22 novembro, 2012

OS DIAS BONS NÃO ACONTECEM...!




Aqui, neste domingo, atiram-se pedaços de vinho ao ar na esperança de aclarar os deuses.
Mal sabem as pessoas que os deuses estão mortos e que o vinho vai sujar as tapeçarias de casa.

Gente com nariz de cartão, pose anedótica, reagentes em vez de cérebro, azoto na transpiração, resplandecendo édipos nas fronhas grossas. Falsidades de pacotilha, esventrados pelas costas.

Pensamentos corrosivos, silêncios gelados.
O centro do grito numa alma enrolada e imperfeita. O nosso formato de língua que são duas.

Ruas carregadas de bronquite neste Outono Primaveril e tu como Ninfa galgando algas silenciosas, sem frases adjacentes e moribundas.
Caixas de cartão, os teus brinquedos preferidos, carros e legos, cromos e bolas de trapos.
Uma luz de prematuro outono. Os teus pés, filhos de passos desnecessários.

O meu silêncio revestido de ansiedade, gestos calmos e oportunos, enquanto o cinza do céu deslaça temporal e sombras oportunas.

Junto à estante, fotos de um homem gordo e bigode. Chapéu na cabeça com classe, uma mulher de ar distante, coquete. Medalhas e quadrinhos, condecorações e livros.
Xicaras antigas pousam no naperon de argolas. Uma jarra de cristal. As pessoas na moldura, o meu tio, com ar de vulcão. Móveis e retratos sem vida.
Retratos, quadros, figurinhas sempre presentes, que não nos ligam nenhuma.

As tuas bochechas rosadas, lábios carnudos como peixe fora de água.
Pupilas dilatadas como bolas de Berlim.

O céu, esse, mantinha-se sem azul. Quase granítico, cor que traz tempestade.

Plátanos e acácias ajeitam-se no jardim fronteiriço como namorados em toques subtis.
Na rua, carros topo de gama, camionetas bolorentas, descascadas, oxidadas.

Daqui a nada é noite, véspera da manhã. O tal bom dia que não acontece.

Um idoso apoplexo acende um cigarro por detrás do candeeiro.
Sombras nos rebordos de ti, laços por desatar. Um silêncio perfeito mas inquietante.
Os teus passos ordenados.

Não importa as horas, agora. São uma e quinze desta madrugada e a chuva cai em bátegas furiosas, como se zangadas.

O teu sorriso a cada pedaço meu, o meu olhar que te inquieta e faz corar.
A criança que outrora habitara em ti, os pássaros que se acotovelam no teu redor, os cães que se aninham aos teus pés.

Por vezes julgo que não existo.
Mantenho-me distante e observador, uma constante sensação de perda, como um gume espetado no peito, uma lança na carótida.

Olho o céu pela claraboia semiaberta, nuvens como mulheres balofas, cheiinhas, convexas
As vezes rodopiam em valsa.

A claridade de agosto resvala no outono do teu interior, sombreando os tons, já de si difusos entre nós. Vivemos aqui como na antecâmara de qualquer coisa fúnebre. Um purgatório de vivos.

Dedos grossos , sorrisos de platina, boca com contornos de saliva, cabelo desgrenhado, a loucura que se apoderou rápida.
 E é assim deste modo frio e cansado que através de ti liberto os fantasmas que me habitam.

Enquanto isto, debicas insistente rezas a anjos, deuses e querubins, senhores do alto e outros afins, apregoando sofrimentos gemidos em sobressalto.

O meu avô num retrato, a minha tia e a família toda no móvel da sala, circunspectos.
A minha Tia já com papada, olhos fundos e negros. O meu primo de laçarote e camisa branca.

Uma fotografia numa moldura vive no interior de si mesmo.
E dias bons dificilmente acontecem.

21 novembro, 2012

Hospital de Anjos...!





Consta-se que existe um mundo de anjos na camada dois níveis abaixo da nossa.
Coberta de fuligem, pedaços de choupo, algum cimento, pouco, e água que escorre pelas paredes.

Aí dormitam e vagueiam em vigília constante numa luta desigual contra demónios adocicados, venenos vários e rezas ancestrais benzidas em pura água, que fará despertar os sentidos dos mais incautos.

Um velho com tosse de máquina a vapor atrelado a um estado comatoso, arrasta-se e espreita por entre frinchas. Abre e fecha portas.
…é o mais antigo, dizem.

Cheira a dejeto de cão e permanece em rezas tão inquietas como inaudíveis.

Apela à presença do professor, do padre e regedor, do bombeiro e da enfermeira .
Prazeres era o nome do meio desta ultima que lhe arredondava para oito o número de comprimidos goela abaixo na vã esperança de o fazer entendível.

Os anjos e arcanjos espreitam esbaforidos com tal alarme.
É chamado o doutor, e ele... arrota estupor.

Vai de charrua anexa, injeção espetada no músculo, fios e atilhos pelo corpo.
Ri alto e esbraceja ainda.

A cor do quarto desaparece, uivos de dor como se esventrado e amachucado no interior.

As veias latejam, olhos como marfim.
Ramos nascem no espaço entre os braços, pombos arrulham nos ombros, túnicas deambulam nos corredores e um musgo celestial escorre pelas paredes como alcatifa de encosto.

Anjos chefes, voam na direção dos livros bíblicos, ansiando acalmia, enquanto imagens se projetam umas contra as outras num festim de cor e som.
Reza o padre e o incauto professor, lança a musica o regedor mais o bombeiro enquanto o alcoviteiro abana a maca e chama o doutor.

Vem aí mais um Anjo no ar, enquanto o diabo no restolho espreita, com cheiro a esbaforido cigarro.

Homens com veste fina, aparelho ao pescoço e óculo de longo alcance para estrelas siderais, rabiscam receitas coloridas enquanto borbulham zumbidos moribundos que estalam como pedaços de céu.

Anjos amarelecidos vão saindo das caves dormitório e percorrem embalados, o corredor de sombras, truncadas de gente anónima.
 Afunila-se o futuro na parede em frente.

Do enfermeiro novo e imberbe lágrimas fechadas, roendo e torcendo o lábio inferior.
Na sala conjunta, desenhos nas margens do papel, olhares moribundos na vastidão da cidade, uma janela com grades, quatro a cinco pedaços de nada.

Cavalgam dias entre muros, falam com objetos, têm visões turvas e decalcadas, gritam golo porta fora, rapam beatas nos cinzeiros.

Batas brancas cirandam por entre gabinetes como linguagem de arcanjos,

Sente-se o gotejar junto ao candeeiro, três cadeiras ao lado, enquanto o sol espreita preguiçoso na janela poente e eles tentam beijá-lo na boca.

Consta-se que nesta camada, os sorrisos são mais que muitos, as festas redobraram, a alma cobre serenidade própria e especial.
Um mundo de psicóticos com gente dentro.

Doentes varridos do hospital como soldados caídos nas trincheiras.
Sonos com medo junto, numa promessa de inferno, neste edifício bolorento e decrépito.

Anjos e arcanjos, uns aprendizes outros engalanados chefes, sabem que o quadro não cabe na moldura da camada superior, habitada por esquizofrénicos economistas, oficiais de tempestades politicas e gente que vagueia por entre escombros plantados por governantes desossados.