O QUE ACONTECEU, SABES ?


 Tocam os sinos da Igreja no fim da rua, balançando acordes de chamamento.
O vizinho com o seu aparelho de surdo espetava o nariz na direcção do vento.

Outro, galanteador, distribui acenos, enquanto ajeita o chapéu e encosta, com o franzir da testa, as sobrancelhas brancas. E era como se toda a neve do mundo tivesse ali poisado.

A mulher Espanhola, vestida de folhos e cetim, cabelo espetado para o céu, debitava sons das bochechas caídas, enquanto um dente assobiava, dando sinais de vida.
Este e pouco mais, apareciam e desapareciam como teclas num piano de cauda.

 O sino continuava a sua melodia estridente enquanto a notícia percorria os caminhos.

- Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado. 

O galanteador tinha um fato cerzido nas mangas e os colarinhos das camisas virados.
Três botões no casaco assertoado, e uma gravata de riscas com um bonequinho no fim, pendurado.

 - Três voltas no ferrolho - gritava a espanhola-, enquanto o sapateiro, duas portas ao lado competia com o sino em batidas vigorosas.

Chaminés despejam fumos, um monta-cargas deposita gente no andar de cima, como mercadoria.

De repente um caudal de água junta-se a outras e descem de mão dada formando um rio. A lisura líquida de um rio.

No cimo da rua, alcoviteiras debruçadas nas janelas cumprimentam com poses de estrela, os transeuntes na direcção da Igreja, conduzindo as notícias pelas pessoas e pelos caminhos.

 - Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado.
Quando pensava acertar o passo, já a vida tinha acertado o passo com ele.

Castanheiros murmuram, as amoras dançam, e as línguas das folhas gemem baixinho como se acompanhassem o ritmo da primavera.
Está um céu de catástrofe, relâmpagos em desatino.

Candeeiros na rua, pestanejam sinais receosos, numa luz ténue. A chuva ia caindo intensa, transbordando da terra como choro de criança.

O vizinho, para além de surdo, desarticulado. Um pé para cada lado, ombros descaídos cada um para o contrário do outro.
Olhos desabitados quase sem cor.  

D. Laurinda rezava avé-marias, e num ápice sobe a escadaria na direcção da sacristia e da confissão. O Demo tinha voltado.

O “apêndice”, assim chamava ao neto mais novo do presidente da junta, vagueava de roupão florido, fitas e cremes na cara.
Tinha delicadeza nos dedos espetados, com o mindinho sempre espevitado. Uma madeixa colada à testa, boquinhas viradas para dias feriados e subtilezas várias.
Não se lhe conhecia trabalho, apenas alguns jeitos e trejeitos.

Nada que levasse caminho de notícia, apenas tonteiras de D. Laurinda, que a cada passo, mais uma ladainha a nossa senhora, três “pai-nosso”, e umas benzeduras.

E o som do sino, acordes de chamamento, enquanto o povo se dirige para a homilia o mesmo sino que se tinha interrompido há anos.

- Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado.

- Três voltas no ferrolho- “adelante” - grita a espanhola, enquanto o sapateiro vigia o ensanduichado do galanteador e as coscuvilheiras anunciam preces e desgraças a três frases por segundo.

- O que aconteceu, sabes?

- Foi do coração. Desequilibrou-se coitado. 


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