29 dezembro, 2013

OS ANJOS NÃO TÊM COSTAS...!




Apetece-me de novo a timidez do meu espaço, a minha quietude, o silêncio.
Passos só os meus. Dos teus, saberás tu.

Silencio que escorre nas paredes e inunda gavetas como danças suaves e mornas de saudade, enquanto o tempo vagueia preguiçoso através das vidraças que me encobrem corpo nu.

É nesse instante que te olho e esculpo com mestria o teu corpo no pensamento. Momento único em que a vida acontece em mim.

Hoje, por tudo e por nada, revejo fotos antigas, capas duras de álbuns, rostos que me olham. Uns que alcanço, outros nem por isso.
Sorrisos desfeitos, emoções nas pálpebras, transviadas por rugas inculcadas, no meu sinal fidedigno e nas comissuras dos lábios.

Corpos sugados pela garganta ferrugenta, decrepitude melancólica, olhos como vitrais solitários.
Estou hoje, como ontem, quebrado, a  recusar o dia, quando réstias de sol apontam às frechas de portas e janelas, como anjo luminoso repartido por cruzadas, no tempo sem tempo em que me encontro.

Eu não sou daqui.
Nem deste tempo, deste espaço ou desta luz repartida por mil pedaços.

Vivemos sempre tão cheios de tudo e tão repletos de nada, em bolhas de segurança, casulo perfeito, enfeitando o azul do dia e o negro da noite, replicando inseguranças interiores esvaziadas numa ampulheta de areia suave.

Gosto desta intimidade só minha de deixar o mundo todo à porta de casa.
 Refrão de fadista, palavras numa melopeia estranha, saltos de rã, voz de cigarra em ritmo lento.
Xailes vistosos de varina, fadistas embrulhados no negro, sorrisos desbotados e anjos  sem asas.
Nem palavras escritas no céu, nem doces feitos à mão nem morangos como sobremesa.

Apetece-me apenas a timidez do meu espaço, o meu canto adormecido, o tempo que corre na mansarda, o gato que me espreita sorridente, a tua passada larga, um café contigo e porque não ?

Enquanto Anjos entorpecidos descansam sobre retalhos da vida e eu retardo os passos para não os acordar.