06 janeiro, 2016

NO MEU DOURO





No meu douro tenho silêncio da rua. O silêncio do vale. Silêncio da terra. O teu no meu silêncio.
Dias de silêncio no douro. Ao longe, avenidas feitas segredos ondulados. Conversas sem fim, quantas vezes sem princípio.

Oratórios e pratas. Quadros e linhagens espalhadas pelas paredes brancas.
Retratos de família, livros e ligações. O douro ao fundo. O rio já aqui.

Copos meio bebidos lavam-se na tina de água roxa. Copos mínimos onde serve um tinto carrascão ou um décimo de porto.

O calor amolece os corpos, que encostados aos paus, juntinho às veredas vão desfilando cantorias quebrando a secura da terra.
O silêncio da brisa, a lagrima fugidia num olho azul, enquanto a vinha sussurra.

Aqui o rio.
O sol ilumina-o ordenado, pachorrento.  Encosta acima, lagartas socalcam terra, abrindo espaço para outras colheitas. Um douro fino.

Pés de vinha aprisionada namoram outras vinhas mais a sul. Um comboio em desalinho apita à distância. São segundos na paisagem.

Às vezes um pássaro, raramente uma brisa, namorados enleados numa protecção divina.
 A tranquilidade entre roçar de folhas, paisagem como pintura.

O cheiro a mosto. Melancolia nos rostos, linguarejar de sacrifício.
Um copo agora, outro a seguir e o silêncio entre almas.

O douro é como uma familiaridade inquieta. Uma reticência, uma inquietude, um constrangimento.
Local de afectos, de abraços, de amores. Local de masculinidade afirmativa. Lugar onde diálogos nunca são diálogos.

A vida é um caos desorganizado de projectos, chão, famílias, vinhas, cultivos.
Uma experiência que derrota, faz sofrer, mas também reaviva, produz e transforma a felicidade em êxtase, numa alquimia de criação.

As mulheres transportam o luto pesado no corpo, arrastando a tristeza no rebordo do passeio, encostadas às casas definhando tristeza. O terço enrolado na mão direita e o crucifixo batendo no peito.

O silêncio do vale. O silêncio da rua.
Aqui tocam os dias, a terra molhada, o xisto, a pedra esculpida, o pó das estrelas.

Hábitos mitológicos que matam o tempo e  matam o bicho.
O tempo no douro tem velocidades diferentes. Corre devagar e esse é o bem mais precioso.





03 janeiro, 2016

DESEJOS E DEMÓNIOS

Dulce não se importou com a vida. Como se ela alguma vez tenha tido alguma importância.
Suspendeu a respiração e disse ao padre que este era talvez o seu último inverno. O último dezembro.

Não me lembro de tempo tão triste nem gente tão distante. Parece que o meu corpo só vive do calor e eu estou cansada do frio.

Só me apetece arrancar este zumbido da minha cabeça.
Estes bichos que sinto, me invadem corpo e mente. Mais corpo, por causa deste formigueiro que me percorre.
E este calor intenso, as pálpebras muito abertas os olhos quase esbugalhados.
Bem que eu queria um milagre, Senhor Padre. Algo como um príncipe – dizia ela.

De repente uma aragem.
Entra pela porta da frente e com ela uns uivos de lobos pretos.
São estas tristezas, diz Dulce.
Tudo isto que me vai consumindo, mais os calores e as minhas pálpebras.

Só quero entrar de novo na minha cabeça, mas esta humidade que se entranha, este arrancar de alma. Sinto-me desnuda. Só me apetece pecar e pedir perdão.

Mas peço a sua bênção senhor padre…. - Deus te abençoe menina.
 e eu tomo a comunhão, e vou à tina de água benta a escorrer lá para dentro

Coisas que Deus e os anjos sabem e os padres descobrem. Coisas como a terra remexida, as benzeduras na ajuda contra o enguiço, mulheres sem homem, tenebrosas.
As mãos trémulas conferem humidade no meu sexo e benzo-me com o sinal da cruz.
Rezas ancestrais, o sino da paróquia toca a rebate e o deus divino faz-me a remissão do pecado.

Traga Deus a humildade a meu favor senhor padre, enquanto recupero do corpo e da cabeça, tombando magnificências para o lado até orgasmos rituais.
Estou amaldiçoada descarnada, exposta, perturbada. Faltam-me ervas várias, benzeduras, o verbo divino. A cruz e os meus peitos aos saltos.
O Demo atiçou-me, e nos meus sonhos surgem bichos, que nos comem a pele e deleitam a carne.

Tenho esta euforia, crio bestas disformes em pinturas e a salvação na sua boca senhor padre
 - Será mau-olhado ou comiseração do diabo?

E eis que o dia se torna breu. Os céus prepararam a noite, e esta, liquidificava em chuvas torrenciais.
Eram lamas e correntes, trovões e enxurradas, e de novo dia.
E mais noite ofuscada e de novo o diabo.

Um dia que o vento me leve aceitarei de bom grado, pois o céu é que guia o que a terra desvia.
Ultimo inverno, ultimo Dezembro. Ultima sagração. Ultimo dia.

Só pode ser do calor, não acha senhor padre?