20 outubro, 2015

AS CORES DO TEMPO

O tempo tudo desvanece ou parte dele…

Hoje como ontem, o vermelho não é tão garrido o cinzento retrai e o amarelo tem menos luz. E, quando andamos sem luz, vivemos como se num purgatório.

A fruta também não é sempre saborosa e o clima tem alterações grotescas, portanto, a vida não é sempre justa nem sempre boa.

Um menino meu amigo, colega de escola, companheiro de recreio e jogos de bola tinha dores muito fortes num braço. Vieram a descobrir uma doença fatal e ele acabou por deixar este nosso espaço. Foi assim que me contaram, foi assim que o vivi.

Dizem os adultos que a vida tem destas partidas. Tem desamores, frustrações, guerras, zangas, cansaços, chatices e saudades. Acho que vou ficar com saudades do meu amigo.

Confesso que durante muito tempo, tinha um medo enorme preso na minha cabeça. Custava-me respirar e o coração batia acelerado.
Sentia-me como um recipiente de pensamentos e que não os escoava tão depressa, pelo que, ficavam presos por muito tempo.

Ontem, no fim das aulas, a escola inteira foi à Igreja.

Na entrada, cruzei-me com uma mulher de negro, velha, muito velha com centenas de rugas num rosto pequeno, num corpo pequeno também. Tinha uma composição na face que a fazia quase culpada de tudo e de todos.

Acho que ela levava a alma do meu amigo, embrulhado num xaile.

Falei nisto há minha avó que me sacudiu duas vezes, benzendo-se outras duas numa ladainha que não entendi.

Disse-me então,…que não. E que se estivesse atento, muito atento, veria a alma do meu amigo evaporar-se subindo ao céu, levado pela mão de dois anjos.

Eu acho, que a minha avó sabia mais do que dizia…

Quando saí da igreja vinha vagaroso, preso em mim, sem chorar, mas esburacado de sofrimento.
E nisto, como se numa revelação, eu queria ser santo, ou estudar para isso.
Para ter poderes, para curar os corpos, benzer outros, ser melhor do que o senhor Padre e salvar almas, ter os anjos como amigos e não deixar que levassem mais meninos.

No meio de tudo isto, fui rezando e pedindo ao Cristo que tomasse conta do meu amigo e fechei-me sobre mim numa tristeza como se me fechasse à vida.

Quando a minha avó acendia o candeeiro, o soalho iluminava-se e os móveis cresciam como se me engolissem. Na clarabóia as estrelas saltitavam e eu pensava que numa delas habitava o meu amigo, pois os Anjos, amigos que são, deixá-lo-iam perto de mim.

A chuva e o frio inquietavam-me e as cores já quase não tinham cor. O vermelho desbotou,
o cinza aparecia rotineiro e do amarelo nem sombra.

E assim fui passando os dias espreitando por entre frinchas que vou abrindo na bolha em que me escondi, imaginando que o mar me nascia por entre os dedos, e o céu era um tecto de algodão doce.

Histórias de ontem, encontros de hoje, sabendo que não voltamos ao passado, mas também que nada sabemos do futuro.


O tempo, esse, tudo desvanece. Ou parte dele. 





14 maio, 2015

O DIA SEM ONTEM



















O dia sem ontem

Este foi um dia sem ontem. Um salto no calendário leproso, em farripastorcido e gasto.
Uma bruma escura que se confunde com o céu. Alma bebida pela subtileza do demónio na margem sombria da esperança.

Gente que filtra gente, amparos na turbulência do douro, a volatilidade em segundos,
calendário adulterado, gotículas de chuva, rascunhos de céu. 


Sente-se o cheiro a hortelã enquanto batem o trunfo de copas e na bagagem do velho alentejano, meio litro de abafadinho a tiracolo, como se fizesse parte dele, tamanha a cumplicidade.


O Porto é uma nudez sonâmbula, cortada por ambulâncias troteantes e bares acotovelados em ruas estreitas de bairros esventrados.

Ruas com amoreiras. Espinhos espetados nos dedos. 

Na rua dos poveiros, travestis com colares de missangas e bamboleio de ancas encostam-se às portas entreabertas, e damas de “écharpe” e casacos de pele, coquetes obtusasvagueiam trepidantes.

Passos Manuel junto ao Coliseu é já ali.

Funcionários varrem beatas do chão, estas, varrem alguns funcionários para camas de hospital.
Vendedores de xaropes para ténias infantis gritam desalmados que o “demo” chegou.

Este tempo sabe a limão e a azeitonas espanholas e, no entanto, porta contra porta, jogamos à casquinha de laranja, ou com bolas feitas de jornal e meias de vidro.

No dia sem ontem, engasgo de sílabas na ponte, frases aos solavancos, som metálico do comboio, os nossos olhares perdidos na luminosidade nocturna da ribeira.

Silêncio nas paredes, livros que sorriem com notas frescas de edições recentes, fotos escondidas em envelopes com os mesmos sorrisos de há 30 anos.

Alfazema da roupa a secar nos estendais de ruas afuniladas, pingando docemente na calçada, ritmo de tango argentino, passos cadenciados, dois volteios.

Trazes a vida a tiracolo, alparcatas suaves, um frio que te gela a espinha, dois supetões nas meninges, queixo torto como se resmungasses amiúde, espasmos na glote, olhos numa dança turva.

Este devia ser um dia sem ontem…



27 fevereiro, 2015

ANDAMOS TODOS POR AQUI, NÃO É?




O aroma das maçãs no quintal do meu tio.

Os vestidos da minha tia, folhos e mais folhos e rendas e punhos como numa vitrina recheada de bonecas de porcelana.

Gente como peças de dominó num tabuleiro imaginário.  

Percorre-se a via láctea de candeeiros do Martim Moniz, só parando ao som de passos na lassitude da noite. Casais acoplados como ventosas.

Ele com sapatos afunilados, calças `”boca de sino”, camisa de flanela. Ela com pupilas de goraz, pinta de puta atrevida, ar de icterícia, vetusta namorada de todos, alternadeira mascarada de boneca de trapos.

Abóboras cambaleantes deambulavam por festas e romarias e cochichavam desprezando os rapazolas do sítio.

Gaiatos, futebolistas no empedrado granítico, chutam nas sombras bolas de trapo, imaginando vitórias futuras.

A madrinha dos miúdos, viúva, costureira enroscada nos vestidos por arranjar, rodeada de lamparinas de azeite e fotos do falecido submergido numa bronquite asmática.

Andamos todos por aqui, não é?

A obsessão do silêncio. Um mágico lança pombas da mão fechada enquanto da boca disparam lenços numa parafernália de cores.

Uma luz parada no tempo. Um barco ancorado faz tempo e nós no espaço entre as mãos a os sentidos.

Apetece-me o tic-tac do relógio da sala, a quietude da casa e o aconchego do sofá.

O livro nos dedos de mansinho, como de mansinho as rugas no canto dos olhos.

Medalhões de esmalte sob o móvel e fotos tão antigas que nem os rostos se definem

E nesta mansidão dos dias por acabar, o rescaldo do teu cansaço no vidro da janela com feixes de luz. A pedrinha na vesicula, os nós dos dedos encavalitados uns nos outros.

As tuas equações matemáticas, num rasto afrodisíaco que me deleitava. Negociantes de jarrões, relojoeiros, vendedores de tabaco avulso, e o cauteleiro que arrastava bengala.

Andamos todos por aqui, não é?

 O resto, era aguardente destilada nos bares noturnos, velhas com cãezinhos jubilosos a ganirem lantejoulas e o repuxo no cabelo da dona do bar de alterne

E é este espaço que não cabe no tempo. E este frio que me lambe os pés e enregela os ossos. Que entra por mim em cotoveladas repetidas

Andamos todos por aqui, não é?

25 fevereiro, 2015

NO LUGAR DA MINHA INFÂNCIA



 
O LUGAR DA MINHA INFÂNCIA
O lugar da minha infância é tão perto de tudo e tão longe de nada… entre prédios, quintas e um hospital ao lado.
O lugar da minha infância tem campos a descoberto, terrenos esventrados, castanheiros e pinhais, paredes cobertas de musgo, silvas cobertas de amoras, bolas que saltam, jogos de peão sem cú com “faniqueiras” alongadas.
Picaretas desbravam uma avenida, paredes meias com gritos lancinantes de doentes e cantares de ciganos na esperança da salvação.
No lugar da minha infância, corremos e jogamos, sentamo-nos nas pedras, subimos árvores, pedalamos em bicicletas com quadros “à corredor” e saltamos riachos.
Escutamos pássaros que nos bombeiam as fisgas, partimos vidros e compramos gomas e fava-rica.
Manchas de sangue nos joelhos, calções rasgados, farripas de pele nos cotovelos, fiapos de sol no chão e gotículas no algeroz da esquina
Por vezes, toca o sino da Capela, fazem-se novenas e peditórios, contam-se as bolinhas do terço, enquanto se repara no vestido da miúda da frente e renovamos os votos até qualquer dia
Sapatilhas Sanjo duram pouco no empedrado granítico solto, um polícia de plantão faz rondas de minutos, Salazar estrebucha na televisão a preto e branco e o meu avô foi “convidado” a ir de barco a lisboa para votar no senhor presidente.
No lugar da minha infância tenho nos olhos a castanha assada em cesto de vime com duas asas e sarapilheira.
Pela calada, desgarradas noturnas, besouros contra candeeiros, “sameirinhas” em voltas a Portugal pintadas a giz branco no chão frio, a minha avó no café e um chocolatinho p´ro Zé Pedrinho.
Um velho vizinho deambulava por entre carros estacionados em segunda fila, laço aprumado em camisa de seda branca, casaco com botões doirados, e um chapéu que volta não volta tira para cumprimentar transeuntes.
Por vezes regresso a este lugar, inexplicavelmente como se tentasse pagar um pecado inexpiável.
Às tantas a figura do meu avô, mãos em concha no ouvido tentando escutar em vão as conversas das mulheres da família, piscando o olho às figurinhas dos retratos no móvel.
E são dias que já foram, tempos remotos urdidos na memória em catadupa.
O lugar da minha infância tinha tudo e não tem nada, está longe como antes, e tem medo que tudo desapareça, eu e a infância e a infância comigo.