A MEMÓRIA







A memória aparece intermitente nos dias que correm solarengos.

A memória dos mortos é mais viva do que quando estava com eles.

“Amanhã telefono-te. Sim, já gravei o número.
Não esqueças que temos de almoçar… este ano juntamo-nos todos antes do natal…”

As nossas conversas, encontros e reencontros ficam para depois. Nunca temos tempo, esquecemos rápido, e no entanto o tempo está aí.

Um dia temos tempo.

Sorrisos em câmara lenta, comboio no apeadeiro das sete.
As figuras, as vossas e as minhas, o passado no presente. As palavras.

Aos poucos e poucos vão aparecendo as primeiras ilhas. Ponto a ponto. Perfil a perfil.
Pequenos e imprecisos muros, delimitando jardins. Viramos, contrapomos edifícios, suspirando pelas imagens que se apresentam majestosas.

Uma longa avenida, dois a três candeeiros altos e largos, entre-cortados por outros pequenos e escondidos.

Igrejas e uma torre. Um monumento, mais uma capela e uma nave central cobrindo com feixes de luz restos de pintura nas paredes.

Gente que traz gente. Museus e mapas e uma praça literária com o privilégio do tempo certo na medida exacta do tempo.

“Amanhã temos futebol, para a semana discoteca. Não te esqueças…”

E nunca ninguém esquece. Porque esqueceríamos? 

E o tempo hoje calmo, fica agreste amanhã, mais a voragem dos dias que correm apressados como rio para o mar.

A vossa memória é mais viva hoje, do que quando estava com vocês.

Mulheres de histórias difíceis cheiram a sabão azul e branco. Gente a falar no interior das pessoas.

Palavras que não falam. Gestos reflectidos na dança e o vento que empurra as folhas no sentido oposto ao dos olhares que se perdem. Olhos parados de espanto.

Queixo a resmungar amiúde, espasmos na glote, olhos numa dança turva.

Micas, lembram-se? A beata-mor, assolava no largo fronteiro à capela. Arrastava um pé. O outro estica-se na passada.

“Dos tornozelos” – dizia ela, disfarçando quilos a mais que transporta consigo, e nós, miúdos, gaiatos que não pensavam nas coisas da vida.

O nosso mundo era a rua cravejada de pedra solta, os quintais vizinhos, as árvores, a bola rota, mais gomo menos gomo e os doces da D. Emília.

Era uma casa de rés-do-chão de duas assoalhadas e um quintal minúsculo. Uns bibelot´s, umas cortinas púdicas compridas com flores e travesseiros espalhados no sofá. 

A velha estagnada, lenta como um caracol, surda na conveniência.
Tem o odor confuso da idade, cheiro a canfora mesclado com o cheiro das pregas da pele. Voz arrastada entre a demência a ruindade escondida nos bolsos da bata preta.

E partimos sós, cada um para o seu tempo e o seu espaço com aquele até breve que nos enche o corpo, as mãos e os sentidos.

E são estes sabores amargos. Estas memórias em catadupa que nos inquietam o verbo, e a meninge.


A memória mantém-se intermitente e viva… pois temos sempre tempo… até um dia. 

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