27 fevereiro, 2015

ANDAMOS TODOS POR AQUI, NÃO É?




O aroma das maçãs no quintal do meu tio.

Os vestidos da minha tia, folhos e mais folhos e rendas e punhos como numa vitrina recheada de bonecas de porcelana.

Gente como peças de dominó num tabuleiro imaginário.  

Percorre-se a via láctea de candeeiros do Martim Moniz, só parando ao som de passos na lassitude da noite. Casais acoplados como ventosas.

Ele com sapatos afunilados, calças `”boca de sino”, camisa de flanela. Ela com pupilas de goraz, pinta de puta atrevida, ar de icterícia, vetusta namorada de todos, alternadeira mascarada de boneca de trapos.

Abóboras cambaleantes deambulavam por festas e romarias e cochichavam desprezando os rapazolas do sítio.

Gaiatos, futebolistas no empedrado granítico, chutam nas sombras bolas de trapo, imaginando vitórias futuras.

A madrinha dos miúdos, viúva, costureira enroscada nos vestidos por arranjar, rodeada de lamparinas de azeite e fotos do falecido submergido numa bronquite asmática.

Andamos todos por aqui, não é?

A obsessão do silêncio. Um mágico lança pombas da mão fechada enquanto da boca disparam lenços numa parafernália de cores.

Uma luz parada no tempo. Um barco ancorado faz tempo e nós no espaço entre as mãos a os sentidos.

Apetece-me o tic-tac do relógio da sala, a quietude da casa e o aconchego do sofá.

O livro nos dedos de mansinho, como de mansinho as rugas no canto dos olhos.

Medalhões de esmalte sob o móvel e fotos tão antigas que nem os rostos se definem

E nesta mansidão dos dias por acabar, o rescaldo do teu cansaço no vidro da janela com feixes de luz. A pedrinha na vesicula, os nós dos dedos encavalitados uns nos outros.

As tuas equações matemáticas, num rasto afrodisíaco que me deleitava. Negociantes de jarrões, relojoeiros, vendedores de tabaco avulso, e o cauteleiro que arrastava bengala.

Andamos todos por aqui, não é?

 O resto, era aguardente destilada nos bares noturnos, velhas com cãezinhos jubilosos a ganirem lantejoulas e o repuxo no cabelo da dona do bar de alterne

E é este espaço que não cabe no tempo. E este frio que me lambe os pés e enregela os ossos. Que entra por mim em cotoveladas repetidas

Andamos todos por aqui, não é?

25 fevereiro, 2015

NO LUGAR DA MINHA INFÂNCIA



 
O LUGAR DA MINHA INFÂNCIA
O lugar da minha infância é tão perto de tudo e tão longe de nada… entre prédios, quintas e um hospital ao lado.
O lugar da minha infância tem campos a descoberto, terrenos esventrados, castanheiros e pinhais, paredes cobertas de musgo, silvas cobertas de amoras, bolas que saltam, jogos de peão sem cú com “faniqueiras” alongadas.
Picaretas desbravam uma avenida, paredes meias com gritos lancinantes de doentes e cantares de ciganos na esperança da salvação.
No lugar da minha infância, corremos e jogamos, sentamo-nos nas pedras, subimos árvores, pedalamos em bicicletas com quadros “à corredor” e saltamos riachos.
Escutamos pássaros que nos bombeiam as fisgas, partimos vidros e compramos gomas e fava-rica.
Manchas de sangue nos joelhos, calções rasgados, farripas de pele nos cotovelos, fiapos de sol no chão e gotículas no algeroz da esquina
Por vezes, toca o sino da Capela, fazem-se novenas e peditórios, contam-se as bolinhas do terço, enquanto se repara no vestido da miúda da frente e renovamos os votos até qualquer dia
Sapatilhas Sanjo duram pouco no empedrado granítico solto, um polícia de plantão faz rondas de minutos, Salazar estrebucha na televisão a preto e branco e o meu avô foi “convidado” a ir de barco a lisboa para votar no senhor presidente.
No lugar da minha infância tenho nos olhos a castanha assada em cesto de vime com duas asas e sarapilheira.
Pela calada, desgarradas noturnas, besouros contra candeeiros, “sameirinhas” em voltas a Portugal pintadas a giz branco no chão frio, a minha avó no café e um chocolatinho p´ro Zé Pedrinho.
Um velho vizinho deambulava por entre carros estacionados em segunda fila, laço aprumado em camisa de seda branca, casaco com botões doirados, e um chapéu que volta não volta tira para cumprimentar transeuntes.
Por vezes regresso a este lugar, inexplicavelmente como se tentasse pagar um pecado inexpiável.
Às tantas a figura do meu avô, mãos em concha no ouvido tentando escutar em vão as conversas das mulheres da família, piscando o olho às figurinhas dos retratos no móvel.
E são dias que já foram, tempos remotos urdidos na memória em catadupa.
O lugar da minha infância tinha tudo e não tem nada, está longe como antes, e tem medo que tudo desapareça, eu e a infância e a infância comigo.