09 março, 2016

FICA COMIGO CHEIRO


A sopa da minha avó. Couve, muita couve fumegante a sair da panela. 
O “after-shave” do meu pai, suave. Doce, como ele em pessoa.

O mar da foz do douro, o pão quente com manteiga. O chiar do setenta e oito com dois andares, o tlim-tlim do eléctrico nos carris da Boavista.
Marcas na memória e na alma.

Reflexos de tudo. Entranhado na pele e metido no nariz.
Livros que não são apenas livros.
Capicua. Números que são apenas números.

- Fica comigo cheiro.
As uvas do “Larinho” em cesto de vime cobertas por parras, em camadas de duas. Brancas e pretas.
Trazem um pano branco a tapá-las, sinal de limpeza e nobreza de quem as envia.

Castanhas quentes saídas da serapilheira que um homem alto e tisnado transporta.
O verde no Minho que brota, enquanto pequena cascata de água desaba num ribeiro.

Tigelas de resina nos pinheiros, Lágrimas que escorrem da árvore a conta-gotas, triste.
Amoras silvestres, no quintal vizinho. Nuvens de chuva redundante.

Pinturas de caça nas paredes. A foto de uma mulher avantajada, matriarca, e um cãozinho que abana a cabeça.
Ferrolhos barulhentos fechados a sete chaves, relógios a dar desoras no balanço do pêndulo.

Senhoras de leque num abanico ritmado e duas alianças no dedo anelar – não vejo homens com duas alianças – valha isso o que valer.

Pessoas que ocupam pouco espaço. Cantinho de sofás, desembaraçados de tudo, perdidos numa espiral de sossego, sossego a mais.
Nem diálogos, nem olhares, nem nódoas nas camisas. Tudo muito engomado, esticado. Tudo muito sem jeito.

- Fica comigo cheiro.

Roupa estendida, gel de banho. 
O cozido na panela, o respirar da casa. O café da avó e a porta que se fecha sobre o silêncio que fica.

Passos leves no corredor, o gato que se espreguiça coçando o focinho na pata direita.
Frio seco em dias cheios de sol. Uma palete tons terra que se manifestam no jardim fronteiro.

Flores no parapeito, sardinheiras coloridas, bater ritmado do relógio sem  marcar o tempo.
Molduras espalhadas pelos cantos da casa.
Quadros de gente com os olhos metidos num medo qualquer.

O cheiro deste tempo e desta terra, da minha e de outras avós, de gente simples, como simples é a vida enquanto quisermos.


- Fica comigo cheiro. 


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