18 julho, 2012

MEUS FANTASMAS DANÇARINOS



Na cidade, os edifícios encavalitam-se como amantes aprumados enquanto as ondas mergulham no mar da foz e recuam como obediente criatura.

Tudo isto numa claridade coada com o verde dos plátanos agitados e vozes de pássaro no deserto do céu.

Vejo esta cidade do cimo da serra, onde as pontes quase afunilam de perversas e os faróis dos carros produzem danças de sinais indecifráveis.

Cirandam sombras de sonâmbulos. Fantasmas adormecidos, no nosso interior dançarino.
Fantasmas que surgem de supetão lançando risos estridentes no cimo das campas que habitam.

Pupilas que jorram pânico, enquanto dos braços se formam asas.
Fantasmas que apenas nos circundam, que nos amparam, que riem e choram connosco e nos acotovelam quando adormecemos na esquina dura da vida.

Trevas na paisagem.
As minhas memórias num suspiro. Decorar o teu corpo no meu, roupas ao abandono, poses anémicas a escorrerem como sombras na parede.

Gente que não dorme. Gente habitada por outras gentes.

Embaciado de nevoeiro, rio largo, pessoas com pele de maçã e vincos nos sorrisos que enfeitam feições.

Gaivotas enamoradas no sono pachorrento do rio.
A luz que se afasta, deixando em suspenso sombras em ângulos difusos, nas ruas, nas casas, nas nossas vidas, nos lençóis frios de cetim que nos cobrem, no latir do cão doente, neste espaço moribundo.

E é na cidade pela noite que habitam dorsos luminosos, ondulações de ventres semeados a pânico e morcegos patéticos, petrificados em gestos automáticos atirados contra os postes.
Moram por aí, piedades raivosas, horrores descarnados, vibrações latentes em lençóis forrados de feições desabitadas.

Corpos nus desabrigados e embalsamados em mentes de nádegas decompostas.
Doses de colagénio no teu corpo como desenhos em que me recolho.

Nuvens como bochechas desenhadas no céu, bonacheironas, lacrimejantes, afastando-me de pensamentos vagos.

Onde habitamos... o tempo não tem tempo.
Nem aurora nem crepúsculo. Apenas ramos de árvores frondosas num sítio elástico e elegante.

Da cidade chega o cheiro doce de morango, a alfazema de roupas brancas a secar, olhares de órbitas vidradas e teimosas, luzes cintilantes e brumas flutuantes de onde surgem estes fantasmas dançarinos.

São amigos, amantes, sócios, distantes, donzelas em ginete, atiradores furtivos, sombras ou nebuloso, sol ou paixão.

São Fantasmas que nos habitam meninges e percorrem vaporosos fluidos corporais, ou engenhosos habitantes das nossas cavidades, entre taquicardias ou refluxos palpitantes.

Se quisermos, vamos encontrá-los nos sonhos ou acordados, alojados na veia cava superior.

São os nossos fantasmas dançarinos.

04 julho, 2012

Um fraquinho por ti...

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Tenho um fraquinho por ti.
Sempre tive um fraquinho por ti.

Agora que modifiquei a minha estrutura mental, que deixei de pensar em ti, convidas-me para um café.

Pedes-me um conselho… -“ que tal este vestido?...” , - … “ e os novos wonderbra?...”- “que chatice o selo do carro”, - “péssimo este tempo, não?” – “E os teus pais como vão?”…

...e eu… um fraquinho por ti.

Telefonas-me porque não dormes, angustiada, nervosa, corpo amolgado, ... -“que porcaria de dia, o IRS, a multa, a minha Mãe coitada…, o formulário. Filas enormes na CGD, e tu sem tempo”...

Gostas da bica bem cheia em chávena a escaldar, o bife mal-passado e ignoras displicente a sobremesa adocicada, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhado, atento, vidrado.

Falas-me da família, do escritório em que exerces, do teu Pai que te controla e não te dá descanso, o chato, o empedernido namorado que manténs porque te dá jeito, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, bem redonda do tamanho dos seus cem quilos.

Coitada de ti que te apareceu uma alergia e um antigo colega de faculdade que não te larga, mais os pneus carecas e a revisão atrasada, … -“conheces alguma oficina?”...

... E eu que sim… que até moro defronte de uma boa e barata, como boa e barata é esta refeição que aproveitas para pagar sem factura não-vá-o-diabo-tecê-las e o "mastronço" lá de casa pode saber…

... e um fraquinho, um fraquinho por ti.
Enormes as tuas banalidades, imponentes as tuas frivolidades.
Uma nuvem que te envolve como uma mortalha inspirada.

Queres parecer dramática e engraçada, … “- tens carradas de razão, dizes…”
Os teus olhos que já foram meus, o brilho que já foi teu, e a madeixa desarrumada.

Um lanche… quem sabe possamos falar de novo… e eu… um fraquinho por ti… sem saber porquê nem em quê.

Vais a Toronto em serviço, e eu…à beira de te levar a sério… e sai uma mentira pegada, um tiro no porta-aviões, os cinco do euro-milhões, a minha vida aos trambolhões.

Largas frases de livros que não lês, promessas feitas e rarefeitas que sopras na minha boca, como se me excitasses…

… e eu corado até às bochechas, num riso quase fugaz pois já nem calor me faz.

...E eu… um fraquinho por ti?

Ainda me habitam duendes que desarrumam o cérebro, como se fugisse de mim…quando quero mesmo fugir de ti.

Verdade. Já tive um fraquinho por ti.

Agora, sobrevivi.