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A mostrar mensagens de 2015

AS CORES DO TEMPO

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O tempo tudo desvanece ou parte dele…
Hoje como ontem, o vermelho não é tão garrido o cinzento retrai e o amarelo tem menos luz. E, quando andamos sem luz, vivemos como se num purgatório.
A fruta também não é sempre saborosa e o clima tem alterações grotescas, portanto, a vida não é sempre justa nem sempre boa.
Um menino meu amigo, colega de escola, companheiro de recreio e jogos de bola tinha dores muito fortes num braço. Vieram a descobrir uma doença fatal e ele acabou por deixar este nosso espaço. Foi assim que me contaram, foi assim que o vivi.
Dizem os adultos que a vida tem destas partidas. Tem desamores, frustrações, guerras, zangas, cansaços, chatices e saudades. Acho que vou ficar com saudades do meu amigo.
Confesso que durante muito tempo, tinha um medo enorme preso na minha cabeça. Custava-me respirar e o coração batia acelerado. Sentia-me como um recipiente de pensamentos e que não os escoava tão depressa, pelo que, ficavam presos por muito tempo.
Ontem, no fim das aul…

O DIA SEM ONTEM

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O dia sem ontem
Este foi um dia sem ontem. Um salto no calendário leproso, em farripas, torcido e gasto. Uma bruma escura que se confunde com o céu. Alma bebida pela subtileza do demónio na margem sombria da esperança.
Gente que filtra gente, amparos na turbulência do douro, a volatilidade em segundos, calendário adulterado, gotículas de chuva, rascunhos de céu. 


Sente-se o cheiro a hortelã enquanto batem o trunfo de copas e na bagagem do velho alentejano, meio litro de abafadinho a tiracolo, como se fizesse parte dele, tamanha a cumplicidade.


O Porto é uma nudez sonâmbula, cortada por ambulâncias troteantes e bares acotovelados em ruas estreitas de bairros esventrados.
Ruas com amoreiras. Espinhos espetados nos dedos. 
Na rua dos poveiros, travestis com colares de missangas e bamboleio de ancas encostam-se às portas entreabertas, e damas de “écharpe” e casacos de pele, coquetes obtusas, vagueiam trepidantes.
Passos Manuel junto ao Coliseu é já ali.
Funcionários varrem beatas do chão, estas, va…

ANDAMOS TODOS POR AQUI, NÃO É?

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O aroma das maçãs no quintal do meu tio.
Os vestidos da minha tia, folhos e mais folhos e rendas e punhos como numa vitrina recheada de bonecas de porcelana.
Gente como peças de dominó num tabuleiro imaginário. 
Percorre-se a via láctea de candeeiros do Martim Moniz, só parando ao som de passos na lassitude da noite. Casais acoplados como ventosas.
Ele com sapatos afunilados, calças `”boca de sino”, camisa de flanela. Ela com pupilas de goraz, pinta de puta atrevida, ar de icterícia, vetusta namorada de todos, alternadeira mascarada de boneca de trapos.
Abóboras cambaleantes deambulavam por festas e romarias e cochichavam desprezando os rapazolas do sítio.
Gaiatos, futebolistas no empedrado granítico, chutam nas sombras bolas de trapo, imaginando vitórias futuras.
A madrinha dos miúdos, viúva, costureira enroscada nos vestidos por arranjar, rodeada de lamparinas de azeite e fotos do falecido submergido numa bronquite asmática.
Andamos todos por aqui, não é?
A obsessão do silêncio. Um mági…

NO LUGAR DA MINHA INFÂNCIA

O LUGAR DA MINHA INFÂNCIA O lugar da minha infância é tão perto de tudo e tão longe de nada… entre prédios, quintas e um hospital ao lado. O lugar da minha infância tem campos a descoberto, terrenos esventrados, castanheiros e pinhais, paredes cobertas de musgo, silvas cobertas de amoras, bolas que saltam, jogos de peão sem cú com “faniqueiras” alongadas. Picaretas desbravam uma avenida, paredes meias com gritos lancinantes de doentes e cantares de ciganos na esperança da salvação. No lugar da minha infância, corremos e jogamos, sentamo-nos nas pedras, subimos árvores, pedalamos em bicicletas com quadros “à corredor” e saltamos riachos. Escutamos pássaros que nos bombeiam as fisgas, partimos vidros e compramos gomas e fava-rica. Manchas de sangue nos joelhos, calções rasgados, farripas de pele nos cotovelos, fiapos de sol no chão e gotículas no algeroz da esquina Por vezes, toca o sino da Capela, fazem-se novenas e peditórios, contam-se as bolinhas do terço, enquanto se repara no vestido da …