25 fevereiro, 2015

NO LUGAR DA MINHA INFÂNCIA



 
O LUGAR DA MINHA INFÂNCIA
O lugar da minha infância é tão perto de tudo e tão longe de nada… entre prédios, quintas e um hospital ao lado.
O lugar da minha infância tem campos a descoberto, terrenos esventrados, castanheiros e pinhais, paredes cobertas de musgo, silvas cobertas de amoras, bolas que saltam, jogos de peão sem cú com “faniqueiras” alongadas.
Picaretas desbravam uma avenida, paredes meias com gritos lancinantes de doentes e cantares de ciganos na esperança da salvação.
No lugar da minha infância, corremos e jogamos, sentamo-nos nas pedras, subimos árvores, pedalamos em bicicletas com quadros “à corredor” e saltamos riachos.
Escutamos pássaros que nos bombeiam as fisgas, partimos vidros e compramos gomas e fava-rica.
Manchas de sangue nos joelhos, calções rasgados, farripas de pele nos cotovelos, fiapos de sol no chão e gotículas no algeroz da esquina
Por vezes, toca o sino da Capela, fazem-se novenas e peditórios, contam-se as bolinhas do terço, enquanto se repara no vestido da miúda da frente e renovamos os votos até qualquer dia
Sapatilhas Sanjo duram pouco no empedrado granítico solto, um polícia de plantão faz rondas de minutos, Salazar estrebucha na televisão a preto e branco e o meu avô foi “convidado” a ir de barco a lisboa para votar no senhor presidente.
No lugar da minha infância tenho nos olhos a castanha assada em cesto de vime com duas asas e sarapilheira.
Pela calada, desgarradas noturnas, besouros contra candeeiros, “sameirinhas” em voltas a Portugal pintadas a giz branco no chão frio, a minha avó no café e um chocolatinho p´ro Zé Pedrinho.
Um velho vizinho deambulava por entre carros estacionados em segunda fila, laço aprumado em camisa de seda branca, casaco com botões doirados, e um chapéu que volta não volta tira para cumprimentar transeuntes.
Por vezes regresso a este lugar, inexplicavelmente como se tentasse pagar um pecado inexpiável.
Às tantas a figura do meu avô, mãos em concha no ouvido tentando escutar em vão as conversas das mulheres da família, piscando o olho às figurinhas dos retratos no móvel.
E são dias que já foram, tempos remotos urdidos na memória em catadupa.
O lugar da minha infância tinha tudo e não tem nada, está longe como antes, e tem medo que tudo desapareça, eu e a infância e a infância comigo.



 

1 comentário:

Becasfields disse...

Nem sei como cá vim ter ... Aqui ... aqui porque da infância creio nunca ter saído.
É o intacto que permanece ...
Sentido registo que ganha vida na vida de cada um. Protagonistas sempre somos de uma qualquer infância que nos trouxe até hoje.