04 julho, 2012

Um fraquinho por ti...

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Tenho um fraquinho por ti.
Sempre tive um fraquinho por ti.

Agora que modifiquei a minha estrutura mental, que deixei de pensar em ti, convidas-me para um café.

Pedes-me um conselho… -“ que tal este vestido?...” , - … “ e os novos wonderbra?...”- “que chatice o selo do carro”, - “péssimo este tempo, não?” – “E os teus pais como vão?”…

...e eu… um fraquinho por ti.

Telefonas-me porque não dormes, angustiada, nervosa, corpo amolgado, ... -“que porcaria de dia, o IRS, a multa, a minha Mãe coitada…, o formulário. Filas enormes na CGD, e tu sem tempo”...

Gostas da bica bem cheia em chávena a escaldar, o bife mal-passado e ignoras displicente a sobremesa adocicada, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhado, atento, vidrado.

Falas-me da família, do escritório em que exerces, do teu Pai que te controla e não te dá descanso, o chato, o empedernido namorado que manténs porque te dá jeito, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, bem redonda do tamanho dos seus cem quilos.

Coitada de ti que te apareceu uma alergia e um antigo colega de faculdade que não te larga, mais os pneus carecas e a revisão atrasada, … -“conheces alguma oficina?”...

... E eu que sim… que até moro defronte de uma boa e barata, como boa e barata é esta refeição que aproveitas para pagar sem factura não-vá-o-diabo-tecê-las e o "mastronço" lá de casa pode saber…

... e um fraquinho, um fraquinho por ti.
Enormes as tuas banalidades, imponentes as tuas frivolidades.
Uma nuvem que te envolve como uma mortalha inspirada.

Queres parecer dramática e engraçada, … “- tens carradas de razão, dizes…”
Os teus olhos que já foram meus, o brilho que já foi teu, e a madeixa desarrumada.

Um lanche… quem sabe possamos falar de novo… e eu… um fraquinho por ti… sem saber porquê nem em quê.

Vais a Toronto em serviço, e eu…à beira de te levar a sério… e sai uma mentira pegada, um tiro no porta-aviões, os cinco do euro-milhões, a minha vida aos trambolhões.

Largas frases de livros que não lês, promessas feitas e rarefeitas que sopras na minha boca, como se me excitasses…

… e eu corado até às bochechas, num riso quase fugaz pois já nem calor me faz.

...E eu… um fraquinho por ti?

Ainda me habitam duendes que desarrumam o cérebro, como se fugisse de mim…quando quero mesmo fugir de ti.

Verdade. Já tive um fraquinho por ti.

Agora, sobrevivi.

5 comentários:

Lídia Borges disse...

Tão real que chega a doer!...

Os "fraquinhos" vão enfraquecendo imersos nas rotinas devastadoras do quotidiano.

"Depois sobrevivi" - O verbo escolhido a trazer à superfície a incompletude que, afinal, é o que resta, o que basta...

Gosto de ler, aqui!

Beijo

Anónimo disse...

Meu Deus que "desarrumação"!
"Um fraquinho por ti" é uma narrativa engraçada... não tão "amorosoa" como aquelas que tem escrito, mas se calahr mais real, face à vida presente.
Parabéns.

paula pimentel disse...

Por vezes é difícil sobreviver a uma paixão a um grande amor. Sentimo-nos destruidos, como se o mundo acabasse, como tudo à nossa volta desabasse. É engraçado como aquela expressão "O tempo cura tudo", aplica-se na perfeição. A dor, o vazio desaparecem e dá lugar a saborosas recordações.

paula pimentel disse...

Adorei.Toca num assunto que todos de uma forma ou de outra, vive ou viveu.A paixão tal como descreve é uma mistura de sentimentos que nos deixa incapazes de raciocinar direito. Quando passa (por vezes com muita dificuldade), deixa em nós agradaveis recordações.

Lace-it-Girl disse...

Gosto!!! ;)