17 novembro, 2013

MOMENTUM




Aproxima-se pela noite.
Anjo luminoso como pedaço de pele, recostado, sombrio, sublime e confidente.

Gravata encurtada de arrepio, camisa de marca redonda, sapatos bicudos de polimento, corpo de pulmões sustidos e coração em ritmo brando.  
Enfado de tiques repetitivos, alvéolos sem cor, vida em coma pastoso

Cara magra lavrada de ossos numa dança de metamorfose, casulos de sonetos enchem a alma romanceada,

Os dias foram corridos a pó e erva seca.
Agora, a neve sonolenta, entra na vidraça aberta, e como pétalas vai aterrando no teu corpo e no cabelo revolto, empalidecendo a anemia.
 Multiplicidade de rostos entre sombras e imperfeições. Pupilas afagadas como lâmpadas fundidas.
Constelação de sonhos, mensagens escritas no céu, desgovernadas, sem amparo.

 Leio frases completas nas circunferências da tua boca e baloiço na corda do sorriso que me empalha rosto e colagénio que te habita corpo.

É domingo de missa.
Apelos do sino inquieto da aldeia, mantos de pratos numa culinária afrodisíaca para regalo fradesco.  Bizarrias da tia agarrada às condecorações do seu pai general, enquanto a roupa estendida de varanda a varanda faz mímicas.

E eis que o corpo do senhor é absorvido por olhos fechados e língua espraiada como camaleões prontos a devorar gulosamente hóstias de sacristia com rezas a santo expedito.
Sacrossanto ou não, a verdade é que o meu tio velho, muito velho, como se tivesse nascido no principio do mundo, com movimentos pastosos e engordurados remexia no relógio como pêndulo agónico.

Trinca espinhas de artefacto, com vida cheia de minutos elásticos e horas a perder de vista. Ele que sempre fora endinheirado mas duplamente órfão tinha um coração com sobressaltos de rã.

Mirava e remirava damas de cinquenta geometricamente ordenadas, recheadas de projectos, relações emancipadas e iconoclastas.
Arrancavam busto de corpetes afivelados enquanto abocanhavam cigarros acoplados e boquilhas.

O olho tenebroso do tio velho, muito velho, pulava delinquente, e a dentadura mordia internamente tomando hábitos estranhos, ele que toda a vida esteve atado a cadeados de desgosto, mantinha uma respiração a três-quartos asfixiante.  

Os dias continuam corridos a pó e erva seca. Está frio.

O Anjo luminoso reparte-se por várias cruzadas, o velho tio cristaliza  o medo e a timidez e as damas de busto acentuado, corpos frenéticos inflamados de fogo, benzem-se na paz do senhor.

Porque hoje é domingo de missa.