14 março, 2012

A vida num ápice




Por vezes estou demasiado cheio de palavras e não consigo falar.

A vida coloca-nos em equações matemáticas e faz-nos questionar razões, convicções, prioridades, como alma em buscas incessantes e o corpo em ecos de desejo.

Velhos sem remissão, pecados da vida ancorados, felicidades fundeadas e eles acoplados a doenças várias.
Dobrados na horrível solidão dos seus olhos. Alguns caídos em casa, faz tempo.

O embaraço da distância, a cor que não habita, as silabas que não ocupam.

Árvores frondosas, prédios altos, avenidas largas, desnudadas cicatrizes.

Portas encerradas. Vidraças que não se abrem.

Cabelos mais brancos ainda. Bolhinhas no canto da boca. Expressão congelada, ausência de voz, ausência de lua nesta noite. Ausência de tudo.

Gente com pouca gente. Vozes que não falam. Tensões labirínticas em corpos caídos, arrastados.

Velhotes por aqui e por ali. Bancos de jardim corridos.

- Já não faço cá nada…

E a chuva na vidraça. Travões de carro acelerado. O elétrico sem servofreio, um galope.

- As doenças que não me largam…

Varizes, ossos, os olhos e o coração, cólicas e desconforto.

E nisto, uma velha gaiteira, lenço escarlate, saia rodada, cabelo arranjado e sapato tigreza de tacão fino que lhe troca o andar.

- Já nem isto me anima…

E eis o caminho de desânimo, medo e inquietude.

O vento no castanheiro que me assombra, suspiros desalentados, risadas infernais. Sim, infernais.

No dia em que já não seja eu, e ela quiser entrar, alcoviteira, resmungona, no seu negro esvoaçante, abram-lhe as portas e deixem-na levar-me calmo e concluído.

Vou de viagem, partirei. Vou ali e volto já.

O Sol cirandará as nuvens desse dia e uma brisa saída das árvores acena na despedida.

E eu a ser levado. Os meus olhos a gritarem aflitos o que ninguém ouve, e no entanto, tudo serenidade.

E esta galdéria de negro que me arrasta de mão dada e aos poucos a decifrar-me a vida.

Lustres a piscar, pobres de mão gasta de tanto pedir, a linha última do comboio.

E eu, cabeça na Lua a escarnecer do puxão.

As cores são mais cinza, os sons abafados, a espingarda de lata que dispara pauzinhos de algodão da Feira de Sta Clara.
Caixas de fósforos como baliza, botões como jogadores, papel colorido nas caricas. O luzidio do meu quarto, a claraboia que geme com os trovões.

Olhos ocos num pedido de socorro. Óculos com aros remendados a proteger dioptrias.
Ponteiros de relógio ao inverso, sem marcar o tempo.

Cheira um bocadinho a Sol e a flores… e a minha vida toda num ápice.

5 comentários:

Lídia Borges disse...

"Cheira um bocadinho a Sol e a flores… e a minha vida toda num ápice"

Fiquemo-nos no "Cheira um bocadinho a Sol e a flores". Há nisto ainda um novo respirar à espera de se cumprir.

Bem-vindo!

Beijo meu

Anónimo disse...

Por vezes, e em qualquer idade, sentimo-nos assim:
"Cheira um bocadinho a Sol e a flores… e a minha vida toda num ápice".
Mas logo a seguir, vem uma brisa que nos renova e começamos a sentir um intenso cheiro a flores!

Mais um texto fabuloso,com a sua marca, aquela especial, à qual já nos habituou, com a sua escrita. Parabéns...

Anónimo disse...

Caro J P Viegas,

O seu registo é soberbamente soculento mas de extrato um tanto previsivel ao primeiro escrito.
Gosto.., embora aguarde que a inspiração lhe traga uma aragem, e nela esvoacem dentes de leão, e sim, que cheire a flores... e a maça.

Um Abraço

Maria Etelvina Alves

Anónimo disse...

Caro J P Viegas,

O seu registo é soberbamente soculento mas de extrato um tanto previsivel ao primeiro escrito.
Gosto.., embora aguarde que a inspiração lhe traga uma aragem, e nela esvoacem dentes de leão, e sim, que cheire a flores... e a maça.

Um Abraço

Maria Etelvina Alves

Anónimo disse...

"A vida coloca-nos em equações matemáticas e faz-nos questionar razões ..." também eu me sinto assim muitas vezes, Gostei muito sr.poeta.