02 outubro, 2014

A NOITE É INFINDÁVEL SE NÃO A DORMIMOS...



A noite é infindável se não a dormimos.

Horas num vazio de incerteza. Sombras de fantasmas que cirandam em roda de mim.
Era sempre assim que acontecia…

Passos lentos e ritmados. Alguns pesados e ocos.
Cruzamento de pernas, trocas de olhares, sobranceria intimidante.

Ele frio, eu encolhido em mim mesmo, este sonho que me arrefece e me faz capicua.

A noite é infindável se não a dormimos.
Os pés encolhem do frio, e nas pernas, cócegas agitadas nos músculos inquietos.

As cortinas vagueiam soltas pelo ar, a televisão debita resultados de vendas, ruídos que colocam os sentidos à deriva.
Perco-me nas palavras que leio, nas que adivinho obtusas, nas palavras cinzentas como chuva,  no empedrado granítico.

Eram setembros perfilados com sol e outonos que se adivinhavam pelo cheiro.

Encontrava-me nas tuas mudanças de humor, o calor do teu corpo que derrete alcatrão, as tuas torradas cortadas pelos cantos, a curva estreita dos teus ombros e o sorriso.
Sim, o sorriso.

O teu vestido curto travado, os brinquedos dos teus irmãos, pijama de flanela do teu pai e o caixilho com fotos de família da América na cómoda de entrada... (as coisas realmente mudam pouco).

Prefiro a duplicação dos afectos, afagos, pequenos átomos entre nós. 
Mãos dadas no beiral, roupa estendida na corda, árvores de frutos maduros, a tua avó Xica na minha nuca, quando combinávamos jogos de escondidas

 E era o nosso espaço, a época das gomas, do milímetro quadrado preenchido, e os segredos no canto esquerdo da tua boca.

 Vivo entre dois mundos. Uma geometria imperfeita, na confusão dos dias uteis.
Constelações estreladas dos que amo e partiram.

Na bem-aventurança da descodificação do tempo, da finitude, do lugar dos batimentos cardíacos recheados de alquimias, dos céus pesados e estrelados, das chuvas rítmicas do Oeste.

Relações dinâmicas, encontros e desencontros, consonâncias e dissonâncias, onde entre quedas e saltos e choques na parede térmica se constrói a vida

 A noite é infindável se não a dormimos…


                   




1 comentário:

Lídia Borges disse...


Gosto do tom das letras, do som...

Bj.