Hospital de Anjos...!





Consta-se que existe um mundo de anjos na camada dois níveis abaixo da nossa.
Coberta de fuligem, pedaços de choupo, algum cimento, pouco, e água que escorre pelas paredes.

Aí dormitam e vagueiam em vigília constante numa luta desigual contra demónios adocicados, venenos vários e rezas ancestrais benzidas em pura água, que fará despertar os sentidos dos mais incautos.

Um velho com tosse de máquina a vapor atrelado a um estado comatoso, arrasta-se e espreita por entre frinchas. Abre e fecha portas.
…é o mais antigo, dizem.

Cheira a dejeto de cão e permanece em rezas tão inquietas como inaudíveis.

Apela à presença do professor, do padre e regedor, do bombeiro e da enfermeira .
Prazeres era o nome do meio desta ultima que lhe arredondava para oito o número de comprimidos goela abaixo na vã esperança de o fazer entendível.

Os anjos e arcanjos espreitam esbaforidos com tal alarme.
É chamado o doutor, e ele... arrota estupor.

Vai de charrua anexa, injeção espetada no músculo, fios e atilhos pelo corpo.
Ri alto e esbraceja ainda.

A cor do quarto desaparece, uivos de dor como se esventrado e amachucado no interior.

As veias latejam, olhos como marfim.
Ramos nascem no espaço entre os braços, pombos arrulham nos ombros, túnicas deambulam nos corredores e um musgo celestial escorre pelas paredes como alcatifa de encosto.

Anjos chefes, voam na direção dos livros bíblicos, ansiando acalmia, enquanto imagens se projetam umas contra as outras num festim de cor e som.
Reza o padre e o incauto professor, lança a musica o regedor mais o bombeiro enquanto o alcoviteiro abana a maca e chama o doutor.

Vem aí mais um Anjo no ar, enquanto o diabo no restolho espreita, com cheiro a esbaforido cigarro.

Homens com veste fina, aparelho ao pescoço e óculo de longo alcance para estrelas siderais, rabiscam receitas coloridas enquanto borbulham zumbidos moribundos que estalam como pedaços de céu.

Anjos amarelecidos vão saindo das caves dormitório e percorrem embalados, o corredor de sombras, truncadas de gente anónima.
 Afunila-se o futuro na parede em frente.

Do enfermeiro novo e imberbe lágrimas fechadas, roendo e torcendo o lábio inferior.
Na sala conjunta, desenhos nas margens do papel, olhares moribundos na vastidão da cidade, uma janela com grades, quatro a cinco pedaços de nada.

Cavalgam dias entre muros, falam com objetos, têm visões turvas e decalcadas, gritam golo porta fora, rapam beatas nos cinzeiros.

Batas brancas cirandam por entre gabinetes como linguagem de arcanjos,

Sente-se o gotejar junto ao candeeiro, três cadeiras ao lado, enquanto o sol espreita preguiçoso na janela poente e eles tentam beijá-lo na boca.

Consta-se que nesta camada, os sorrisos são mais que muitos, as festas redobraram, a alma cobre serenidade própria e especial.
Um mundo de psicóticos com gente dentro.

Doentes varridos do hospital como soldados caídos nas trincheiras.
Sonos com medo junto, numa promessa de inferno, neste edifício bolorento e decrépito.

Anjos e arcanjos, uns aprendizes outros engalanados chefes, sabem que o quadro não cabe na moldura da camada superior, habitada por esquizofrénicos economistas, oficiais de tempestades politicas e gente que vagueia por entre escombros plantados por governantes desossados.

Comentários

Lídia Borges disse…
Tocante!...

De um doloroso navegar pelas águas do rio Aqueronte, aqui, a caminho das trevas.

Que todos os Anjos nos valham.

Um beijo
Anónimo disse…
Este texto, faz-me lembrar a vida presente...

Que alguém nos conduza, paea não chegarmos a este desgoverno.

Beijo meu...

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