04 setembro, 2016

REFUGIADOS















Qual o nome desse corpo a que chamas teu?
Pagas uma viagem incerta num ritual de ondas que te levam. Até à sétima vaga num porto qualquer.
Ficas num limbo, na sombra do corpo e a perda do brilho no olhar triste e despegado.
Trazes sonhos em rebentações e foges do infortúnio numa barcaça de mortalhas esculpida como cilindro.
És o esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele.
Algo que nem tu entendes, mas procuras. Foges de balas ziguezagueantes, morteiros de fome estampada no teu peito que enche os bolsos de muitos.
Esse é o teu tronco, numa outra cabeça. Os teus braços noutro corpo.
Lapidaste o desejo e esculpiste a lágrima furtiva enquanto os ponteiros desandam em sentido oposto e as marés invertem tenebrosas passagens do tempo.
Será num mar grego ou Italiano, será em janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados
Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos.
Cegos na busca de um caminho, uma sombra, uma luz ténue um tatear de dedos cansados, desamparados sem poiso nem regaço.
Um outro coração. Outro bater.
E os vossos olhos onde ficam? Onde estão os nossos olhos?
E amanhã mais um ritual de águas e corpos despejados por aí.
Cegos na vida que não queremos ver. Que nos passa e trespassa como anexos de outra vida qualquer, distante da nossa. Paralela, inconveniente.
Qual o nome desse corpo a que chamas teu?
Porções de gente galopante, “Cavalli” “Dolce Gabbana”, com cardápios de perfume a tiracolo em cheiro adocicado e nuvens densas misturando odores e “baton”.
E vemos e revemos os mesmos gestos, os mesmos olhares incómodos, esqueletos abandonados, rastos de gente sem gente dentro.
O esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele…
Ainda não consigo entender isto. Nem os meus nem os vossos olhos.
Qual o nome desse corpo a que chamas teu ?