07 março, 2016

Onde está a tua vida?


Podíamos ter começado a ser felizes há tanto tempo…
Tu, três cabelos numa volta rente ao crânio, e eu, angustiada com as tuas falhas.

Não bastava o intervalo entre os dentes, a presença constante da tua mãe, qual mata-borrão, ou as fotos do teu avô, em molduras pela casa

O teu coxear alternativo, os teus olhares lânguidos na direcção da criada da pensão, onde namoramos.
Salvas de tiros ocos, arma sem pólvora que teimavas dar e que me angustiavam. Tu e as colinas de Lisboa.

O teu jeito perfeito para me agarrar nas covas, as frases-relíquia que entoavas como discos pedidos em manhãs funestas. Um reportório de canções parolas como parolo o local brejeiro em que me encostavas às cordas. E eu à espera do esticar da corda, e nada.

O teu ar incompleto. Olhar de abismo, mesclado com cara de couve, cheia de rugas. Era tamanho o teu êxtase que abrias os braços qual louva-a-deus, e gritavas tão alto para o ar, que se esperava a queda de anjos com pingos de chuva, os olhos cerrados de Nossa Senhora, e juras divinas a qualquer instante para te salvar.

E eu, solto um sorriso tímido, quase sem me mexer. 
E este é mais o fim de um dia e o recomeço de outro. Tudo é retrato e filme. A preto e branco. Memórias.

Quando algo chega ao fim, há sempre outra coisa a começar.
Neste preciso momento, almas ténues deambulam entre casa, entre portas e outros despejam ao ritmo frenético da vida as receitas do dia 

As tuas coordenadas para mim, a régua e esquadro. Dois traços finos de cada lado, uma perpendicular.
Todos sabem que o diabo se esconde nos pormenores e eu já te vi dançar entre as nuvens e voar entre elas como um ícaro

Sussurro na noite. Dores que se tecem com mais dores. É o dia e a noite que se seguirá. Reentrâncias da vida. Um instante que prepara o instante seguinte. Misturas de gente. Produto de casualidade. Fracassos e glórias.

Um espaço que não cabe no tempo. Apenas tu e o espaço.
Tens feridas que não fecham nem cicatrizam. Vivem connosco lembrando-nos das suas razões. Vivem nas dobras do corpo, atrás da orelha, na língua. E dói na pele. Quantas das vezes reaparecem como facas afiadas. E ardem. Como se explodissem pulmões e sangram como se invadissem órgãos.

Até podíamos ter começado a ser felizes há muito tempo…
Mas abespinhavas-te com o teu sapato 38 num pé 42, as novelas que sorvias como se fosse a tua vida, as borbulhas saídas junto à maçã do rosto, e o canário que debitava melodias estridentes, como estridente a tua voz de galanteio.


Tu, três cabelos numa volta rente ao crânio, e eu, angustiada com as tuas falhas. 




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