17 março, 2016

ATÉ JÁ...!

   
Já não temos dias limpos, nem orvalhos da manhã, pão torrado com manteiga, nem conversas sem fim.

A humidade escorre nos muros repletos de musgo. O cheiro da casa vazia. A chuva que me definha os ossos.

Dias de cor cinza, sons abafados pelos lençóis que me cobrem. A clarabóia que geme com os trovões.

Sombras que fogem das sombras. Gente sem pulmões unidos num único respirar. Um todo sem partes e a outra metade sem metade de mim.

O meu dedo do meio esticado. Os outros recolhidos como partitura musical numa nota só.

Cogumelos que crescem amontoados. Flores de cheiro e rosas silvestres. 
Óculos protegidos com aros remendados e relógios sem tempo. Corpo em remissão.

Silabas que não ocupam frases, cicatrizes das árvores, um aceno.
Estou longe do instante. Longe da procura. Longe do tempo.

Nem uvas na tua boca, nem flores no teu regaço, nem romãs pingadas na tua camisa de linho.

Estou entre perímetros. Um decalque, desenho do que já foi, numa efusão ou simbiose. Grafia de vogais abertas, diferenças na conjugação.

A casa acorda devagar. Linhas de sol poisam nos cortinados, e o dia vai abrindo lentamente espreguiçando-se.

A solidão que me prende, os músculos que se questionam e o meu sangue que se liquidifica para desistir entre o sol e a lua, num até já, enquanto aguardo o ultimo transporte para longe do sorriso limpo.

Na aldeia, nesta aldeia, tudo é em tons de branco e azul claro.
Os ninhos estão colocados estrategicamente nas casas, nos postes e as gaivotas, bem como a igreja iluminada, fazem parte do cenário.

A escola primária foi casebre, tasca, e agora faz de casa de hóspedes.
Toda a gente se foi. Casas fechadas, muros caídos, nem corridas nem gritos de criança. Chuva e vento. Solidão absoluta, almas vazias.

Hoje como ontem, o céu parte vidros e estilhaça-nos a alma, tal o poder dos relâmpagos.
Não é fácil viver por aqui, nem fácil partir. E há muitas almas que se esquecem de partir, face à inconstância do tempo, e a indefinição dos lugares.

Já não temos dias limpos, pão torrado com manteiga nem conversas sem fim. 

Resta-nos um espaço rasgado no tempo. Onde não há o que foi, nem o que será. Apenas este instante, um curto instante.

 Um olhar, quantas das vezes um sorriso, diálogos tímidos, um chá para dois, quadradinhos de chocolate preto, o teu gato persa, as minhas insónias, e o medo que o tempo me soterre.

E neste até já, a vida divide-nos a meio. A metade que ficou não regressa, mas existe sempre um até breve. Quem sabe, até já.




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