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A mostrar mensagens de 2012

OS DIAS BONS NÃO ACONTECEM...!

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Aqui, neste domingo, atiram-se pedaços de vinho ao ar na esperança de aclarar os deuses.
Mal sabem as pessoas que os deuses estão mortos e que o vinho vai sujar as tapeçarias de casa.

Gente com nariz de cartão, pose anedótica, reagentes em vez de cérebro, azoto na transpiração, resplandecendo édipos nas fronhas grossas. Falsidades de pacotilha, esventrados pelas costas.

Pensamentos corrosivos, silêncios gelados.
O centro do grito numa alma enrolada e imperfeita. O nosso formato de língua que são duas.

Ruas carregadas de bronquite neste Outono Primaveril e tu como Ninfa galgando algas silenciosas, sem frases adjacentes e moribundas.
Caixas de cartão, os teus brinquedos preferidos, carros e legos, cromos e bolas de trapos.
Uma luz de prematuro outono. Os teus pés, filhos de passos desnecessários.

O meu silêncio revestido de ansiedade, gestos calmos e oportunos, enquanto o cinza do céu deslaça temporal e sombras oportunas.

Junto à estante, fotos de um homem gordo e b…

Hospital de Anjos...!

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Consta-se que existe um mundo de anjos na camada dois níveis abaixo da nossa.
Coberta de fuligem, pedaços de choupo, algum cimento, pouco, e água que escorre pelas paredes.

Aí dormitam e vagueiam em vigília constante numa luta desigual contra demónios adocicados, venenos vários e rezas ancestrais benzidas em pura água, que fará despertar os sentidos dos mais incautos.

Um velho com tosse de máquina a vapor atrelado a um estado comatoso, arrasta-se e espreita por entre frinchas. Abre e fecha portas.
…é o mais antigo, dizem.

Cheira a dejeto de cão e permanece em rezas tão inquietas como inaudíveis.

Apela à presença do professor, do padre e regedor, do bombeiro e da enfermeira .
Prazeres era o nome do meio desta ultima que lhe arredondava para oito o número de comprimidos goela abaixo na vã esperança de o fazer entendível.

Os anjos e arcanjos espreitam esbaforidos com tal alarme.
É chamado o doutor, e ele... arrota estupor.

Vai de charrua anexa, injeção espetada no músculo, fios e…

UNS DIAS APÓS OS OUTROS

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Os dias morrem em fila, ordenados. Um após o outro... após os outros. Alguns na memória, ossos esculpidos na carne, frases metafóricas.  Gente como árvores. Insignificantes e patéticas. 
Cemitérios com labirintos de cruzes, velas em compaixão, cinzas espalhadas como poeira, rezas ancestrais em mulheres de negro. 
Eucaliptos enormes no Alentejo. Um Sol esperto e ácido na pele.  Um louva-a-Deus, preguiçoso, acocorado. Alguns homens acocorados também. 
Mulheres desnudas em camas frias de hotéis, bajuladas por “monta-cargas” de gravata a meio corpo.  Faz um calor de ananases... diz-se por lá.
Viemos de mãos dadas como sobreviventes de guerra, inteiros por fora, repletos de feridas por dentro. Cosemos asas nas mãos e com elas voamos. E voando, não perdemos a esperança deixada por nós, quantas vezes ao acaso.
 Assalta-me um cheiro a açúcar queimado, um odor quente. O negro do céu de fogos por extinguir.  Fotos de infância que me rodeiam, revistas de artistas por abrir sorrateiramente encr…

MEUS FANTASMAS DANÇARINOS

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Na cidade, os edifícios encavalitam-se como amantes aprumados enquanto as ondas mergulham no mar da foz e recuam como obediente criatura.

Tudo isto numa claridade coada com o verde dos plátanos agitados e vozes de pássaro no deserto do céu.

Vejo esta cidade do cimo da serra, onde as pontes quase afunilam de perversas e os faróis dos carros produzem danças de sinais indecifráveis.

Cirandam sombras de sonâmbulos. Fantasmas adormecidos, no nosso interior dançarino.
Fantasmas que surgem de supetão lançando risos estridentes no cimo das campas que habitam.

Pupilas que jorram pânico, enquanto dos braços se formam asas.
Fantasmas que apenas nos circundam, que nos amparam, que riem e choram connosco e nos acotovelam quando adormecemos na esquina dura da vida.

Trevas na paisagem.
As minhas memórias num suspiro. Decorar o teu corpo no meu, roupas ao abandono, poses anémicas a escorrerem como sombras na parede.

Gente que não dorme. Gente habitada por outras gentes.

Embaciado de nevoeir…

Um fraquinho por ti...

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Tenho um fraquinho por ti.
Sempre tive um fraquinho por ti.

Agora que modifiquei a minha estrutura mental, que deixei de pensar em ti, convidas-me para um café.

Pedes-me um conselho… -“ que tal este vestido?...” , - … “ e os novos wonderbra?...”- “que chatice o selo do carro”, - “péssimo este tempo, não?” – “E os teus pais como vão?”…

...e eu… um fraquinho por ti.

Telefonas-me porque não dormes, angustiada, nervosa, corpo amolgado, ... -“que porcaria de dia, o IRS, a multa, a minha Mãe coitada…, o formulário. Filas enormes na CGD, e tu sem tempo”...

Gostas da bica bem cheia em chávena a escaldar, o bife mal-passado e ignoras displicente a sobremesa adocicada, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhado, atento, vidrado.

Falas-me da família, do escritório em que exerces, do teu Pai que te controla e não te dá descanso, o chato, o empedernido namorado que manténs porque te dá jeito, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, bem redonda do tamanho dos…

ACORRENTAR

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Não te quero acorrentar a alma, nem fazer contratos dos teus beijos.
Nem ser a fimbria do teu vestido, muito menos o chão que tu pisas.

Por vezes sou impaciente. Outras paciente de mais.
Oiço latidos dos cães. O ronronar dos gatos no namoro, e o tempo que passa devagar...

Conto-te alguns segredos mais íntimos e bebemos copos ao cair da noite, embriagando ideias, saltando de cá para lá, como "ícaro" de ocasião.

Entendo os teus dilemas, fugas desenfreadas, esgares de loucura, risos sem jeito, saltos sem paraquedas e um olhar de soslaio que te caracteriza... traquina.

Finges que não me vês e assumes o embaraço na fronteira ténue de um abraço.

E temos entre nós e por breves segundos, anos de conhecimento, ventos e marés, tempestades e ancoradouros de desgraças, ventos embrulhados em roupagem fria, desacatos de memória, sorrisos nos lábios e uma ventania no teu olhar.

Tenho dias tristes. Muito tristes.
Dias em que perco os pontos cardeais. Dias sem noção de tempo.…

Juro que nem a dormir descanso...

Juro que nem a dormir descanso...

Vivemos sempre em reticências.
Juras de amor não atendidas, paixão latente na esquina da vida enquanto o semáforo muda a cor e eu olho nos teus olhos.

A vida passa a ter mais sentido com os sentidos mais despertos e um renascer que julgava perdido e atirado contra a sétima onda do mar revolto.

Juro que nem a dormir descanso...

Enquanto ancorado no teu pescoço, partículas dispersas por entre os dois.
A tua mão que adora descansar na minha, os cafés perdidos entre embaraços.

Ninguém espera o inesperado, enquanto o coração dispara mais acelerado no momento.
O teu olhar na ausência do meu olhar.

Tenho-te como musica, um excerto de Bach, um poema de Sofia ou um quadro de Paula Rego.
Tens tudo em ti. Elegância e aprumo, aparente solidez em insegurança interior.

Juro que nem a dormir descanso...

Vejo que a lua balança no céu em noite estrelada e eu ainda espero por ti.
Vives na angústia da indiferença, no carinho e no toque que te afastam …

Perdição...

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Cirando por aí em obsessões de alma moribunda, socalcos de feridas abertas, palavras mal colocadas na minha voz desarmada.
Músculos retidos e sentimentos agrafados em folhas lisas coloridas.

Adormeço a destempo. Está gelada a noite...

Braços inquietos, frases sem sentido, o comboio na estação em chiadeira estridente.
Salpicos de chuva ritmada com os segundos do relógio.

Aridez noturna. A falta. Suspiros de delito nas tuas reticências.

A tua na minha mão em afagos. A pele que inebria e o teu cheiro que entontece.
O amanhã em combustão. Prendes-me em gestos de saudade.

Volúpia de enganos. Sombras que ameaçam a minha luta interior.
Lábios como ancoradouros de alma na tua entrega.
Teu peito como doente em rota final.

Arrumo-me em pedaços incertos, espaços sobrantes, enxurradas de silabas por dizer.
Abraços de supetão, rastilhos de lábios, o despertar do teu corpo.
Desfibrilhar de coração com choques telegráficos.

Ribeira alagada de marés, remendos interiores dissipa…

Nas Entrelinhas...

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Caminhos inquietos, bifurcados, alma isolada.
Vírgulas nas tuas frases, a fumaça do cigarro que esconde o rosto.
Fragmentos que não te tocam e uma vontade ao desconcerto.

Vives entre esperas... Indecisa, inconstante e dedilhas impaciente, ritmos
nas dobras do teu joelho.

Trovões que te desenham diálogos no chão. A tua mão esquerda em concha; a direita em interrogação.

Paixão como incisões na pele, a tua carne esventrada sem queixume, o traço certo do teu batom.
Peito sem remissão de pecados, saltos sem corda, vida sem rede e eu... a ler-te nas entrelinhas.

Respiração ritmada, batidas cardíacas sem propulsão, anseios sem alimento, doce que se evapora na boca, voo em céu aberto.

Corpos que se arrastam, inundados, rostos desalinhados sem paixão, o teu corpo que incendeia andar e a alma presa em combustão.

Braços que atiras de sopetão, lábios arrebatados à dor, as tuas pernas que sussurram intimidades e eu... a ler-te nas entrelinhas.

Alma rasgada por dentro, coração dividido em três qua…

A vida num ápice

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Por vezes estou demasiado cheio de palavras e não consigo falar.

A vida coloca-nos em equações matemáticas e faz-nos questionar razões, convicções, prioridades, como alma em buscas incessantes e o corpo em ecos de desejo.

Velhos sem remissão, pecados da vida ancorados, felicidades fundeadas e eles acoplados a doenças várias.
Dobrados na horrível solidão dos seus olhos. Alguns caídos em casa, faz tempo.

O embaraço da distância, a cor que não habita, as silabas que não ocupam.

Árvores frondosas, prédios altos, avenidas largas, desnudadas cicatrizes.

Portas encerradas. Vidraças que não se abrem.

Cabelos mais brancos ainda. Bolhinhas no canto da boca. Expressão congelada, ausência de voz, ausência de lua nesta noite. Ausência de tudo.

Gente com pouca gente. Vozes que não falam. Tensões labirínticas em corpos caídos, arrastados.

Velhotes por aqui e por ali. Bancos de jardim corridos.

- Já não faço cá nada…

E a chuva na vidraça. Travões de carro acelerado. O elétrico sem servofreio, um…

Soldadinho de chumbo

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Sim, ainda chove e cheira a castanha assada na avenida.
Escurece cedo. A noite levanta voo sobre a cidade e eu recolho na boca do vento as vozes que me encantam.
Assim não vivo sozinho.

Vejo-te em oceanos íntimos e um sol de fogo consumido em ti. Alguns mantos de lucidez e a mão estendida, mendigando o sol.
Telas que pintas sem rasgos nem fendas, gaivotas no meu céu, um mar em azul e uma voz que me enrouquece.
Tens a paixão do rio, dos eléctricos que desatinam barulhentos, dos artistas noctívagos de pasta na mão, incoerentes.

Musica a tocar, a dança do Fred Astaire na sala ao lado da minha.
Pinotes dos meus vizinhos de cima, canalizações barulhentas, a cama que range aqui e ali.

Eu na tropa, com a tropa toda comigo.
Soldado, mergulhador, marinheiro, aviador, Tenente. Traje aprumado e no entanto a minha vizinha Alice mais a prima Deodata a espalmarem-me a farda, o brilho dos botões, um encosto de ancas, uma parcimónia de joelhos...os dela.

Eu, sem espaço entre as duas. Uma de pálpeb…

Ai de ti...

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Mexo-me e encolho-me na tua presença. Saio de mim e entro num caminho sem sentido.
Bifurcações ou desvios acidentais.

Mas sempre a tua presença, a tua imagem, as fotos na praia, o meu biquini preto com laçarote do lado esquerdo que teimavas desapertar, o teu peito no meu em ânsias de morte e asfixia.

E a ausência faz tempo. Os teus não-diálogos.

Se não me respondes, mata-me. Se não me matas morro à mesma, pronto.

E não te desejo mais nenhum 'Bom Dia', nem 'Boa Noite', nem digo 'Olá'.
Não te chamo 'meu querido', 'meu Anjo-da-guarda'. Não te trato do cão.
Não te leio, não olho para os teus olhos de vez em quando.

Não falo mais de ti a mim.
E tu, descaradamente respondes…
-"E eu com isso?" e pronto. Morro mesmo.

Isto tudo depois de sair do teu peito, hoje à noite.

Razão tinha a minha avó Maria, não se pode confiar nos Homens.
Ela que engravidou cedo de um tropa de partida para África.

Esse que nunca quis saber dela e a coitada a ca…