24 janeiro, 2014

FICO FELIZ NO TEU SORRISO






Fico feliz no teu sorriso
Nunca sei se te volto a ver, e sofro.
Palavras, silêncios, um sabor amargo e a noite a entrar livre pelas janelas. A mansarda onde encolho pranto. 

E nunca sei se é tarde, muito ou pouco, nefasto e inquieto, cheio ou vazio, mas sei que perdeste o momento, o instante em que nos abrimos, em que nos fechamos. Actores de nós, mímico sem palco.

Uns dois a três passos, um volteio. Passos de bailarina em contraponto de ti.
O céu, tão sombra e luz, e nós.

Sinto o embaraço da palavra, ruas de sentido único, a inexatidão do momento, o candeeiro que se apaga na passagem, como um cumprimento.
Sete partidas, sete colinas de luz, margens do rio, palavras e gestos flutuantes, e não sei se te volto a ver.

Os meus rebordos labirínticos em ti e o mar na imensidão da alma. O teu rosto de boneca imperfeita, sorriso (mesmo que no silêncio) contagioso.

Fico feliz no teu sorriso.

Trazes a angústia e o peso do corpo que não dorme. Mantenho-me suspenso e reaprendo a viver por dentro da alma.
Nem amoras nos silvados, nem romãs da tua quinta algarvia, nem uvas pisadas nem cesto de vime.

Um tempo labiríntico este. E aí, sou eu o teu cansaço, a tua incerteza a tua conta, a tua chama interior, a tua inquietação.

Está sol como no fim de semana de Paris, entre a camisa de linho e a minha t shirt branca, onde escorregas as mãos e as poisas no meu peito.

Por vezes acredito que o silêncio me deixa invisível. 
E é nessas alturas que o meu corpo se dobra em quatro e me abandona, a minha força liquidifica, a minha alma desvanece, o meu sangue gota a gota se despede, num até já. 

Gosto das surpresas dos dias, dos instantes que aconteceram sem pensar acontecer.
Podia até pensar em desistir, mas quero ainda trazer-te o sol e a lua, sentá-los no alpendre entre nós, e com tão pouco dar-te o mundo. 

Nesse caminho de muito poucos onde nos encontramos. 
 O caminho do olhar limpo, do respeito claro,  onde fico feliz no teu sorriso



2 comentários:

Lídia Borges disse...


Poesia e tudo quanto de belo nela pode caber.

Um beijo

Becasfields disse...


Um acaso me trouxe ...
Um sorriso feliz hoje achei mesmo que num tempo sem tempo.
O amargo do sabor nem sempre permanece intacto. No caminho surge o doce. Será esse "amargo doce" o mote para que o momento dado como perdido seja só a ilusão desse instante.