02 agosto, 2013




AINDA HOJE


Ainda hoje meu amor, carcomido pelo tempo, garganta empalhada de cigarros mal fumados, com o odor dos castanheiros em pano de fundo, afugento as lágrimas.

Ainda hoje meu amor, deslizo pelo branco dos jazigos, ciprestes galgando ao vento, sinos pachorrentos da capela, cristos quebrados na cruz que me espia vagaroso.

Ainda hoje, percorro o mesmo espaço entre lápides e folhas secas, torneiras jorrando água límpida e rosas do teu jardim de inverno, aquele em que habitas entre bênçãos de santos e danças de fantasmas querubins.

Ainda hoje, décadas e décadas volvidas, entre o miúdo borbulhoso e o idoso calvo com placa, grilhetas presas da doença, na cadência do peito inflamado e das hesitações do coração, vou respirando o teu ar, refugiando-me na nuvem da saudade.

Hoje, os eucaliptos choram lágrimas de desgosto, enquanto luzes se prolongam pelo Tejo, pagelas de santinhas, um arrebique de talha, frases da bíblia em citações, vasos de magnólias, suspiros desajeitados em arrufos de cama.

Ainda hoje sentados no limbo das coisas raras, entre uma margem e outra nesta Lisboa brejeira, prolongo a minha vida em ti.

São momentos tão nossos que a alvura e a sombra se entretêm a olhar-nos,  as árvores se despenteiam das folhas, enquanto a  língua do rio espalha barcos por entre os ancoradouros e amantes sorriem no cais, permanecendo ali enquanto o universo se recompõe à nossa volta.


1 comentário:

Lídia Borges disse...

"Ainda hoje sentados no limbo das coisas raras, entre uma margem e outra nesta Lisboa brejeira, prolongo a minha vida em ti."

A expressão do tanto, [quase] inarrável.

Um beijo