09 janeiro, 2013

1000 Conversas




Casas caiadas, o cheiro da terra, o pão acabado no forno, o queijo que se encosta no vinho, velhos carcomidos apoiados em bengala grossa como cajado. O sol outonal.

Mulheres com unhas pintadas de escuro. (detesto unhas escuras). Céu em paletes de cor.

Está aí o Inverno, nota-se no azedume crescente nas pessoas.

Noite longa, fria e epidémica. Passos apressados. Dores na garganta como um nó que estreita. Quase gelo de pé para pé, saltinhos pequeninos, mãos no esfreganço uma na outra.

Eu, quase fantasma encostado à umbreira da porta numero três, prédio de esquina à direita, como dizias.

Da casa em frente, gritos, discussão colérica entre interjeições violentas, pratinhos chineses pendurados com fiozinhos de arame, algumas porcelanas e um barco de pesca.
Latinhas coloridas na cozinha, bordados nos almofadões da sala.

Por vezes as molduras parecem mexer, como se desentorpecessem de anos a fio no mesmo lugar.

Corridas rápidas na rua, ambulâncias aos gritos, a minha paciência alfinetada.
Um vento frio na cidade escura, galhos agitados aflitos.

Uma cauda de perfume atrás, rugas no lugar das covinhas das bochechas.
A minha mão na tua perna em concha, ou em buzio para te perscrutar.

Revejo os sinais que te cobrem o corpo na esperança vã de um caminho, e sei de cor cada centímetro da tua pele.

Um turbilhão de gente a passar, aos poucos engolidos pela cidade.
Janelas recheadas de luz, figurinhas de presépio lá dentro.
Pessoas que cirandam de olhos vazios. Nem medo, nem paixão, nem esperança, nem sofrimento. Vazios mesmo.

Postais ilustrados, esconderijos de alma, o ar lacrimejante das nuvens.

E tento somar madrugadas sem subtrair os dias, as pratas que te colocava entre as folhas dos livros e as pétalas das flores lançadas num céu pintado a fresco e mar.

Tento não fazer excessos adverbiais e corro e percorro com jeito e trejeito esse espaço por entre violinos e lábios mordidos ao acaso.

E... pediste búzios penetrados nas tuas pernas e eu languidamente, balancei sorrisos por aí.

Acerto os ponteiros contigo e dou-te corda para que balances e faças as nossas horas coincidirem ritmicamente com os minutos

Saberemos estar em perpendicular dissolvendo pele com língua e que me acabes como o rebentar das ondas neste mar em que navegamos.

Somas e subtrações, uma cidade gélida, fantasmas transeuntes, reencontros entre mil conversas.

Por vezes as molduras parecem mexer enquanto acerto os ponteiros contigo.