28 março, 2012

Nas Entrelinhas...



Caminhos inquietos, bifurcados, alma isolada.
Vírgulas nas tuas frases, a fumaça do cigarro que esconde o rosto.
Fragmentos que não te tocam e uma vontade ao desconcerto.

Vives entre esperas... Indecisa, inconstante e dedilhas impaciente, ritmos
nas dobras do teu joelho.

Trovões que te desenham diálogos no chão. A tua mão esquerda em concha; a direita em interrogação.

Paixão como incisões na pele, a tua carne esventrada sem queixume, o traço certo do teu batom.
Peito sem remissão de pecados, saltos sem corda, vida sem rede e eu... a ler-te nas entrelinhas.

Respiração ritmada, batidas cardíacas sem propulsão, anseios sem alimento, doce que se evapora na boca, voo em céu aberto.

Corpos que se arrastam, inundados, rostos desalinhados sem paixão, o teu corpo que incendeia andar e a alma presa em combustão.

Braços que atiras de sopetão, lábios arrebatados à dor, as tuas pernas que sussurram intimidades e eu... a ler-te nas entrelinhas.

Alma rasgada por dentro, coração dividido em três quartos.
Sofrimento estendido no tempo.

Gato de pelo cinza, - persa, é o que dizem... Ciranda por entre pernas (como eu o faria contigo), lambe-me mão e afaga o pelo nas calças bem passadas e a afunilar nos sapatos.

Terço estendido na cómoda, imagem de Cristo de pele clara, vidraças que tremem com trovões, flores presas na jarra, a bênção do Sr. Prior na missa das onze e o beicinho dele espetado quando te olha.
... Acho que por castigo, um destes dias cai-lhe o crucifixo aos pés.

Pombos mudam de beiral e vão arrulhar para norte.
O vento fustiga os plátanos e tu... a leres-me nas entrelinhas, num sorriso lento.

Gatas em redor das plantas num miar estridente, loucas pelo persa.
Lágrimas por chorar, um trompetista na rua com dotes de comerciante.

Os teus dedos nos meus, toques como só tu.
Lábios ancorados, mordeduras no lóbulo esquerdo, mão que se esgueira caprichosa num sentido.

O meu olhar turvo, coração em batimentos celestiais; eu como nas nuvens, o teu atrevimento que me encanta.

E tu... a leres-me nas entrelinhas.

14 março, 2012

A vida num ápice




Por vezes estou demasiado cheio de palavras e não consigo falar.

A vida coloca-nos em equações matemáticas e faz-nos questionar razões, convicções, prioridades, como alma em buscas incessantes e o corpo em ecos de desejo.

Velhos sem remissão, pecados da vida ancorados, felicidades fundeadas e eles acoplados a doenças várias.
Dobrados na horrível solidão dos seus olhos. Alguns caídos em casa, faz tempo.

O embaraço da distância, a cor que não habita, as silabas que não ocupam.

Árvores frondosas, prédios altos, avenidas largas, desnudadas cicatrizes.

Portas encerradas. Vidraças que não se abrem.

Cabelos mais brancos ainda. Bolhinhas no canto da boca. Expressão congelada, ausência de voz, ausência de lua nesta noite. Ausência de tudo.

Gente com pouca gente. Vozes que não falam. Tensões labirínticas em corpos caídos, arrastados.

Velhotes por aqui e por ali. Bancos de jardim corridos.

- Já não faço cá nada…

E a chuva na vidraça. Travões de carro acelerado. O elétrico sem servofreio, um galope.

- As doenças que não me largam…

Varizes, ossos, os olhos e o coração, cólicas e desconforto.

E nisto, uma velha gaiteira, lenço escarlate, saia rodada, cabelo arranjado e sapato tigreza de tacão fino que lhe troca o andar.

- Já nem isto me anima…

E eis o caminho de desânimo, medo e inquietude.

O vento no castanheiro que me assombra, suspiros desalentados, risadas infernais. Sim, infernais.

No dia em que já não seja eu, e ela quiser entrar, alcoviteira, resmungona, no seu negro esvoaçante, abram-lhe as portas e deixem-na levar-me calmo e concluído.

Vou de viagem, partirei. Vou ali e volto já.

O Sol cirandará as nuvens desse dia e uma brisa saída das árvores acena na despedida.

E eu a ser levado. Os meus olhos a gritarem aflitos o que ninguém ouve, e no entanto, tudo serenidade.

E esta galdéria de negro que me arrasta de mão dada e aos poucos a decifrar-me a vida.

Lustres a piscar, pobres de mão gasta de tanto pedir, a linha última do comboio.

E eu, cabeça na Lua a escarnecer do puxão.

As cores são mais cinza, os sons abafados, a espingarda de lata que dispara pauzinhos de algodão da Feira de Sta Clara.
Caixas de fósforos como baliza, botões como jogadores, papel colorido nas caricas. O luzidio do meu quarto, a claraboia que geme com os trovões.

Olhos ocos num pedido de socorro. Óculos com aros remendados a proteger dioptrias.
Ponteiros de relógio ao inverso, sem marcar o tempo.

Cheira um bocadinho a Sol e a flores… e a minha vida toda num ápice.