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A mostrar mensagens de 2013

OS ANJOS NÃO TÊM COSTAS...!

Apetece-me de novo a timidez do meu espaço, a minha quietude, o silêncio.
Passos só os meus. Dos teus, saberás tu.

Silencio que escorre nas paredes e inunda gavetas como danças suaves e mornas de saudade, enquanto o tempo vagueia preguiçoso através das vidraças que me encobrem corpo nu.

É nesse instante que te olho e esculpo com mestria o teu corpo no pensamento. Momento único em que a vida acontece em mim.

Hoje, por tudo e por nada, revejo fotos antigas, capas duras de álbuns, rostos que me olham. Uns que alcanço, outros nem por isso.
Sorrisos desfeitos, emoções nas pálpebras, transviadas por rugas inculcadas, no meu sinal fidedigno e nas comissuras dos lábios.

Corpos sugados pela garganta ferrugenta, decrepitude melancólica, olhos como vitrais solitários.
Estou hoje, como ontem, quebrado, a  recusar o dia, quando réstias de sol apontam às frechas de portas e janelas, como anjo luminoso repartido por cruzadas, no tempo sem tempo em que me encontro.

Eu não sou daqui.
Nem deste tempo,…

MOMENTUM

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Aproxima-se pela noite. Anjo luminoso como pedaço de pele, recostado, sombrio, sublime e confidente.
Gravata encurtada de arrepio, camisa de marca redonda, sapatos bicudos de polimento, corpo de pulmões sustidos e coração em ritmo brando.   Enfado de tiques repetitivos, alvéolos sem cor, vida em coma pastoso
Cara magra lavrada de ossos numa dança de metamorfose, casulos de sonetos enchem a alma romanceada,
Os dias foram corridos a pó e erva seca. Agora, a neve sonolenta, entra na vidraça aberta, e como pétalas vai aterrando no teu corpo e no cabelo revolto, empalidecendo a anemia.  Multiplicidade de rostos entre sombras e imperfeições. Pupilas afagadas como lâmpadas fundidas. Constelação de sonhos, mensagens escritas no céu, desgovernadas, sem amparo.
 Leio frases completas nas circunferências da tua boca e baloiço na corda do sorriso que me empalha rosto e colagénio que te habita corpo.
É domingo de missa. Apelos do sino inquieto da aldeia, mantos de pratos numa culinária afrodisí…

MOMENTO

Abres o corpo em pétalas de lágrimas, cor de bronze e cheiro doce de memórias invisíveis e palavras por dizer.
Derramas suspiros pelo peito em alvoradas firmes de existência.

Abro janelas, recorto portas e vidraças e rasgo-me no arame farpado do meu interior.
Dilato-me enquanto te escrevo postal de arco-íris perfeito, com pó das amêndoas e figos por descascar.
Figuras esquálidas como fantasmas que nos habitam num  sorriso dente-sim,  dente-não. São assomos de coragem, flor de anseio vertical num poema que demora.
Suspendo o tempo, esvazio as palavras e adorno a língua que se abre ao sol, e espremo a prece na paz dos teus braços e no aconchego dos teus olhos.
Palavras que envelhecem comigo como a tua luz e o meu Anjo que a guia.
Não há pontes nem atalhos, linhas rectas ou circulares na dádiva das tuas mãos, nem passos nos teus dedos que me cruzam caminhos, em frases e frases dilacerantes, enquanto me reduzo ao silêncio de um hálito quente.
Holograma colorido, riso fácil, dedos empertigados e fi…

Sem Coordenadas

Ruelas estreitas que afunilam noutras ruelas. Algeroz solto das fachadas. Nevoeiro sobre a ponte que abraça as margens.

Acordeão de cegos desbravando a noite por entre prédios murmurantes e sujos. Igrejas barrocas com santos incrustados enquanto se escutam rezas em oratórios, padres com barba de oráculo, pedidos de intervenção divina e incenso de adoração.
No canto da sala junto ao móvel deixado pela minha tia-madrinha uma ampulheta com areia, enquanto ao lado molduras viradas umas para as outras em diálogos permanentes.
Estamos num domingo lunar. Tempo de ousadia, coração em coma induzido. Fome em pão duro, a tua cumplicidade no meu caminho.
Pulseiras de baquelite, anéis caprichosos, argolinhas de metal como brincos. Diamante minúsculo pregado ao nariz, falanges abundantes de anéis, cabelo com duas  camadas em jeito de espiral. Crucifixo ao pescoço, baloiçando entre as gordas mamas como relógios século XVII
As mãos no rebordo da vida. Uma cruz cravada nas costas, suplícios e que…
AINDA HOJE

Ainda hoje meu amor, carcomido pelo tempo, garganta empalhada de cigarros mal fumados, com o odor dos castanheiros em pano de fundo, afugento as lágrimas.
Ainda hoje meu amor, deslizo pelo branco dos jazigos, ciprestes galgando ao vento, sinos pachorrentos da capela, cristos quebrados na cruz que me espia vagaroso.
Ainda hoje, percorro o mesmo espaço entre lápides e folhas secas, torneiras jorrando água límpida e rosas do teu jardim de inverno, aquele em que habitas entre bênçãos de santos e danças de fantasmas querubins.
Ainda hoje, décadas e décadas volvidas, entre o miúdo borbulhoso e o idoso calvo com placa, grilhetas presas da doença, na cadência do peito inflamado e das hesitações do coração, vou respirando o teu ar, refugiando-me na nuvem da saudade.
Hoje, os eucaliptos choram lágrimas de desgosto, enquanto luzes se prolongam pelo Tejo, pagelas de santinhas, um arrebique de talha, frases da bíblia em citações, vasos de magnólias, suspiros desajeitados em arrufos de…

PEÇAS DESARTICULADAS

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Eras feita de peças que desarticuladas se encaixavam umas nas outras.
Como um puzzle de milhares de peças pequenas.

As marcas dos teus dedos ainda cirandam na minha pele, os teus desenhos em caixas que guardei como se ontem. Cerejas pintadas num estendal de frutos, árvores com lápis de cor, caixas de cartão.

Fotografias na cómoda, um quadro com uma senhora muito altiva a olhar não sei para onde, absorta, sorridente.
E assim o tempo todo, anos e anos, o quadro sempre no mesmo sítio, o mesmo sorriso e o ar altaneiro.

Um mar de azul liquido, mármores escurecidos em catedrais romanescas, um leve ressolhar de folhas que o vento traz, devassados por uma luz que nos silencia.

O nariz franzido, os dentes alinhados, uma pele de cetim, e de repente, quase tudo parece perfeito. A doce ternura do teu sorriso. Um emaranhado de línguas, o relógio que empurra minutos, a tua alma fechada.

Riscos castanhos nas sobrancelhas da tua mãe, rugas repuxadas para trás da orelha, sorriso branco imaculado.O cheiro da …

ALENTEJO

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O Alentejo neste dia tem cor diferente do silêncio, sombras trémulas de folhas.

Lua crescente, libertina, quarto-minguante esclarecedor, unhas envernizadas a espreitar em frinchas dengosas de portadas firmes.

Aqui e ali pelo vidro baço da vida, tempo de acne, zona rubra que sobe à tona dos risos que invadimos com cremes, brindamos ao mundo, vida com sabor a sal e corpos unidos numa só gota.

Língua e lábios e aromas do teu corpo. Os cinco sentidos inebriados. Odes de ternura num olhar, socalcos de céu aberto em mim. Lençóis marcados no teu enrolar, a direção vaga do infinito em que me mexo.

Um Alentejo de luz obliqua, um feixe quente, vidas sonâmbulas, tronco rijo da aspereza da terra, andar lento de lagarto.

O reboco imperfeito na cara da minha tia, desbotada. Pregas gastas da pele. Trabalho de restauro incompleto. Rezas ao cristo de coração de fora. Talvez o redentor. Fios com bolinhas, novenas rezadas, benzeduras ao espirito santo.

Um sol que se enrola e amortece vontades, o no…

1000 Conversas

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Casas caiadas, o cheiro da terra, o pão acabado no forno, o queijo que se encosta no vinho, velhos carcomidos apoiados em bengala grossa como cajado. O sol outonal.

Mulheres com unhas pintadas de escuro. (detesto unhas escuras). Céu em paletes de cor.

Está aí o Inverno, nota-se no azedume crescente nas pessoas.

Noite longa, fria e epidémica. Passos apressados. Dores na garganta como um nó que estreita. Quase gelo de pé para pé, saltinhos pequeninos, mãos no esfreganço uma na outra.

Eu, quase fantasma encostado à umbreira da porta numero três, prédio de esquina à direita, como dizias.

Da casa em frente, gritos, discussão colérica entre interjeições violentas, pratinhos chineses pendurados com fiozinhos de arame, algumas porcelanas e um barco de pesca.
Latinhas coloridas na cozinha, bordados nos almofadões da sala.

Por vezes as molduras parecem mexer, como se desentorpecessem de anos a fio no mesmo lugar.

Corridas rápidas na rua, ambulâncias aos gritos, a minha paciência alfinetada.
U…