20 março, 2014

OS FILHOS


















OS FILHOS

Lembro ainda hoje, como ontem, como se o sol batesse na cara e se espalhasse pelo corpo
aqueles pezinhos pequeninos saltitando pelo chão, atirando-se para o meio do aconchego,
entre pai e mãe, entre o amor divino e eterno, na proteção do tempo e do espaço.

Nos dias de cansaço invernoso onde as maçãs não são mais maçãs
e onde o vento me corta em dois e a chuva canta desprovida de sentimentos,
como o coaxar das rãs – porque sim.

Sei das vossas mãos pequeninas que me tentam alcançar como se a um porto ancorassem,
do meu sono desperto, entre um livro e o vosso respirar, entre as febres que vos afligem, os dentes a romper, e os meus braços num amparo, o aconchego doce da mãe, a vossa estrela cintilante.

Eram vossas as madrugadas televisivas, no despertar do “Dumbo” e outros que o tempo me fez esquecer, e juro-vos que aquele é que era o Mundo, o Mundo onde o tempo para, e descobrimos que de repente é o Sol que vem para nos abrigar.

E vamos aqui e ali juntando letrinhas para fazer um novelo de palavras, nas vossas silabas que me encantam, como se uma oração a um Deus protector, perguntas repetitivas numa qualquer viagem, com as asas da mãe galinha num recosto subtil e duradoiro

Onde um fio de luz rasga a memória no corredor de espelhos do tempo,
os vossos rostos e este enorme amor que vos guardamos.

E o tempo passa e adoça a boca e vocês crescem e ficam homens lindos
e soltam-se num voo rasante e elegante, com as respostas todas numa história de afectos.

Algas invadem as praias, palmeiras espreguiçam ramos na direcção do Norte,
o vosso mundo é diferente, fazem conquistas na vida e o amanhã é vosso.

E juntos temos o nosso lugar.
O lugar onde barcos navegam ondas, onde as mãos se tocam,
onde o pai e a mãe vos abraçam pela eternidade e os olhos procuram ate encontrar…os filhos.


1 comentário:

Lídia Borges disse...


Os filhos justificam os sentimentos, as emoções, em plenitude, mas quem o saberia assim tocáveis sem a literatura, sem a poesia?
Belo!

Um beijo