17 setembro, 2014

Através de uma lâmpada...



Eu não te disse que era hoje, ontem ou amanhã...
nem que o tempo da colheita terminou ou que a chuva parava de me arreliar.

Nunca pensei atrasar o tempo nem parar o coração para não disparar ou escapulir tenebroso.
Jamais te abriria a alma como ventre nem semeava o terreno fértil da tua memória.

No entanto o rio corre entre as árvores, giestas estendem-se a céu aberto cobrindo a mancha urbana da cidade.
Temos jardins de buxos, magnólias cor-de-rosa vento gelado e chuva pelo empedrado granítico.
O Porto como só o Porto.

O mundo dormia, ou parte dele, e eu estava no silêncio da cidade rouca de cansaço, gente na ribeira acocorada entre vielas, os guindais em sobressalto, tascas com gente dentro. Nunca totalmente adormecida. 

Aos poucos, alguns transeuntes deambulam saindo dos fundos das ruas convergindo em várias direcções. Uns nos transportes, outros no granítico da baixa, outros ainda no “cimbalino” para começarem o dia.

 Bátegas de chuva na vidraça como se chorasse. Edifícios desbotados, um automóvel com aviso de multa no pára-brisas.

E tu inquieta, transbordando de beleza mas sem chão, sem nexo, sem futuro, sem alma e sem vida.
Seguraste o mundo dos outros enquanto o teu caía… disseste.
Farta de dar sem receber, de segurar para não deixar cair, de tocar sem ter, de aguentar sem poder, de medir palavras e gestos para não magoar, e ser magoada, no entanto.
Farta de tomar conta de tudo sem ninguém te querer.
Passos decididos, olhar acutilante, gestos ternos e inebriantes, braços como armas

A vizinha do lado com os pés em água tépida, seios enregelados como pele de galinha, o sabonete lavanda, gemidos trinados entre paredes finas.
Um corpo pintado à mão, toalha bordada entre as pernas enquanto a recolhe cama fria e o pranto descai tingida de mágoa, sorrisos afastados nos lençóis de flanela riscada.

Quadros pendurados, sem alma, nem calor de cores, nem palavras tímidas. Retratos sobre naperons, xícaras e bules antigos pegados como amantes.

Fico deste lado do rio, com vista para lá da ponte, para lá das pontes, através da luz fraca de uma lâmpada sem candeeiro.  
Bateira sem peixe, homens tisnados na venda da lota, vento ciclónico em rua deserta, peças de xadrez que se movem sozinhas.

Cidade que respira inquieta, remendos de bocados teus.
Eu não te disse que era hoje ontem ou amanhã, nem que atrasava o tempo ou que secava lágrimas em lençóis de cetim, nem que o tempo da colheita terminou ou que a chuva parava de me arreliar.

No entanto é desta cidade mesclada de sentimentos que se trata,

Eu não te disse que era hoje, ontem ou amanhã.