UNS DIAS APÓS OS OUTROS


Os dias morrem em fila, ordenados. Um após o outro... após os outros.
Alguns na memória, ossos esculpidos na carne, frases metafóricas. 
Gente como árvores. Insignificantes e patéticas. 

Cemitérios com labirintos de cruzes, velas em compaixão, cinzas espalhadas como poeira, rezas ancestrais em mulheres de negro. 

Eucaliptos enormes no Alentejo. Um Sol esperto e ácido na pele. 
Um louva-a-Deus, preguiçoso, acocorado. Alguns homens acocorados também. 

Mulheres desnudas em camas frias de hotéis, bajuladas por “monta-cargas” de gravata a meio corpo. 
Faz um calor de ananases... diz-se por lá.

Viemos de mãos dadas como sobreviventes de guerra, inteiros por fora, repletos de feridas por dentro. Cosemos asas nas mãos e com elas voamos. E voando, não perdemos a esperança deixada por nós, quantas vezes ao acaso.

 Assalta-me um cheiro a açúcar queimado, um odor quente. O negro do céu de fogos por extinguir.
 Fotos de infância que me rodeiam, revistas de artistas por abrir sorrateiramente encravadas no pé do sofá. 

A renda de bilros da minha avó e a fumaça no cachimbo a sair da foto mais antiga da casa. 
Discussões politicas acaloradas como o infinito do céu. 
Gente com opiáceos de sabedoria inútil. Esferas atiradas para espaços recônditos.

. …”rua de St António ao rato”- baralha a voz da menina do radio-táxi. Fios de ouro, alfinetes, anéis dispersos pelos dedos como se a soma de todos fosse um.

Pausas com tempo dentro. Num eterno e ritmado tempo.
Um após o outro, como dias ordenados, sem sabermos o caminho. Timbres e notas e o teu corpo num toque final. 
Um ritmo de cópula onde os teus olhos se enchem e esvaziam brilhantes. 

Cafés bebidos beira-rio e beijos que não foram dados.
A tua viagem de regresso. Um rosnar furibundo em latidos de insónia.

A forma como me tocas a meio do sono, a elegância do toque.

Tenho a alma coberta de vincos de gente boa. Umas entre nós, outras que partiram
. …assim, vou tendo menos por onde chorar. 

 Os dias mantêm-se vazios, cadenciados a um ritmo de medo, e vou-me abandonando a pouco e pouco.

Vão morrendo em fila, ordenados. Uns após os outros... os dias.

Comentários

Lídia Borges disse…

E assim perdemos o direito ao desânimo.

"Tenho a alma coberta de vincos de gente boa. Umas entre nós, outras que partiram
. …assim, vou tendo menos por onde chorar.

Um texto onde se pode morar...

Beijo
não podemos deixar morrer os dias em fila ordenados.

temos de os saber viver nem que seja preciso re-inventar algo.

um texto belíssimo embora cm muita nostalgia.

obrigada!
Maria disse…
Excelente!

Um beijo e um sorriso.

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