainda. Bolhinhas no canto da boca. Expressão congelada, ausência de voz, ausência de lua nesta noite. Ausência de tudo.

Gente com pouca gente. Vozes que não falam. Tensões labirínticas em corpos caídos, arrastados.

Velhotes por aqui e por ali. Bancos de jardim corridos.

- Já não faço cá nada…

E a chuva na vidraça. Travões de carro acelerado. O elétrico sem servofreio, um galope.

- As doenças que não me largam…

Varizes, ossos, os olhos e o coração, cólicas e desconforto.

E nisto, uma velha gaiteira, lenço escarlate, saia rodada, cabelo arranjado e sapato tigreza de tacão fino que lhe troca o andar.

- Já nem isto me anima…

E eis o caminho de desânimo, medo e inquietude.

O vento no castanheiro que me assombra, suspiros desalentados, risadas infernais. Sim, infernais.

No dia em que já não seja eu, e ela quiser entrar, alcoviteira, resmungona, no seu negro esvoaçante, abram-lhe as portas e deixem-na levar-me calmo e concluído.

Vou de viagem, partirei. Vou ali e volto já.

O Sol cirandará as nuvens desse dia e uma brisa saída das árvores acena na despedida.

E eu a ser levado. Os meus olhos a gritarem aflitos o que ninguém ouve, e no entanto, tudo serenidade.

E esta galdéria de negro que me arrasta de mão dada e aos poucos a decifrar-me a vida.

Lustres a piscar, pobres de mão gasta de tanto pedir, a linha última do comboio.

E eu, cabeça na Lua a escarnecer do puxão.

As cores são mais cinza, os sons abafados, a espingarda de lata que dispara pauzinhos de algodão da Feira de Sta Clara.
Caixas de fósforos como baliza, botões como jogadores, papel colorido nas caricas. O luzidio do meu quarto, a claraboia que geme com os trovões.

Olhos ocos num pedido de socorro. Óculos com aros remendados a proteger dioptrias.
Ponteiros de relógio ao inverso, sem marcar o tempo.

Cheira um bocadinho a Sol e a flores… e a minha vida toda num ápice.

01 fevereiro, 2012

Soldadinho de chumbo



Sim, ainda chove e cheira a castanha assada na avenida.
Escurece cedo. A noite levanta voo sobre a cidade e eu recolho na boca do vento as vozes que me encantam.
Assim não vivo sozinho.

Vejo-te em oceanos íntimos e um sol de fogo consumido em ti. Alguns mantos de lucidez e a mão estendida, mendigando o sol.
Telas que pintas sem rasgos nem fendas, gaivotas no meu céu, um mar em azul e uma voz que me enrouquece.
Tens a paixão do rio, dos eléctricos que desatinam barulhentos, dos artistas noctívagos de pasta na mão, incoerentes.

Musica a tocar, a dança do Fred Astaire na sala ao lado da minha.
Pinotes dos meus vizinhos de cima, canalizações barulhentas, a cama que range aqui e ali.

Eu na tropa, com a tropa toda comigo.
Soldado, mergulhador, marinheiro, aviador, Tenente. Traje aprumado e no entanto a minha vizinha Alice mais a prima Deodata a espalmarem-me a farda, o brilho dos botões, um encosto de ancas, uma parcimónia de joelhos...os dela.

Eu, sem espaço entre as duas. Uma de pálpebras órfãs, apenas um risquinho sumido.
A outra com voz de avestruz, e eu ali, espetado no meio, botõezinhos a reluzir.

Condecorações numa cómoda, o teu corpo carregadinho de sinais, frascos transparentes, muitos frascos transparentes. Jarrinhas de porcelana, um aparador recheado de molduras escurecidas pelo tempo.
Cacos velhos como trovões em alto mar.

Rajadas de vento fustigado a sal.
A minha Avó a bater com a mão no peito em Loas e Ave-Marias a Nossa Senhora.
Nunca me apercebi de qualquer "graça" concedida.

Conheci-a com muita idade e doenças. Morreu velhinha, as dores nos calcanhares mantiveram-se, o mau-estar também e no seu funeral, bátegas de chuva e outras criaturas a baterem com a mão no peito, dando graças, numa ladainha de encomenda de alma.

O apartamento de cima vai-se esvaziando. Gotículas no algeroz.
A cómoda cheia de pó, pano de lustro que prescreveu. O meu vizinho, sorriso satânico e um odor que liberta contenção nasal.

Rostos estranhos que nos ficam. Como se nos habitassem, como se encostados a nós, e os cheiros bafientos que emanam.

A vida que não ganha sentido.

Tudo isto enquanto o mundo vibra em silêncio e os cacilheiros recolhem na margem esquerda do Tejo e a amiga da Alice derretida com um salame de chocolate.
O baton que sobeja da boca, o traço inquieto no lugar da sobrancelha. E eu, esbatido, apertado contra o peito arfante e composto como clarabóias apontadas.

E fico assim, só olhos. Tudo olhos. Mais olhos que cara.

Escurece cedo. A noite pesada e fria, e eu engalanado com dois repolhos velhos, bafientos.

O lustro na farda, boina e continência e o missal no bolso esquerdo traseiro do vizinho de cima, mais pinote menos pinote.

Não me caiam as gotículas em cima nem rebente o algeroz e eu quero lá saber do apartamento a esvaziar e do baton desprendido da prima da Alice, a Deodata.

09 janeiro, 2012

Ai de ti...



Mexo-me e encolho-me na tua presença. Saio de mim e entro num caminho sem sentido.
Bifurcações ou desvios acidentais.

Mas sempre a tua presença, a tua imagem, as fotos na praia, o meu biquini preto com laçarote do lado esquerdo que teimavas desapertar, o teu peito no meu em ânsias de morte e asfixia.

E a ausência faz tempo. Os teus não-diálogos.

Se não me respondes, mata-me. Se não me matas morro à mesma, pronto.

E não te desejo mais nenhum 'Bom Dia', nem 'Boa Noite', nem digo 'Olá'.
Não te chamo 'meu querido', 'meu Anjo-da-guarda'. Não te trato do cão.
Não te leio, não olho para os teus olhos de vez em quando.

Não falo mais de ti a mim.
E tu, descaradamente respondes…
-"E eu com isso?" e pronto. Morro mesmo.

Isto tudo depois de sair do teu peito, hoje à noite.

Razão tinha a minha avó Maria, não se pode confiar nos Homens.
Ela que engravidou cedo de um tropa de partida para África.

Esse que nunca quis saber dela e a coitada a carpir mágoas, rezando pelo seu bem-estar. Até hoje… pelo que sei.

Sendo assim, vou por uma mordaça na boca e vou-me algemar para não ter a tentação de falar contigo.
Vou suster a respiração até "rebentar".
E vou-me anestesiar para não sentir o teu feitiço.

E ainda assim, volto a perguntar porque não me olhas, não me tocas, nem me queres…

… será o teu feitiço? Ou serei eu?

Velinhas e rezas à Sra de Fátima, o teu cheiro ainda nas paredes, o frigorífico pela metade, os “tupperwares” da tua mãe…

O medo que o menino não comesse, que eu não te alimentasse… eu que tirava da boca para ti, do peito para ti, do corpo todo para ti… E, no entanto, as orquídeas que secaram, o bouquet dos cinco anos e três meses, a tua não-lembrança, a minha mágoa.

Rédea curta, dizias tu. E eu a imaginar-te corredor de fundo, papa-léguas, saltitão.

Se não me queres, diz. Afasta-me com forcep´s, atira-me de supetão, faz de mim o enclave na guerra norte-sul.

Razão tinha a Avó, por não crer nos Homens. Valha-me Deus ou o apregoado Senhor dos Anjos aflitos.

Vou dormir semana e meia, desconjuntar-me toda. Vou a reparar na oficina, trocar peças, rolamentos e cabeça. Os “pistons” também.

Quem sabe dás por mim, ou te apoquenta a minha figura, o meu novo traje, gente por inteiro.

Ou mando retirar a tua chávena, a fotografia na mesa de cabeceira a três-quartos, o teu cheiro invasor.

Arre que és chato. Se não me respondes, mata-me. Se não me matas, morro à mesma, pronto.