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A mostrar mensagens de 2016

Deixa ficar assim…

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Dormes menos. Vês passar o tempo, quieto, sobranceiro, meticuloso.
Cartas ao pai natal. Um comboio elétrico para aquele, uma pista de carros para outro, a camisola de lã, o cachecol, o perfume. Uma interminável lista.
 E de repente no mesmo acordar todos na direção da missa do galo, três pais-nossos, duas ave-marias, a Ceia de Natal.
E o espelho na cómoda em frente, que te reflete. O que irá refletir daqui por uns tempos?
 Neste instante tudo é serenidade, O mundo parece ter parado, Nem um movimento. Contudo, se abrir o cortinado, reflexos no vidro do quarto.
 Até os murmúrios regressam, acompanhados pela minha avó espanhola. - “Hola como estas “ – e uma chávena de chá segura por dois dedos e o mindinho esticado.
O Avô impaciente, deslocava-se como se patinasse.
As “tias” que acompanham a avó, recostam-se em poltronas com crochet´s de um lado e a boca revirada (para assuntos da vida de cada um), para o outro.
Isso e as dentaduras que abanam em sons de castanholas num “salero” de Vigo…

A MEMÓRIA

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A memória aparece intermitente nos dias que correm solarengos.
A memória dos mortos é mais viva do que quando estava com eles.
“Amanhã telefono-te. Sim, já gravei o número. Não esqueças que temos de almoçar… este ano juntamo-nos todos antes do natal…”
As nossas conversas, encontros e reencontros ficam para depois. Nunca temos tempo, esquecemos rápido, e no entanto o tempo está aí.
Um dia temos tempo.
Sorrisos em câmara lenta, comboio no apeadeiro das sete. As figuras, as vossas e as minhas, o passado no presente. As palavras.
Aos poucos e poucos vão aparecendo as primeiras ilhas. Ponto a ponto. Perfil a perfil. Pequenos e imprecisos muros, delimitando jardins. Viramos, contrapomos edifícios, suspirando pelas imagens que se apresentam majestosas.
Uma longa avenida, dois a três candeeiros altos e largos, entre-cortados por outros pequenos e escondidos.
Igrejas e uma torre. Um monumento, mais uma capela e uma nave central cobrindo com feixes de luz restos de pintura nas paredes.
Gente que…

REFUGIADOS

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Qual o nome desse corpo a que chamas teu? Pagas uma viagem incerta num ritual de ondas que te levam. Até à sétima vaga num porto qualquer. Ficas num limbo, na sombra do corpo e a perda do brilho no olhar triste e despegado.
Trazes sonhos em rebentações e foges do infortúnio numa barcaça de mortalhas esculpida como cilindro. És o esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele. Algo que nem tu entendes, mas procuras. Foges de balas ziguezagueantes, morteiros de fome estampada no teu peito que enche os bolsos de muitos. Esse é o teu tronco, numa outra cabeça. Os teus braços noutro corpo. Lapidaste o desejo e esculpiste a lágrima furtiva enquanto os ponteiros desandam em sentido oposto e as marés invertem tenebrosas passagens do tempo. Será num mar grego ou Italiano, será em janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados
Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos. Cegos na busca de um caminho, um…

SEI QUE ERA TARDE.

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Era tarde. Não sei se muito ou pouco. Sei que era tarde.
Navegamos os dois, solitáriamente entre a nau das descobertas e um pedaço de terra num sítio qualquer. Não interessa.
Caminhávamos sem sentido, acompanhados por uma ligeira brisa e as luzes que aos poucos se acendiam, bem como os sentidos que se despertavam entre os dois.  
Naquele instante pouco mais importava. Nem o perfume certo, nem a cor da camisa, o toque na pele, o sapato a condizer, a palavra certa, a madeixa que me atrapalha. Nada. Apenas e só, os dois e o instante.
A cidade estava diferente, as pessoas estavam diferentes, os autocarros acendiam as luzes, os semáforos desligados, corpos deambulavam pelos bares, ou éramos nós que a víamos diferente.
Falávamos sem nos ouvirmos, escrevemos sem nos lermos e guardamos no fundo de nós, em código de 3 dígitos, notas de aroma musical.
Tínhamos uma dança de palavras desacertadas, espaços sobrantes, e apenas um olhar intenso. Pouco mais do que um olhar. Mas era aquele olhar que nos escul…

O QUE ACONTECEU, SABES ?

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Tocam os sinos da Igreja no fim da rua, balançando acordes de chamamento. O vizinho com o seu aparelho de surdo espetava o nariz na direcção do vento.
Outro, galanteador, distribui acenos, enquanto ajeita o chapéu e encosta, com o franzir da testa, as sobrancelhas brancas. E era como se toda a neve do mundo tivesse ali poisado.
A mulher Espanhola, vestida de folhos e cetim, cabelo espetado para o céu, debitava sons das bochechas caídas, enquanto um dente assobiava, dando sinais de vida. Este e pouco mais, apareciam e desapareciam como teclas num piano de cauda.
 O sino continuava a sua melodia estridente enquanto a notícia percorria os caminhos.
- Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado. 
O galanteador tinha um fato cerzido nas mangas e os colarinhos das camisas virados. Três botões no casaco assertoado, e uma gravata de riscas com um bonequinho no fim, pendurado.
 - Três voltas no ferrolho - gritava a espanhola-, enquanto o sapateiro, duas portas ao lado competia com o sino em batidas vigor…

ATÉ JÁ...!

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Já não temos dias limpos, nem orvalhos da manhã, pão torrado com manteiga, nem conversas sem fim.
A humidade escorre nos muros repletos de musgo. O cheiro da casa vazia. A chuva que me definha os ossos.
Dias de cor cinza, sons abafados pelos lençóis que me cobrem. A clarabóia que geme com os trovões.
Sombras que fogem das sombras. Gente sem pulmões unidos num único respirar. Um todo sem partes e a outra metade sem metade de mim.
O meu dedo do meio esticado. Os outros recolhidos como partitura musical numa nota só.
Cogumelos que crescem amontoados. Flores de cheiro e rosas silvestres.  Óculos protegidos com aros remendados e relógios sem tempo. Corpo em remissão.
Silabas que não ocupam frases, cicatrizes das árvores, um aceno. Estou longe do instante. Longe da procura. Longe do tempo.
Nem uvas na tua boca, nem flores no teu regaço, nem romãs pingadas na tua camisa de linho.
Estou entre perímetros. Um decalque, desenho do que já foi, numa efusão ou simbiose. Grafia de vogais abertas, diferenças n…

FICA COMIGO CHEIRO

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A sopa da minha avó. Couve, muita couve fumegante a sair da panela.  O “after-shave” do meu pai, suave. Doce, como ele em pessoa.
O mar da foz do douro, o pão quente com manteiga. O chiar do setenta e oito com dois andares, o tlim-tlim do eléctrico nos carris da Boavista. Marcas na memória e na alma.
Reflexos de tudo. Entranhado na pele e metido no nariz. Livros que não são apenas livros. Capicua. Números que são apenas números.
- Fica comigo cheiro. As uvas do “Larinho” em cesto de vime cobertas por parras, em camadas de duas. Brancas e pretas. Trazem um pano branco a tapá-las, sinal de limpeza e nobreza de quem as envia.
Castanhas quentes saídas da serapilheira que um homem alto e tisnado transporta. O verde no Minho que brota, enquanto pequena cascata de água desaba num ribeiro.
Tigelas de resina nos pinheiros, Lágrimas que escorrem da árvore a conta-gotas, triste. Amoras silvestres, no quintal vizinho. Nuvens de chuva redundante.
Pinturas de caça nas paredes. A foto de uma mulher ava…

Onde está a tua vida?

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Podíamos ter começado a ser felizes há tanto tempo… Tu, três cabelos numa volta rente ao crânio, e eu, angustiada com as tuas falhas.
Não bastava o intervalo entre os dentes, a presença constante da tua mãe, qual mata-borrão, ou as fotos do teu avô, em molduras pela casa
O teu coxear alternativo, os teus olhares lânguidos na direcção da criada da pensão, onde namoramos. Salvas de tiros ocos, arma sem pólvora que teimavas dar e que me angustiavam. Tu e as colinas de Lisboa.
O teu jeito perfeito para me agarrar nas covas, as frases-relíquia que entoavas como discos pedidos em manhãs funestas. Um reportório de canções parolas como parolo o local brejeiro em que me encostavas às cordas. E eu à espera do esticar da corda, e nada.
O teu ar incompleto. Olhar de abismo, mesclado com cara de couve, cheia de rugas. Era tamanho o teu êxtase que abrias os braços qual louva-a-deus, e gritavas tão alto para o ar, que se esperava a queda de anjos com pingos de chuva, os olhos cerrados de Nossa S…

NO MEU DOURO

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No meu douro tenho silêncio da rua. O silêncio do vale. Silêncio da terra. O teu no meu silêncio. Dias de silêncio no douro. Ao longe, avenidas feitas segredos ondulados. Conversas sem fim, quantas vezes sem princípio.
Oratórios e pratas. Quadros e linhagens espalhadas pelas paredes brancas. Retratos de família, livros e ligações. O douro ao fundo. O rio já aqui.
Copos meio bebidos lavam-se na tina de água roxa. Copos mínimos onde serve um tinto carrascão ou um décimo de porto.
O calor amolece os corpos, que encostados aos paus, juntinho às veredas vão desfilando cantorias quebrando a secura da terra. O silêncio da brisa, a lagrima fugidia num olho azul, enquanto a vinha sussurra.
Aqui o rio. O sol ilumina-o ordenado, pachorrento.  Encosta acima, lagartas socalcam terra, abrindo espaço para outras colheitas. Um douro fino.
Pés de vinha aprisionada namoram outras vinhas mais a sul. Um comboio em desalinho apita à distância. São segundos na paisagem.
Às vezes um pássaro, raramente uma brisa, namo…

DESEJOS E DEMÓNIOS

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Dulce não se importou com a vida. Como se ela alguma vez tenha tido alguma importância. Suspendeu a respiração e disse ao padre que este era talvez o seu último inverno. O último dezembro.
Não me lembro de tempo tão triste nem gente tão distante. Parece que o meu corpo só vive do calor e eu estou cansada do frio.
Só me apetece arrancar este zumbido da minha cabeça. Estes bichos que sinto, me invadem corpo e mente. Mais corpo, por causa deste formigueiro que me percorre. E este calor intenso, as pálpebras muito abertas os olhos quase esbugalhados. Bem que eu queria um milagre, Senhor Padre. Algo como um príncipe – dizia ela.
De repente uma aragem. Entra pela porta da frente e com ela uns uivos de lobos pretos. São estas tristezas, diz Dulce. Tudo isto que me vai consumindo, mais os calores e as minhas pálpebras.
Só quero entrar de novo na minha cabeça, mas esta humidade que se entranha, este arrancar de alma. Sinto-me desnuda. Só me apetece pecar e pedir perdão.
Mas peço a sua bênção senhor p…