20 abril, 2014

NOTAS DE UMA NOTA SÓ


Tenho notas de uma nota só.
Anjos que se erguem do sonho, outros de asas erguidas na direcção do céu.

Mascaras adormecidas nas nossas vidas. Flores no parapeito de dias claros de sol, prédios cortados a meio com jardins dentro.

Acabou o inverno como tantos outros, primaveras umas atrás das outras. Dias redondos em horas suaves. Lua em quarto crescente, peixinho de aquário, boca aberta na busca do ar que nos escapa.

Asas de anjo em manto branco. Um todo sem partes e uma metade sem a outra metade de mim.

O sonho que mantenho. A tua chegada na minha partida, cabelo de ouro, olhos de amêndoa doce, o prazer no silêncio. O instante.

Momentos em que te contorno lábios, nariz, o lóbulo da tua orelha geometricamente trabalhada.
Olhos não. Não quero que me vejas nesta pele rasgada de aguarelas.

A tua distância afectiva, abraços, poucos, alguns risos, a tua ausência que me escorrega pelos braços, pingando suave.

Candeeiros em ritmos burlescos, luz que atropela viajantes, sombras que fogem das sombras em notas de uma nota só.

Trocas a tua com a minha mão, coração colado, pulmões unidos num único respirar. De repente um vazio. A tua mão que não acompanho, o dedo que me escapa, tu longe, muito longe e eu longe de ti.

Sardinheiras coloridas nas floreiras, uma corda de roupa já enxuta, blusas de caxemira e meias por remendar.

Adoro o teu cheiro o doce sabor dos teus pedaços, os teus dentes que me inebriam quando me mordiscas, a tua boca suave, intensa, como um cheiro fresco na tua pele de limão.

E vivo a tua ausência rente às rosas silvestres, aos alecrins e aos amores-perfeitos.

O anjo que me desperta. As tuas mãos. Sonhos em catadupa, o equinócio de Março.

Ruas vazias. Desertos de vida, gente com gente dentro e notas de uma nota só.