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A mostrar mensagens de Março, 2016

SEI QUE ERA TARDE.

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Era tarde. Não sei se muito ou pouco. Sei que era tarde.
Navegamos os dois, solitáriamente entre a nau das descobertas e um pedaço de terra num sítio qualquer. Não interessa.
Caminhávamos sem sentido, acompanhados por uma ligeira brisa e as luzes que aos poucos se acendiam, bem como os sentidos que se despertavam entre os dois.  
Naquele instante pouco mais importava. Nem o perfume certo, nem a cor da camisa, o toque na pele, o sapato a condizer, a palavra certa, a madeixa que me atrapalha. Nada. Apenas e só, os dois e o instante.
A cidade estava diferente, as pessoas estavam diferentes, os autocarros acendiam as luzes, os semáforos desligados, corpos deambulavam pelos bares, ou éramos nós que a víamos diferente.
Falávamos sem nos ouvirmos, escrevemos sem nos lermos e guardamos no fundo de nós, em código de 3 dígitos, notas de aroma musical.
Tínhamos uma dança de palavras desacertadas, espaços sobrantes, e apenas um olhar intenso. Pouco mais do que um olhar. Mas era aquele olhar que nos escul…

O QUE ACONTECEU, SABES ?

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Tocam os sinos da Igreja no fim da rua, balançando acordes de chamamento. O vizinho com o seu aparelho de surdo espetava o nariz na direcção do vento.
Outro, galanteador, distribui acenos, enquanto ajeita o chapéu e encosta, com o franzir da testa, as sobrancelhas brancas. E era como se toda a neve do mundo tivesse ali poisado.
A mulher Espanhola, vestida de folhos e cetim, cabelo espetado para o céu, debitava sons das bochechas caídas, enquanto um dente assobiava, dando sinais de vida. Este e pouco mais, apareciam e desapareciam como teclas num piano de cauda.
 O sino continuava a sua melodia estridente enquanto a notícia percorria os caminhos.
- Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado. 
O galanteador tinha um fato cerzido nas mangas e os colarinhos das camisas virados. Três botões no casaco assertoado, e uma gravata de riscas com um bonequinho no fim, pendurado.
 - Três voltas no ferrolho - gritava a espanhola-, enquanto o sapateiro, duas portas ao lado competia com o sino em batidas vigor…

ATÉ JÁ...!

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Já não temos dias limpos, nem orvalhos da manhã, pão torrado com manteiga, nem conversas sem fim.
A humidade escorre nos muros repletos de musgo. O cheiro da casa vazia. A chuva que me definha os ossos.
Dias de cor cinza, sons abafados pelos lençóis que me cobrem. A clarabóia que geme com os trovões.
Sombras que fogem das sombras. Gente sem pulmões unidos num único respirar. Um todo sem partes e a outra metade sem metade de mim.
O meu dedo do meio esticado. Os outros recolhidos como partitura musical numa nota só.
Cogumelos que crescem amontoados. Flores de cheiro e rosas silvestres.  Óculos protegidos com aros remendados e relógios sem tempo. Corpo em remissão.
Silabas que não ocupam frases, cicatrizes das árvores, um aceno. Estou longe do instante. Longe da procura. Longe do tempo.
Nem uvas na tua boca, nem flores no teu regaço, nem romãs pingadas na tua camisa de linho.
Estou entre perímetros. Um decalque, desenho do que já foi, numa efusão ou simbiose. Grafia de vogais abertas, diferenças n…

FICA COMIGO CHEIRO

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A sopa da minha avó. Couve, muita couve fumegante a sair da panela.  O “after-shave” do meu pai, suave. Doce, como ele em pessoa.
O mar da foz do douro, o pão quente com manteiga. O chiar do setenta e oito com dois andares, o tlim-tlim do eléctrico nos carris da Boavista. Marcas na memória e na alma.
Reflexos de tudo. Entranhado na pele e metido no nariz. Livros que não são apenas livros. Capicua. Números que são apenas números.
- Fica comigo cheiro. As uvas do “Larinho” em cesto de vime cobertas por parras, em camadas de duas. Brancas e pretas. Trazem um pano branco a tapá-las, sinal de limpeza e nobreza de quem as envia.
Castanhas quentes saídas da serapilheira que um homem alto e tisnado transporta. O verde no Minho que brota, enquanto pequena cascata de água desaba num ribeiro.
Tigelas de resina nos pinheiros, Lágrimas que escorrem da árvore a conta-gotas, triste. Amoras silvestres, no quintal vizinho. Nuvens de chuva redundante.
Pinturas de caça nas paredes. A foto de uma mulher ava…

Onde está a tua vida?

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Podíamos ter começado a ser felizes há tanto tempo… Tu, três cabelos numa volta rente ao crânio, e eu, angustiada com as tuas falhas.
Não bastava o intervalo entre os dentes, a presença constante da tua mãe, qual mata-borrão, ou as fotos do teu avô, em molduras pela casa
O teu coxear alternativo, os teus olhares lânguidos na direcção da criada da pensão, onde namoramos. Salvas de tiros ocos, arma sem pólvora que teimavas dar e que me angustiavam. Tu e as colinas de Lisboa.
O teu jeito perfeito para me agarrar nas covas, as frases-relíquia que entoavas como discos pedidos em manhãs funestas. Um reportório de canções parolas como parolo o local brejeiro em que me encostavas às cordas. E eu à espera do esticar da corda, e nada.
O teu ar incompleto. Olhar de abismo, mesclado com cara de couve, cheia de rugas. Era tamanho o teu êxtase que abrias os braços qual louva-a-deus, e gritavas tão alto para o ar, que se esperava a queda de anjos com pingos de chuva, os olhos cerrados de Nossa S…