03 janeiro, 2016

DESEJOS E DEMÓNIOS

Dulce não se importou com a vida. Como se ela alguma vez tenha tido alguma importância.
Suspendeu a respiração e disse ao padre que este era talvez o seu último inverno. O último dezembro.

Não me lembro de tempo tão triste nem gente tão distante. Parece que o meu corpo só vive do calor e eu estou cansada do frio.

Só me apetece arrancar este zumbido da minha cabeça.
Estes bichos que sinto, me invadem corpo e mente. Mais corpo, por causa deste formigueiro que me percorre.
E este calor intenso, as pálpebras muito abertas os olhos quase esbugalhados.
Bem que eu queria um milagre, Senhor Padre. Algo como um príncipe – dizia ela.

De repente uma aragem.
Entra pela porta da frente e com ela uns uivos de lobos pretos.
São estas tristezas, diz Dulce.
Tudo isto que me vai consumindo, mais os calores e as minhas pálpebras.

Só quero entrar de novo na minha cabeça, mas esta humidade que se entranha, este arrancar de alma. Sinto-me desnuda. Só me apetece pecar e pedir perdão.

Mas peço a sua bênção senhor padre…. - Deus te abençoe menina.
 e eu tomo a comunhão, e vou à tina de água benta a escorrer lá para dentro

Coisas que Deus e os anjos sabem e os padres descobrem. Coisas como a terra remexida, as benzeduras na ajuda contra o enguiço, mulheres sem homem, tenebrosas.
As mãos trémulas conferem humidade no meu sexo e benzo-me com o sinal da cruz.
Rezas ancestrais, o sino da paróquia toca a rebate e o deus divino faz-me a remissão do pecado.

Traga Deus a humildade a meu favor senhor padre, enquanto recupero do corpo e da cabeça, tombando magnificências para o lado até orgasmos rituais.
Estou amaldiçoada descarnada, exposta, perturbada. Faltam-me ervas várias, benzeduras, o verbo divino. A cruz e os meus peitos aos saltos.
O Demo atiçou-me, e nos meus sonhos surgem bichos, que nos comem a pele e deleitam a carne.

Tenho esta euforia, crio bestas disformes em pinturas e a salvação na sua boca senhor padre
 - Será mau-olhado ou comiseração do diabo?

E eis que o dia se torna breu. Os céus prepararam a noite, e esta, liquidificava em chuvas torrenciais.
Eram lamas e correntes, trovões e enxurradas, e de novo dia.
E mais noite ofuscada e de novo o diabo.

Um dia que o vento me leve aceitarei de bom grado, pois o céu é que guia o que a terra desvia.
Ultimo inverno, ultimo Dezembro. Ultima sagração. Ultimo dia.

Só pode ser do calor, não acha senhor padre?





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