14 maio, 2015

O DIA SEM ONTEM



















O dia sem ontem

Este foi um dia sem ontem. Um salto no calendário leproso, em farripastorcido e gasto.
Uma bruma escura que se confunde com o céu. Alma bebida pela subtileza do demónio na margem sombria da esperança.

Gente que filtra gente, amparos na turbulência do douro, a volatilidade em segundos,
calendário adulterado, gotículas de chuva, rascunhos de céu. 


Sente-se o cheiro a hortelã enquanto batem o trunfo de copas e na bagagem do velho alentejano, meio litro de abafadinho a tiracolo, como se fizesse parte dele, tamanha a cumplicidade.


O Porto é uma nudez sonâmbula, cortada por ambulâncias troteantes e bares acotovelados em ruas estreitas de bairros esventrados.

Ruas com amoreiras. Espinhos espetados nos dedos. 

Na rua dos poveiros, travestis com colares de missangas e bamboleio de ancas encostam-se às portas entreabertas, e damas de “écharpe” e casacos de pele, coquetes obtusasvagueiam trepidantes.

Passos Manuel junto ao Coliseu é já ali.

Funcionários varrem beatas do chão, estas, varrem alguns funcionários para camas de hospital.
Vendedores de xaropes para ténias infantis gritam desalmados que o “demo” chegou.

Este tempo sabe a limão e a azeitonas espanholas e, no entanto, porta contra porta, jogamos à casquinha de laranja, ou com bolas feitas de jornal e meias de vidro.

No dia sem ontem, engasgo de sílabas na ponte, frases aos solavancos, som metálico do comboio, os nossos olhares perdidos na luminosidade nocturna da ribeira.

Silêncio nas paredes, livros que sorriem com notas frescas de edições recentes, fotos escondidas em envelopes com os mesmos sorrisos de há 30 anos.

Alfazema da roupa a secar nos estendais de ruas afuniladas, pingando docemente na calçada, ritmo de tango argentino, passos cadenciados, dois volteios.

Trazes a vida a tiracolo, alparcatas suaves, um frio que te gela a espinha, dois supetões nas meninges, queixo torto como se resmungasses amiúde, espasmos na glote, olhos numa dança turva.

Este devia ser um dia sem ontem…