14 agosto, 2013

Sem Coordenadas




Ruelas estreitas que afunilam noutras ruelas. Algeroz solto das fachadas.
Nevoeiro sobre a ponte que abraça as margens.

Acordeão de cegos desbravando a noite por entre prédios murmurantes e sujos.
Igrejas barrocas com santos incrustados enquanto se escutam rezas em oratórios, padres com barba de oráculo, pedidos de intervenção divina e incenso de adoração.

No canto da sala junto ao móvel deixado pela minha tia-madrinha uma ampulheta com areia, enquanto ao lado molduras viradas umas para as outras em diálogos permanentes.

Estamos num domingo lunar. Tempo de ousadia, coração em coma induzido.
Fome em pão duro, a tua cumplicidade no meu caminho.

Pulseiras de baquelite, anéis caprichosos, argolinhas de metal como brincos.
Diamante minúsculo pregado ao nariz, falanges abundantes de anéis, cabelo com duas  camadas em jeito de espiral.
Crucifixo ao pescoço, baloiçando entre as gordas mamas como relógios século XVII

As mãos no rebordo da vida. Uma cruz cravada nas costas, suplícios e queixumes. 
A vida inteira no segundo que antecede a morte . O suspiro na partida.

A minha alienação nos teus olhos. Pupilas submissas na direção do céu.
O teu avô estrábico, gotas nas cataratas. Folhas que se mexem dançando nos ramos das árvores, zumbido monótono de conversas nos beirais, enquanto o sol rasga a penumbra e penetra languidamente por ti dando-te um tom suave amarelado.

            Falta-me a vizinha alcoviteira, o sal a mais e uma colheita alentejana.

Sinto a pele em chagas de incisões infelizes, o fígado que me entontece.
Aspirinas e paracetamol, termómetro sem mercúrio, medições permanentes, gotículas de chuva no braço direito, semáforo verde incandescente, juras de pontualidade em juras de paixão e sonhos.

Redemoinhos nos nós dos dedos, dias com menos dias,  o espaço na tua ausência.
Contorno-te zangas com beijos amendoados, perífrases e  silabas tónicas, garrotes na contracurva do nosso olhar em misturas subversivas.

Pressinto a hora do naufrágio de barcos sem rota e os meus lábios sedentos na mudez deste verão sem coordenadas.








02 agosto, 2013




AINDA HOJE


Ainda hoje meu amor, carcomido pelo tempo, garganta empalhada de cigarros mal fumados, com o odor dos castanheiros em pano de fundo, afugento as lágrimas.

Ainda hoje meu amor, deslizo pelo branco dos jazigos, ciprestes galgando ao vento, sinos pachorrentos da capela, cristos quebrados na cruz que me espia vagaroso.

Ainda hoje, percorro o mesmo espaço entre lápides e folhas secas, torneiras jorrando água límpida e rosas do teu jardim de inverno, aquele em que habitas entre bênçãos de santos e danças de fantasmas querubins.

Ainda hoje, décadas e décadas volvidas, entre o miúdo borbulhoso e o idoso calvo com placa, grilhetas presas da doença, na cadência do peito inflamado e das hesitações do coração, vou respirando o teu ar, refugiando-me na nuvem da saudade.

Hoje, os eucaliptos choram lágrimas de desgosto, enquanto luzes se prolongam pelo Tejo, pagelas de santinhas, um arrebique de talha, frases da bíblia em citações, vasos de magnólias, suspiros desajeitados em arrufos de cama.

Ainda hoje sentados no limbo das coisas raras, entre uma margem e outra nesta Lisboa brejeira, prolongo a minha vida em ti.

São momentos tão nossos que a alvura e a sombra se entretêm a olhar-nos,  as árvores se despenteiam das folhas, enquanto a  língua do rio espalha barcos por entre os ancoradouros e amantes sorriem no cais, permanecendo ali enquanto o universo se recompõe à nossa volta.