DESEJOS E DEMÓNIOS

Dulce não se importou com a vida. Como se ela alguma vez tenha tido alguma importância.
Suspendeu a respiração e disse ao padre que este era talvez o seu último inverno. O último dezembro.

Não me lembro de tempo tão triste nem gente tão distante. Parece que o meu corpo só vive do calor e eu estou cansada do frio.

Só me apetece arrancar este zumbido da minha cabeça.
Estes bichos que sinto, me invadem corpo e mente. Mais corpo, por causa deste formigueiro que me percorre.
E este calor intenso, as pálpebras muito abertas os olhos quase esbugalhados.
Bem que eu queria um milagre, Senhor Padre. Algo como um príncipe – dizia ela.

De repente uma aragem.
Entra pela porta da frente e com ela uns uivos de lobos pretos.
São estas tristezas, diz Dulce.
Tudo isto que me vai consumindo, mais os calores e as minhas pálpebras.

Só quero entrar de novo na minha cabeça, mas esta humidade que se entranha, este arrancar de alma. Sinto-me desnuda. Só me apetece pecar e pedir perdão.

Mas peço a sua bênção senhor padre…. - Deus te abençoe menina.
 e eu tomo a comunhão, e vou à tina de água benta a escorrer lá para dentro

Coisas que Deus e os anjos sabem e os padres descobrem. Coisas como a terra remexida, as benzeduras na ajuda contra o enguiço, mulheres sem homem, tenebrosas.
As mãos trémulas conferem humidade no meu sexo e benzo-me com o sinal da cruz.
Rezas ancestrais, o sino da paróquia toca a rebate e o deus divino faz-me a remissão do pecado.

Traga Deus a humildade a meu favor senhor padre, enquanto recupero do corpo e da cabeça, tombando magnificências para o lado até orgasmos rituais.
Estou amaldiçoada descarnada, exposta, perturbada. Faltam-me ervas várias, benzeduras, o verbo divino. A cruz e os meus peitos aos saltos.
O Demo atiçou-me, e nos meus sonhos surgem bichos, que nos comem a pele e deleitam a carne.

Tenho esta euforia, crio bestas disformes em pinturas e a salvação na sua boca senhor padre
 - Será mau-olhado ou comiseração do diabo?

E eis que o dia se torna breu. Os céus prepararam a noite, e esta, liquidificava em chuvas torrenciais.
Eram lamas e correntes, trovões e enxurradas, e de novo dia.
E mais noite ofuscada e de novo o diabo.

Um dia que o vento me leve aceitarei de bom grado, pois o céu é que guia o que a terra desvia.
Ultimo inverno, ultimo Dezembro. Ultima sagração. Ultimo dia.

Só pode ser do calor, não acha senhor padre?





Comentários

Mensagens populares deste blogue

DESORDENADA VIDA

OS ANJOS NÃO TÊM COSTAS...!

QUE TE DIZEM OS OLHOS