05 abril, 2013

PEÇAS DESARTICULADAS


  

Eras feita de peças que desarticuladas se encaixavam umas nas outras.
Como um puzzle de milhares de peças pequenas.

As marcas dos teus dedos ainda cirandam na minha pele, os teus desenhos em caixas que guardei como se ontem. Cerejas pintadas num estendal de frutos, árvores com lápis de cor, caixas de cartão.

Fotografias na cómoda, um quadro com uma senhora muito altiva a olhar não sei para onde, absorta, sorridente.
E assim o tempo todo, anos e anos, o quadro sempre no mesmo sítio, o mesmo sorriso e o ar altaneiro.

Um mar de azul liquido, mármores escurecidos em catedrais romanescas, um leve ressolhar de folhas que o vento traz, devassados por uma luz que nos silencia.

O nariz franzido, os dentes alinhados, uma pele de cetim, e de repente, quase tudo parece perfeito. A doce ternura do teu sorriso. Um emaranhado de línguas, o relógio que empurra minutos, a tua alma fechada.

 Riscos castanhos nas sobrancelhas da tua mãe, rugas repuxadas para trás da orelha, sorriso branco imaculado.O cheiro da roupa, o cabelo todo volume de laca.

O sol a baloiçar por entre ramos de árvores, perdido entre folhas. Ela imóvel qual peça de estilo, cheia de portas interiores, cada qual com uma fechadura diferente.

 O teu bisavô, sargento maior, retrato ao lado de uma jarrinha com flores, naperons e medalhinhas a nossa senhora, que o fazem inchar na moldura.

A tua pele branca, o teu rosto todo em azul que brota dos olhos de mar. A dor e a distância.
Uma indiferença esvaída, ainda os teus dedos cirandavam por aqui e me desenhavas contornos na pele, procurando o norte no sul, aos solavancos.

A vizinha da frente, redonda, tamanho dantesco, como o porão de um navio de carga.Sobrava braço junto aos bordados e gemia de dores nos joanetes saídos.

Namoriscava um galã, seco de ossos e mirrado nas pernas, com um balão de soro agarrado á veia.
Gosta de lilás, toda ela é um sorriso garboso, olhos circulantes e boca pastosa de miolos de pão, expelindo pó-de-arroz às toneladas e perfume excessivo das mulheres velhas como cacos velhos.

E tu, peças desarticuladas, encaixando a ritmo lento, como uma dança de Gardel, envolvente e voluptuosa.Toda corpos que se desarticulam para se reporem novamente.

A tua vida toda num caderno pautado.
A alma pendurada num caderno sem  divisórias nem rebordos, a pingar desacertos de luas cheias com quartos minguantes, a tua relação com Deus e com os Homens, a castidade do teu irmão – valha-me Deus – e as ladainhas com velas acesas e rezas com terços enrolados nas mãos papudas. 

O relógio cambaleia sem tempo forçando minutos vagarosos.

Redemoinhos de folhas giram destemidas, até repousarem como múmias acocoradas entre degraus. Zumbido monótono de conversas nos beirais povoados por pássaros mil-cores, enquanto o sol rasga a penumbra e penetra languidamente por ti, dando-te um tom suave amarelado.

O lodo do rio não espera, limos enrolam-se nas margens escorregadias. 
A cidade toda num sorriso e o teu corpo de mulher semi-nua em lençóis de silêncio, num misterioso furor.

Mantenho ainda assim o silêncio das pupilas apagadas, de vagarosos gestos, do céu-da-boca colado, em diálogos sem principio nem fim.

 Ainda tenho as marcas dos teus dedos, os teus desenhos, as tuas peças, uma a uma desarticuladas, e  enquanto o relógio empurra minutos na direcção das horas vou reconstruíndo este puzzle que me fascina.  

2 comentários:

Princesa do Mar disse...

Um texto, mas bem articulado :-)

Beijinho do meu mar

Lídia Borges disse...


Não se sabe que caminhos tomam as memória para se associarem deste modo regular e lógico até à tela original, limpa de marcas nos lugares de junção das partes.

Bem-vindo!

Um beijo