29 dezembro, 2014

EXISTISTE ANTES DE EXISTIR



Exististe antes de existir, e vives fragmentada entre imagens, estilhaços de armas sem sentido, colorações de vidas passadas, espelhos oblíquos, noites sem dormir, na penumbra do sono.

Palavras, ruídos, rostos indecifráveis. Fantasmas que te habitam permanentemente, as águas do tejo sem barcaças, espelho de água por entre pontes.

Loucura que enche a escuridão de súbitos alertas e densas preocupações.

Segues a luz do farol, nos barcos e nas amarras do Tejo, num horizonte de brisa ondulante, o fio do horizonte que teimosamente fazes por observar.

Cor ígnea das paixões, soturnos lugares com sabor a sal. Aspereza nas palavras e nas mãos  que te conduzem .

Vais e voltas.

Procuras o calor das almas, dos espíritos que vagueiam, de laços que te apertam, que enrolam, que se enlaçam nos próprios nós , enquanto longos braços de penas esvoaçam, transportando-te por entre espaços desabitados, redobrando manto protector que te habita.

Verdades de actos concretos ou imaginados deste momento que pode não existir, registo de reminiscências translúcidas, paliativos induzidos em memórias de alguns.

Verdades que são tarefas de uma ou de muitas vidas.
Verdades em imagens pesarosas, filmes repassados, o inchaço nos olhos, a voraz idade que passa sem se ver, o que faz todo o sentido.

Exististe antes de existir
Na vertigem voraz da tua voz, no canto secreto sem acordes, nas notas dedilhadas do Mestre.

Na aragem repelente do nevoeiro na noite, uma língua de frio agreste. Uma medida exacta de tempo. Aquele tempo.

E podia ser tudo.
Gritos de assombração, o espanto da tua consciência, o banho da vizinha do terceiro esquerdo, ou apenas reflexos.
O mundo dormia, tu fingias dormir, a cidade estava rouca de cansaço e tu batias a portas sem ferrolho.

Passa-te o mundo de viés, as histórias ao contrário, profecias ancestrais, a tua avó com o terço, ladainhas a Sta. Bárbara, o gato que se espreguiça ao fundo da cama, a casa a acordar devagar.


Vais e voltas pois existias antes de existir.

1 comentário:

Assinatura electromagnética disse...

Textos labirínticos sempre repletos de profundidade. Bem haja.