Deixa ficar assim…






Dormes menos. Vês passar o tempo, quieto, sobranceiro, meticuloso.

Cartas ao pai natal. Um comboio elétrico para aquele, uma pista de carros para outro, a camisola de lã, o cachecol, o perfume. Uma interminável lista.

 E de repente no mesmo acordar todos na direção da missa do galo, três pais-nossos, duas ave-marias, a Ceia de Natal.

E o espelho na cómoda em frente, que te reflete.
O que irá refletir daqui por uns tempos?

 Neste instante tudo é serenidade, O mundo parece ter parado, Nem um movimento.
Contudo, se abrir o cortinado, reflexos no vidro do quarto.

 Até os murmúrios regressam, acompanhados pela minha avó espanhola.
- “Hola como estas “ – e uma chávena de chá segura por dois dedos e o mindinho esticado.

O Avô impaciente, deslocava-se como se patinasse.

As “tias” que acompanham a avó, recostam-se em poltronas com crochet´s de um lado e a boca revirada (para assuntos da vida de cada um), para o outro.

Isso e as dentaduras que abanam em sons de castanholas num “salero” de Vigo.

 E o eco dos passos de ninguém ressoava nas paredes enquanto a avó de mão em concha no ouvido esquerdo respingava…
- “ Que esta sucediendo niño ?”   
- “Oh Avó, foi um fantasma que arrastou os móveis contra a parede e atiçou os cães na rua “.


 E, as velhas inclinadas como o Titanic, quase a regurgitar veias e glotes em catadupa boca fora, estremeciam da resposta.

-“Sabes assobiar, não sabes? “Perguntava o Avô.

 Revisito o passado e hesito um novo olhar. Tudo parece mudado.
O naperon na mesa-de-cabeceira, o móvel com as fotos de família, a cor das paredes, até a cruz pendurada por um fio de contas no canto da cama.

Os dedos esticadinhos no pulso esquerdo sentindo o bater da vida. Mais forte, cadenciado, com ritmo.

 Eram dias invernosos, palavras e laços que se desatam, filigranas trabalhadas ponto a ponto e abraços com afectos.

E os nossos destinos longínquos, num caminho repetidamente traçado.
As mesmas paragens, a mesma língua de areia ao sul, que resiste à invasão do mar, o vento nas dunas, o rebentar das marés, o voo das gaivotas e a amêijoa aberta.

O lado negro da ria. Pescadores zangados, o vento que sopra solto, os progressos das ostras da Amélinha e o candeeiro a petróleo que te ilumina caminho. Até um dia.

Fantasmas vagueiam o pensamento e instalam-se na escuridão dos alertas.

Os dias não se esgotam no passar das horas. No inchaço dos meus olhos, na voraz idade que passa sem eu ver, paliativos na memória.

Os teus passos nos sapatos engraxados, aproximando-se devagar, como só tu. Com elegância.

 -“Sabes assobiar, não sabes?”

 E esta infância de correrias e trapalhadas e jogos e amizades profundas como se a dor ainda hoje nos apertasse uns contra os outros como nas filas, avenida abaixo na quadra do S. João.

Nós e as nossas vidas, os nossos fantasmas, os nossos velhos acoplados, mais a gaja do terceiro direito, deambulando para cá e para lá magnificamente como merda luzidia, onde a diferença disfarçava no hálito cúmplice dela, uma surdez galopante e os joanetes escondidos em pé atravancado.

E esta infância que muitos apagariam a mata-borrão e eu permaneço nela o tempo que for preciso para vos ver sorrir e gritar… “passa a bola”.

 -“Sabes assobiar, não sabes?”
     Sei, mas deixa ficar assim. 

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