04 outubro, 2012

UNS DIAS APÓS OS OUTROS


Os dias morrem em fila, ordenados. Um após o outro... após os outros.
Alguns na memória, ossos esculpidos na carne, frases metafóricas. 
Gente como árvores. Insignificantes e patéticas. 

Cemitérios com labirintos de cruzes, velas em compaixão, cinzas espalhadas como poeira, rezas ancestrais em mulheres de negro. 

Eucaliptos enormes no Alentejo. Um Sol esperto e ácido na pele. 
Um louva-a-Deus, preguiçoso, acocorado. Alguns homens acocorados também. 

Mulheres desnudas em camas frias de hotéis, bajuladas por “monta-cargas” de gravata a meio corpo. 
Faz um calor de ananases... diz-se por lá.

Viemos de mãos dadas como sobreviventes de guerra, inteiros por fora, repletos de feridas por dentro. Cosemos asas nas mãos e com elas voamos. E voando, não perdemos a esperança deixada por nós, quantas vezes ao acaso.

 Assalta-me um cheiro a açúcar queimado, um odor quente. O negro do céu de fogos por extinguir.
 Fotos de infância que me rodeiam, revistas de artistas por abrir sorrateiramente encravadas no pé do sofá. 

A renda de bilros da minha avó e a fumaça no cachimbo a sair da foto mais antiga da casa. 
Discussões politicas acaloradas como o infinito do céu. 
Gente com opiáceos de sabedoria inútil. Esferas atiradas para espaços recônditos.

. …”rua de St António ao rato”- baralha a voz da menina do radio-táxi. Fios de ouro, alfinetes, anéis dispersos pelos dedos como se a soma de todos fosse um.

Pausas com tempo dentro. Num eterno e ritmado tempo.
Um após o outro, como dias ordenados, sem sabermos o caminho. Timbres e notas e o teu corpo num toque final. 
Um ritmo de cópula onde os teus olhos se enchem e esvaziam brilhantes. 

Cafés bebidos beira-rio e beijos que não foram dados.
A tua viagem de regresso. Um rosnar furibundo em latidos de insónia.

A forma como me tocas a meio do sono, a elegância do toque.

Tenho a alma coberta de vincos de gente boa. Umas entre nós, outras que partiram
. …assim, vou tendo menos por onde chorar. 

 Os dias mantêm-se vazios, cadenciados a um ritmo de medo, e vou-me abandonando a pouco e pouco.

Vão morrendo em fila, ordenados. Uns após os outros... os dias.