01 fevereiro, 2012

Soldadinho de chumbo



Sim, ainda chove e cheira a castanha assada na avenida.
Escurece cedo. A noite levanta voo sobre a cidade e eu recolho na boca do vento as vozes que me encantam.
Assim não vivo sozinho.

Vejo-te em oceanos íntimos e um sol de fogo consumido em ti. Alguns mantos de lucidez e a mão estendida, mendigando o sol.
Telas que pintas sem rasgos nem fendas, gaivotas no meu céu, um mar em azul e uma voz que me enrouquece.
Tens a paixão do rio, dos eléctricos que desatinam barulhentos, dos artistas noctívagos de pasta na mão, incoerentes.

Musica a tocar, a dança do Fred Astaire na sala ao lado da minha.
Pinotes dos meus vizinhos de cima, canalizações barulhentas, a cama que range aqui e ali.

Eu na tropa, com a tropa toda comigo.
Soldado, mergulhador, marinheiro, aviador, Tenente. Traje aprumado e no entanto a minha vizinha Alice mais a prima Deodata a espalmarem-me a farda, o brilho dos botões, um encosto de ancas, uma parcimónia de joelhos...os dela.

Eu, sem espaço entre as duas. Uma de pálpebras órfãs, apenas um risquinho sumido.
A outra com voz de avestruz, e eu ali, espetado no meio, botõezinhos a reluzir.

Condecorações numa cómoda, o teu corpo carregadinho de sinais, frascos transparentes, muitos frascos transparentes. Jarrinhas de porcelana, um aparador recheado de molduras escurecidas pelo tempo.
Cacos velhos como trovões em alto mar.

Rajadas de vento fustigado a sal.
A minha Avó a bater com a mão no peito em Loas e Ave-Marias a Nossa Senhora.
Nunca me apercebi de qualquer "graça" concedida.

Conheci-a com muita idade e doenças. Morreu velhinha, as dores nos calcanhares mantiveram-se, o mau-estar também e no seu funeral, bátegas de chuva e outras criaturas a baterem com a mão no peito, dando graças, numa ladainha de encomenda de alma.

O apartamento de cima vai-se esvaziando. Gotículas no algeroz.
A cómoda cheia de pó, pano de lustro que prescreveu. O meu vizinho, sorriso satânico e um odor que liberta contenção nasal.

Rostos estranhos que nos ficam. Como se nos habitassem, como se encostados a nós, e os cheiros bafientos que emanam.

A vida que não ganha sentido.

Tudo isto enquanto o mundo vibra em silêncio e os cacilheiros recolhem na margem esquerda do Tejo e a amiga da Alice derretida com um salame de chocolate.
O baton que sobeja da boca, o traço inquieto no lugar da sobrancelha. E eu, esbatido, apertado contra o peito arfante e composto como clarabóias apontadas.

E fico assim, só olhos. Tudo olhos. Mais olhos que cara.

Escurece cedo. A noite pesada e fria, e eu engalanado com dois repolhos velhos, bafientos.

O lustro na farda, boina e continência e o missal no bolso esquerdo traseiro do vizinho de cima, mais pinote menos pinote.

Não me caiam as gotículas em cima nem rebente o algeroz e eu quero lá saber do apartamento a esvaziar e do baton desprendido da prima da Alice, a Deodata.